sexta-feira, 17 de julho de 2009

TROPA DE ELITE

tropa-de-eliteGOOD

Brasil (2007)

Direção: José Padilha

Elenco: Wagner Moura, André Junqueira, André Ramiro, Maria Ribeiro, Fernanda Machado e Marcelo Valle

O mais importante filme brasileiro de todos os tempos, “Tropa de Elite” escancara trajetória e números tão absolutos que desmonta qualquer tentativa de quem precisa e gostaria de ver  rebaixado um trabalho irretocável como o perpetrado pelo diretor José Padilha (de “Ônibus 174”).

“Tropa de Elite” inverte todos os signos e como num tabuleiro de xadrez aplica um xeque-mate no discurso pronto de que “todo mundo é corrupto”, “a oportunidade faz o ladrão” e “está chorando porque também queria participar da bufunfa” e outras barbaridades típicas de quem mede com régua própria coisas e pessoas. Como diria um velho filósofo: “Você vai preferir acreditar nos seus próprios olhos ou no que a grande imprensa está lhe dizendo ?” Esta cegueira moral gerou esta distorção toda e fez de “Tropa” o filme mais incompreendido e manipulado desde “Metropolis” de Fritz Lang.

O filme, ao expor as entranhas do BOPE, modifica os papéis de mocinho e bandido, e o espectador já nos primeiros minutos acaba fisgado pela narração alucinante dos detalhes do cotidiano do Capitão Nascimento (Wagner Moura em atuação que reinventou sua carreira).

É provável que José Padilha nem soubesse no que estava se metendo ao radiografar o interior do competente, e muitas vezes violento, Batalhão de Operações Especiais. O estrondo de indignação, aplausos, vaias, comoção generalizada com que o filme foi recebido entre público e intelectualidade demonstra que o trabalho,parido pelo jovem diretor, foi muito além das fronteiras da sétima arte.

     Fatos e lendas cercam de todas as formas esse objeto único chamado “Tropa de Elite”. Durante as filmagens as armas cenográficas foram roubadas de dentro de uma van. Pessoal da técnica e do apoio abandonaram as filmagens temerosos que ação tivesse partido de um Bope contrariado pelo despimento total de suas operações.

O prejuízo do roubo e a demora fez com que o filme atrasasse. Foram contratados então, especialistas norte-americanos tarimbados em vídeos de ação para a agilizarem as gravações. O filme que havia sido orçado em R$ 4,9 milhões salta para R$ 10,5 milhões.

Com o filme quase sendo finalizado a grande imprensa “descobre” a obra e logo já parte para a comparação com “Cidade de Deus”. O fato foi reforçado porque o roteirista Bráulio Mantovani e o montador Daniel Rezende haviam trabalhado na superestimada obra de Fernando Meirelles.

O filme espetacularmente começa a ser vendido por camelôs do Rio e ganha as ruas e noticiário. Chega rapidinho na 25 de Março em São Paulo. Naqueles meses me recordo de ouvir um camelô explicar detalhes do filme e convencer um desconfiado comprador a “morrer” com os R$ 5. Na tentativa de frear a venda, diretor e produtora dizem que a cópia não estava finalizada. tropa-de-elite1

Tamanho barulho desperta a atenção do Ministério da Justiça que diz que atacará “a demanda”. Burocratas da Agência do Cinema lamentam o evidente prejuízo. A TV começa a falar do caso e cópias piratas chegam ao Norte e Nordeste. A esta altura “Tropa de Elite” já havia virado coqueluche nacional e o filme “que não existia”mais visto  da história do país. Campanhas pentelhas (PTelhas ?) dizendo que pirataria é crime começam  a varrer as salas de cinema e televisão aberta. Nada disso acaba dando resultado, o filme a estas alturas era assunto até internacional. Detalhe:continuava inédito nos cinemas.

Por conta do vazamento,a Paramount decide antecipar a distribuição do longa. O impacto da pirataria começa a ser incógnita na bilheteria de “Tropa”. Rodrigo Saturnino Braga , da distribuidora Columbia, relembra o fato do presidente Lula ter assistido a cópia pirata de “2 Filhos de Francisco” e acha que não há problema algum na crescente distribuição ilegal do filme.

Em outubro de 2007, José Padilha finaliza o filme e garante exibição imediatamente. A estréia não ocorre e o Lao, da 25 de Março, troca de carro importado pela terceira vez no ano... Policiais do Bope começam a relatar casos de porteiros, garçons e populares que começam a aborda-los pedindo autógrafos e sinalizando com o polegar para cima em atitude, inédita para policiais, simpática.

O site do Bope fica congestionado e uma multidão acampa em frente ao Batalhão perguntando como proceder para se tornar um membro da equipe.

Uma equipe da TV japonesa desembarca no Brasil para filmar documentário sobre o filme mais falado e assistido e que ainda não foi lançado. Voltando de uma “peregrinação” ao centro de São Paulo escuto conversa surreal de motorista e passageiro de ônibus dizendo que “Tropa de Elite” é uma espécie de “Rambo 2”.

Crianças começam a cantar o hino da tropa.

Cópias piratas surgem em quartéis da PM, delegacia e Exército. O filme ganha status de “bíblia” dos homens da lei.tropa de elitre ENORME

A imprensa governista decide ressaltar o caráter retrógrado do filme o que faz com que oficiais da PM capitulem e entrem na Justiça contra a exibição da fita. O jornal Folha de S.Paulo tenta falar com Padilha sobre a possível proibição. O diretor amedrontado com tanto barulho se recusa a dar entrevistas. O governador do RJ Sérgio Cabral assiste a cópia pirata e “aprova” o filme, o mesmo ocorre com o ministro da Justiça Tarso Genro dizendo que o filme é “didático”. Um cheiro de manipulação esquerdista a essa altura começa a ser percebido. Logo, o diretor do filme começa uma inacreditável história de que o filme foi mal compreendido e que ele “não louva “ a Polícia. Assustado com tanto patrulhamento vai até o Programa Roda Viva e quase pede desculpas por ter feito o filme que fez...

