domingo, 31 de outubro de 2010

MILLER, A VOZ DA RAZÃO ARDENTE (Folha de S.Paulo 25/12/1983)

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PEPE ESCOBAR

A HORA DOS ASSASSINOS de Henry Miller. Tradução de Milton Persson. L&PM, 112 págs.

Quarenta anos nas costas, várias marcas no corpo, incontáveis peregrinações, viciado no ópio do ócio. Um dia, em 1931, Henry Miller resolve escrever. Proclama o fim da era do romance – bye bye Dostoievski, Balzac e Proust – e instaura o tempo da grande divagação sobre si próprio.

Fácil. Henry tinha passado quarenta anos fabricando um personagem para seus livros. E esse personagem era ele mesmo. Um iconoclasta de estilo cósmico, fluente, convulsivo, imitando à perfeição a catarse e o vômito. Dos gregos, aprendeu que a força do espírito, o poder e a energia fazem a felicidade do homem. De Nietzsche, que a compaixão a compaixão só é aceitável se parte da felicidade, e não do ressentimento. De Rimbaud, pegou a idéia do escritor como vidente. De Rabelais, a celebração da carne, da paixão e do prazer.

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Um dia, em 1927, de passagem, em um porão sujo no depois mítico 14º Distrito de Brooklyn, Henry encontra Arthur Rimbaud, vidente. Vivia a sua própria temporada no inferno. Precisou de dezenove anos para sentar aquela beleza no colo, e injuriá-la à sua maneira com um furor apaixonado.

Que escritor teria coragem de escrever um ensaio comparando-se com a febre vital do príncipe Arthur ? Só mesmo o insolente Henry. Mesmo porque ele já havia percebido que a exploração de si próprio era a exploração do mundo e de outros escritores. Um processo de comparação , descoberta de ligações perigosas, iluminação gradual de potencialidades. Dickens teria apodrecido em uma fábrica, Shaw em um escritório de Dublin, Wells em uma loja e Rilke no exército prussiano se não fosse esse desejo persistente de autodescoberta que os levou à linha de frente intelectual de sua época.

Quando Henry fala de Arthur – sua voz demorou 37 anos para chegar a este paraíso tropical – em cada seqüência incandescente de pensamentos ouve-se a pergunta crucial: Que grau de autoconhecimento um homem deve obter para se considerar salvo ? Novalis diria que todos os homens poderiam ser gênios se não fossem tão preguiçosos. Mas não é por aí. Porque no limite da salvação está o mergulho no abismo.

“A Hora dos Assassinos” é a crônica de uma dissecação empreendida com lágrimas de sangue. Henry nos mostra o desenraizado, o ousado/tímido Arthur musicando a linguagem e na sua suprema negação, no seu fracasso exemplar, com toda a “sede de experiência, curiosidade insaciável , desejos irrefreáveis, coragem e tenacidade, autoflagelação, ascetismo, temperança, medos e obsessões, morbidez, solidão, sensação de ostracismo, desmesurado tédio”. Penetra na alma de Arthur – porque já sentiu o mesmo – para revelar seus cristais de “inocência, fome, inquietude, fanatismo, intransigência e absolutismo”. Como Baudelaire, Blake, Emily Bronte, Kafka, Sade, Arthur levou a linguagem ao limite, removeu qualquer sombra de mistério da caverna terrível do Mal.

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Renegado, só lhe restava expiar a transgressão traficando na Abissínia, economizando cada franco e sonhando eternamente com o escape definitivo.

O que Rimbaud não resolveu, pergunta Miller ? Seu corpo a corpo com a mãe, que pode levar a loucura, “mãe-écran” da época. Por causa disso, Rimbaud renegou o amor. Ficou no angustiante esplendor da solidão. Chegou ao desconhecido. Revelou o que ninguém nunca viu. Mas – como reconhece na “Carta do Vidente” – neste limite é inevitável a perda da compreensão de todas as visões. Rimbaud, como Blake e Nietzsche, foi aniquilado pelos raios da raiva de Zeus.

“Viu que tudo era uma mixórdia nojenta, que ser outra nulidade histórica não o levaria a parte alguma. Queria viver , queria mais espaço, mais liberdade: queria expressar-se, não importa como. E por isso disse: “F...cara ! F...você e todo mundo !”.

E depois abriu a braguilha e mijou em cima de tudo – e de uma altura respeitável, como Céline certa vez disse. E isso, caros escravos da vida, é realmente imperdoável , não é ? Eis aí o crime, não é ?

Rimbaud, na sua criminosa renúncia, transformou-se na voz sublime do silêncio. Pediu as estrelas. Deram-lhe apenas indiferença. Uma “alma incompatível”, como a define Miller neste ensaio dilacerante – e muito bem traduzido. Quando o pensamento se encerra em cavernas, o amor se enraíza no inferno mais profundo , dizia Blake.

Quantos hoje, ainda terão a coragem de se alimentar deste fogo ?

A Charlotte já cantou este tema naquele disco “I.R.M.”…

THE CLASSICS COMICS LIBRARY Nº 27 – NEMO

 

Port Publications (1987)

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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

ROCK É ROCK MESMO !

 

Judas Priest Breaking the Law in Chicago 1981 1

JUDAS PRIEST – BREAKING THE LAW

"Breaking the Law" by Judas Priest
There I was completely wasting, out of work and down
all inside it's so frustrating as I drift from town to town
feel as though nobody cares if I live or die
so I might as well begin to put some action in my life
Breaking the law, breaking the law
Breaking the law, breaking the law
Breaking the law, breaking the law
Breaking the law, breaking the law
So much for the golden future, I can't even start
I've had every promise broken, there's anger in my heart
you don't know what it's like, you don't have a clue
if you did you'd find yourselves doing the same thing too
Breaking the law, breaking the law
Breaking the law, breaking the law
Breaking the law, breaking the law
Breaking the law, breaking the law
You don't know what it's like.....
Breaking the law, breaking the law
Breaking the law, breaking the law
Breaking the law, breaking the law
Breaking the law, breaking the law
Breaking the law......

