sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

RETROSPECTIVA 1988 (Bizz nº41, Dezembro de 1988)

41
PEPE ESCOBAR
"Eu vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura, famintas, histéricas, nuas..."
Este foi o uivo de Allen Ginsberg em 1955- simultâneo à pelvis libidinal de um country boy do Mississippi e à rebeldia sem causa de James Dean.
Eu vi, você viu, todo mundo viu quando os studios do flower power proclamavam: ´não confie em ninguém com mais de 30 anos.´ Eu vi, você viu, todo mundo viu que a própria cultura pop/rock/etc. há muito tem mais que 30 anos e, portanto, afigura-se como absolutamente inconfiável. Levando-se em conta a premissa básica, vamos ao remix 88 do uivo de Ginsberg.

Eu vi:
    William Burroughs, velho junkie, e melhor mente de uma geração esculpida pelo sabor vital, em uma galeria londrina, silencioso, inescrutável como uma múmia asteca de temo cinza, pequenos olhos azuis em uma face impassível, os murmúrios de uma cicatriz nos lábios a ponto de se converter em passes de magia xamânica (e sua banda favorita é Sonic Youth).
    A bacanália da era do chip nas noites de sangue, suor e ecstasy da dormência acid house londrina, contrabandeada de Chicago. Hordas silenciosas de Reebok e Benetton ajoelhadas a vitrinas laminadas com compact-discs dos Dire Straits.
    As ortodoxias étnicas de todas as latitudes planetárias corrompidas pela blasfêmia do som dos guetos negros.
    A má consciência de uma armada de milionários pop oferecendo seus serviços grátis aos pobres e deserdados do sonho corporativo de consumo universal, em troca de uma simples exposição via satélite a milhões de sócios deste sonho com liquidez no cartão de crédito.
    Os órfãos da perestroika na Alemanha Oriental imaginando as pantomimas de David Bowie através do muro de Berlim.
    Os remanescentes da última pétala perdida do flower power comprando dez gramas de seinsemilla, no Bundog, em Amsterdam, para acompanhar a audição de "Third Stone from the Sun" de Hendrix.
    Legiões suburbanas de jeans encardido, camisetas satânicas e garrafas de cerveja morna rezando no nono círculo do inferno de metal para reencarnações da bruxaria Zeppelin, como Mission e Kingdom Come.
    Jimmy Page entrando no palco do Hammersmith Odeon, como um mendigo da Londres de Dickens, para pronunciar a definitiva missa negra em "I Can´t Quit You Baby".
    O blues dos soldados da América em sua febre de sábado á noite, quando largam os botões de seus mísseis Pershing estacionados para a proteção do mundo livre e enchem as caras avermelhadas com copos de um litro de cerveja temperada nos botecos de Frankfurt, a Dallas da Europa Central, ao som de Dolly Parton.
    Os egos inacessíveis de Morrissey e Mark Smith, que os impediram de abraçar o confusionismo pós-modernio e reiteram sua condição de exilados.
    Marc Almond abusando da estética Judy Garland de dilaceromento terminal.
    O elo perdido entre o acid rock e o expansionismo jazz-fusion em um funkadélico LP do Defunkt.
    Batman confidenciando que sua atração pela Mulher-Gato estava no cinto de utilidades.
    Whitney "Nova Iguaçu" Houston vendendo 27 milhões de discos em todo o planeta e sublimando sua libido acetinada em uma apoteose de orgasmos fingidos.
    Wacko Jacko mutando-se em uma nova raça.
    Japonesas jogando calcinhas no palco à visão de gigantescos monitores da rala barba libidinal de George Michael, exalando o visual James Dean BMW, privilegiado por nove entre dez aspirantes a detonar uma epidemia de Aids.
    Prince mutando-se em uma nova entidade lasciva.
    Três quartos do New Order tomando chá em copinho de papel a 30 pence e pagando a conta com adicional de autógrafo para a caixa escocesa da estação de Manchester.
    Freaks, junkies e auto-excluídos da grande prestidigitação reaganiana arranhando as paredes em Alphabet Street ao som de discobeats latinizadas.
    A prece canônica da disco queen iemenita Ofra Haza saindo do remix para ilustrar em estilo world music um filme classe Y, estrelando a cancerosa arrivista da volúpia, Brigitte Nielsen.
    Patsy, Mandy, Sabrina, Bananaramas, Primitivas, Sugarcubes adornando as paredes e sonhos molhados dos que sonham com Porsches brancos com estofamento de couro vermelho e o topo da escala corporativa com contas de mordomia.
    A nova geração do rap, do Bronx à Filadélfia, arrebentando a complacência do homem branco com o efeito de mil Mike Tysons e instaurando o dia do juizo final.
    A insolência sexual da gay disco em cópula com o eletroeuropop na textura abstrata da house music.
    O sonho corporativo de consumo universal aplicado ao pop, com a transformação dos anos 80 em anos 50 high tech, através da completa assimilação das técnicas de clip à manufatura de comerciais de jeans, bancos, veículos e bebidas configurados como passaporte à terna inocência.
    A Levi's pilhando Jackie Wilson, Percy Sledge, Kerouac e Raymond Chandler. John Waters pilhando o twist, o bug, o bird, o mashed potato e todos os laquês de cabelo de Baltimore a Amarillo para o perfeito trash movie (Hairspray) com Divine, Debbie Harry e Sony Bono.
    Public Enemy pilhando os Panteras Negras.
    Yoko pilhando Lennon.
    Pilhas douradas Duracell detonando um ghetto-blaster à plutônio com o maior remix da humanidade desde Nero - em um acesso de ironia, ou terror, cantar "Let Me Stand Next to Your Fire" para as colinas de Roma. 

Li esta matéria aos 23, na faculdade.Tempo bom.

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AKIM