domingo, 29 de maio de 2011

VALEU PELO BANDO DOS QUATRO (O Estado de S.Paulo, 30/11/1986)

PP True Stories
Estes nomes salvaram o pobre FestRio do desastre: Jarmusch, Demme, Byrne e McBride
PEPE ESCOBAR
Já dizia o velho e ainda guaribado Trini Lopez : I like to be America. No tempo dele era uma certa América pré-psicodélica, Vietnã e Watergate. Mas o que eu quero, você quer e todo mundo quer, é estar em uma outra América. Um filme montado por um novo e arrasador "Bando Dos Quatro": Demme, Jarmusch, Byrne e McBride. Eles foram o creme  de todos os cremes deste FestRio onde imperaram filminhos de quarta categoria, tietagens a-gô-gô, uma ridícula briguinha provinciana Rio-São Paulo e inevitáveis baianadas. Fogo em Brasília, Funaro entrega ou não os pontos, o País no buraco, o Irãgate comendo à solta em Washington - e aqui na prainha só deu O Bando Dos Quatro. A seleção oficial do FestRio foi lamentável.
PP Fest Rio 1986 Com duas exceções: McBride e o noir mudo japonês de Hayasho, com Busterkeatonices, capa-e-espada e muita imaginação para compor um primeiro filme impecável com apenas 300 mil dólares. O baianinho Veloso fez (fez ?) um discursinho atrasado no mínimo duas décadas para a sua cortesinha fiel. Só os ishpertosh da patetice aplaudiram, é claro.
Não vieram três preciosidades pré-anunciadas: Fool For Love (Altman), Round Midnight (Tavernier) e O Apicultor (Angelopoulos). Alta marcação. Dos que vieram em carne e osso, Oshima é claro, comportou-se como Mr.Cool em pessoa. O outro Mr.Cool, Mr.Byrne, envolveu-se em uns contratempos mas falou tudo que desencavou de sua polidez reclusa para este que vos fala. Laurie Anderson divertiu-se com as "férias" e confidenciou: dificilmente viria ao Brasil para trabalhar. Como balneário, o Rio permanece imbatível.

PP The Big Easy O negócio foi O Bando dos Quatro, cujo impacto só foi igualado pela aula de cinema, história, paixão e competência técnica do Caravaggio, de Derek Jarman. entre outras coisas, o diretor não só recuperou a luz de Caravaggio como passou  todas as nuances de luz e sombras para o filme Fuji. É um dos mais impressionantes trabalhos de "restauração" dessa época.
Demme, Jarmusch, Byrne e McBride são quatro dos poucos cavaleiros do apocalipse América que ainda tem energia criativa suficiente para revigorar não só o cinema-morto-pelo-videoclip como celebrar uma riqueza espiritual que ainda não desapareceu da "Terra dos Bravos". Something Wild (Demme). Down By Law (Jarmusch), True Stories (Byrne) e The Big Easy (McBride) têm mais elementos em comum do que parece. Jarmusch e McBride filmaram em New Orleans e arredores: falam de enterro, estrada, conflito racial e dramas de consciência. McBride na clave anfetamínica de Breathless, Jarmusch cultivando um distanciamento cool, doce-amargo.
O fato de que The Big Easy tem um final do tipo imposto-pelo-produtor não o invalida.
Byrne e Demme entraram de cabeça no pesadelo da middle America , submersa nas siglas dos conglomerados. Baudrillard - que botou o vazio da America em livro como ninguém - cairia de quatro com os dois.
Byrne criou uma ficção aparentemente "larger than life" (como tudo no Texas) para celebrar a força dos "little men" que constróem suas vidas a partir das menores insignificâncias. Com isso, comenta simplesmente tudo: sonhos, pesadelos, histerias e reflexos da doença americana. Começa como um road movie e acaba com um desfile, onde Mr. Byrne, mestre de cerimônias, demonstra toda a sua compaixão apaixonada - e olha que ele é cool abaixo de zero...
Demme fez de tudo: Something Wild é "Wild" como A Wild, Wild Life cantada por Byrne e como a Wild Thing, clássico dos Troggs nos anos 60, e recriada em reggae-rap pela sensacional Sister Carol. começa como um "Lulu" no Soho novaiorquino, vira Road Movie, Teenage Movie, Horror Movie, Thriller e termina como os bons e velhos filmes de amor. No caminho, Demme traça todo o mapa da America: as pessoas travestindo-se para não sucumbir à monotonia, à vida alienada ao cartão de crédito. Ao sexo como fuga ou comércio, o desesperado recurso à bandidagem, as memórias corroídas por uma realidade barra pesada, o amor como Santo Graal e a explosão libidinal articulada através da música, cristalizando-se em uma das mais sensacionais trilhas sonoras da história do cinema. Isso é que é cinema, isso é que é "Wild". Esse Bando Dos Quatro é uma porrada. Agora acendam velas a Mephisto para que algum deles chegue à taba em circuito comercial. E sejam bem vindos ao prazer de fazer e sentir cinema.

gostoso como uma caixa de bombom…


…Demme captura Jeff Daniels iluminando a cena.

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