 

Um sermão do Padre Judas para começar a quinta-feira em alto astral…

ORAÇÃO A SÃO JUDAS TADEU




São Judas Tadeu, glorioso apóstolo, fiel servo e amigo de Jesus, o nome do traidor foi a causa de que fosseis esquecido por muitos, mas a Igreja vos honra e invoca universalmente como patrono nos casos desesperados, nos negócios sem remédios.

Rogai por mim que sou um miserável. Fazei uso, eu vos imploro, desse particular privilégio que vos foi concedido, de trazer viável e imediato auxílio, onde o socorro desapareceu quase por completo. Assisti-me nesta grande necessidade, para que eu possa receber as consolações e auxílios do céu em todas as minhas precisões, atribulações e sofrimentos, alcançando-me a graça que tanto necessito
(aqui se faz o pedido particular), para que eu possa louvar a Deus convosco e com todos os eleitos, por toda eternidade.

Eu vos prometo, ó Glorioso São Judas, lembrar-me deste grande favor e nunca deixar de vos honrar como meu especial e poderoso patrono, e fazer de tudo o que estiver ao meu alcance para incentivar a devoção para convosco. Amém.

São Judas Tadeu, rogai por nós!

ACTION COMICS Nº 384

 

DC Comics (1970)

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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

CROWLEY versus CONSTABLE AND CO.LTD (1934)

 

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Aleister Crowley, mágico satânico, poeta, expoente de orgias sexuais pagãs, que se dizia viciado em drogas, era bastante conhecido da imprensa e do público britânico como “A Besta”, “O Homem Mais Corrompido do Mundo” e “O Rei da Depravação”. Para seus discípulos, no entanto, ele era “O Messias”. Depois de incertas aventuras no exterior, ele voltou à Inglaterra. Sem dinheiro e ignorado, procurou recuperar a fama e encontrar novos recursos através de uma ação judicial.

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A editora Constable and Co. acabara de publicar Laughing Torso, um livro biográfico que insinuava ser Crowley praticante da magia negra. Crowley processou a editora. No tribunal, declarou que praticava magia branca e não negra. Revoltado com o depoimento de Crowley, especialmente a sua admissão de que mantinha em seu apartamento de Londres um esqueleto humano, o qual “alimentava” com sangue humano e passarinhos, o júri decidiu contra ele. Crowley perdeu também na apelação. Pouco depois, sumiu da evidência que tanto buscava. Morreu em 1947 meio esquecido.

ARTE DA CAPA - KIM NOVAK

 

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QUARTETO FANTÁSTICO Nº 7

 

Ebal (1970)

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Quarteto Fantástico nº07 - Ebal-016

Quarteto Fantástico nº07 - Ebal-023

terça-feira, 26 de outubro de 2010

LIBERACE versus DAILY MIRROR e CONNOR (1959)

 

LIBERACE

“Delicado”, “Risonhozinho”, “Requebrado”, “Afetado”, “Sabor de fruta”. Esses epítetos foram aplicados a Liberace em sua primeira viagem à Inglaterra, em 1956. Tudo provinha de um único homem, William Connor, um jornalista agressivo e sarcástico, que expôs suas opiniões pelo Daily Mirror, de Londres, sob o pseudônimo de “Cassandra”.

Para Liberace e sua mãe, que o acompanhava na viagem, o ataque de Cassandra podia ser resumido a uma só palavra: homossexual.

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A sra. Liberace imediatamente caiu de cama, sob cuidados médicos. Quando lhe foi recomendado que deixasse a Inglaterra, ela se recusou categoricamente, receando que sua partida pudesse ser encarada como uma confirmação do comportamento sexual heterodoxo do filho. Os Liberaces não eram os únicos que tinham essa interpretação. As audiências, quase que unanimemente, adoravam suas apresentações, mas sempre havia alguns espectadores, nas galerias, presumivelmente estimulados pelas palavras de Cassandra, que saudavam sua entrada em cena com gritos de “Bicha ! Bicha !”.

Liberace prontamente consultou um advogado e entrou com uma ação judicial contra o Daily Mirror e William Connor. Três anos depois, quando Liberace foi chamado a prestar depoimento no tribunal, fizeram-lhe duas perguntas à queima-roupa:

- Você é homossexual ?

- Não, senhor.

- Já se entregou a práticas homossexuais ?

- Não, senhor. Nunca, em toda a minha vida.

aqui

A defesa alegou que os comentários feitos estavam no reino legítimo da crítica e insistiu que não tinha conhecimento do significado da palavra “fruta” para os americanos. Fez também comentários cáusticos sobre os trajes espalhafatosos de Liberace e apresentou uma testemunha que declarou que o pianista lhe confidenciara que tencionava comprar perfumes para si próprio em Paris. Depois de seis dias de julgamento e várias deliberações, o júri deu ganho de causa a Liberace, fixando uma indenização de oito mil libras, mais as custas do processo.

(S.W.)

O mais virtuoso, amado e polêmico pianista da história da música. Pai do glam (um proto Michael Jackson) e referência indiscutível para quem gosta de música bem executada. Reformulando a famosa frase de Oscar Wilde: “Só os tolos julgam pela aparência”…

AIRTO DE VOLTA (POR POUCO TEMPO) AO PAÍS DA BUROCRACIA (Jornal de Música, agosto de 1977)

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