O governador Sérgio Cabral volta atrás e diz que “o filme mostra a que ponto nós chegamos e desmente ser fã da obra. Os ambulantes cariocas decidem deixar o fantoche lulista para lá e inventam mais duas continuações. Documentários sobre o BOPE exibido no Fantástico e na TV acabam se transformando em “Tropa de Elite 2” e “Tropa de Elite 3”. Camelôs descobrem o documentário “Notícas de Uma Guerra Particular”(1999) de Kátia Lund e lançam a parte 4 do “Tropa”.

Wagner Moura, o Capitão Nascimento, começa a ser requisitado para filmes, novelas e comerciais. Vai ao “Faustão” e dobra a audiência da tarde.

Finalmente o filme entra em cartaz nos cinemas. De maneira quase secreta,e sem um pingo de publicidade,o cine Maxi de Jundiaí (SP) consegue a proeza de ser o ÚNICO cinema a exibir então o filme. O inevitável boicote fica escancarado. Notas na Folha e Estadão começam a inventar sobre um possível fiasco do filme. A revista Veja decide contratacar e dá grande destaque ao filme de Padilha. Na capa um durão Wagner Moura fita o leitor com arma na mão.tropa de elite2

Após a revista, o filme “estréia direito” e em pouco mais de 10 dias já é o filme mais visto e comentado da história do cinema brasileiro. O Instituto de Pesquisas Vox Populi realiza então pesquisa e mostra um resultado arrebatador. Na opinião de 72% dos entrevistados, os criminosos que aparecem no filme são tratados da forma que merecem e 80% deles acreditam que a polícia é apresentada de forma correta. Resumindo:aprovam que “desçam lhe o relho”. A frase de Wagner Moura “Playboy que fuma maconha é responsável pela morte de colegas do Bope na defesa da lei” ganha aplausos e críticas. Os jornalistas “pró-hemp” começam a boicotar o filme e tascam-lhe a pecha de “reacionário”.

Cadernos de fim-de-semana começam a tentar traçar paralelo forçado e idiota comparando o filme a “Lúcio Flávio”, “O Bandido da Luz Vermelha” e “Cidade de Deus” enxergando aí uma linha evolutiva. Jogada desesperada a fim de diminuir o valor do filme com a velha ladainha “ah mas tem outros também...”. Se há algum mérito no filme “Tropa de Elite” é exatamente o oposto do que bradam os jornalões. Com tudo isso, a crítica especializada procura transformar bandidos perigosos em “Zés Galinhas”. A revista Trip coloca nas bancas mais uma edição louvando traficantes  mostrando o drops dulcora do mundo cão.

O humorista Tom Cavalcante assiste o filme e monta a paródia “Bofe de Elite”, o quadro, retratando policiais gays faz tanto sucesso que dobra a audiência do programa “Show do Tom” e obriga os camelôs a lançarem mais um produto. Agora, além dos quatro DVDs piratas um quinto de bônus (o do Tom) entrava no pacote. “Três é dez e cinco é R$ 15 chefia”, bradava um excitado vendedor ambulante satisfeito com as vendas incessantes.

O filme sai em DVD oficial a R$ 29,90 e o site da Submarino esgota todos os itens num único dia. O longa é selecionado para o Festival de Berlim.

Apresentado na cidade alemã, o filme é prejudicado pelo legendamento capenga, não provoca reações da platéia mas lota a entrevista coletiva de Padilha após a exibição. Tablóides europeus comentam o sucesso do filme visto por 11,5 milhões de brasileiros e toda a polêmica que o cerca. A Ilustrada numa das maiores burradas de sua história publica que o filme foi um fiasco e que é certo que não ganhará um prêmio sequer. Contrariando a opinião do jornal paulistano a revista inglesa “Screen” e o jornal alemão “Berliner Zeitung” dão nota máxima ao filme e qualificam-no como “obra-prima”.

Sai o resultado.“Tropa de Elite” é o principal vencedor do Festival de Cinema de Berlim. Na mesma noite Arnaldo Jabor faz um buxixo de pouco caso enquanto Rubens Ewald Filho prefere ressaltar a força dos distribuidores , os irmãos Weistein.

Após a divulgação dos premiados, José Padilha é ovacionado como se fosse um Brad Pitt ou um Clint Eastwood e é aplaudido em pé por vários minutos por jornalistas, diretores e organização do festival.

Os jornais brasileiros publicam o resultado e dão o destaque costumeiro, mas estranhamente,em se tratando de segundos cadernos,um grande silêncio começa a se formar. O filme é então inacreditavelmente “esquecido” pela imprensa.

Ao chegar ao Brasil,Padilha começa a falar mal da própria obra e prefere divulgar o

documentário “Garapa” sobre famintos do Nordeste, ainda no papel. É lançado o longa “Meu Nome Não é Johnny”, o filme atua exatamente como uma espécie de lado B e tenta

romantizar a esperteza e gravar a surrada frase “os fins justificam os meios”. Uma reação à mensagem passada por “Tropa”. Com Selton Mello no elenco o filme estoura nos cinemas mas empaca nos camelôs. Alguns meses se passam e “Meu Nome Não é Johnny” já não é lembrado por mais ninguém.

Globo e Record atualmente disputam a adaptação do filme de Padilha para as telas da TV.

Se ainda não assistiu você não passa de um fanfarrão !

*****Ótimo

Nenhum comentário:

OS VINGADORES