quinta-feira, 31 de março de 2011

O PALETÓ (O Nanista, Nº 2, Maio de 2001)

 

paleto

NANI

No escuro, o paletó de Valdir, no cabide, se sente crucificado. Faz meses que seu dono não mais abriu a porta do armário. Talvez ele tenha se aposentado, pensa o paletó. Não mais foi vestido para ir ao escritório. Ou será que ele foi demitido ? A última vez que o paletó saiu foi para uma festa no Lions Clube. Ainda há uma mancha de salgadinhos no bolso que foram malocados ali. As portas vizinhas do armário, onde ficam as roupas femininas, se abrem e fecham de vez em quando. No escuro, o paletó vive sua angústia sem saber de seu dono.

Até que um dia: a luz brusca e o ranger da dobradiça da porta despertam-no.

Mãos outras pegam-no e mais pares de mãos vestem-no em seu dono deitado, desajeitado, paralisado e frio.

Que estará acontecendo ? Que flores são estas ? E essa gente em volta ?

Uma tampa se fecha. O escuro outra vez. O paletó vai ser enterrado com o seu dono.

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