domingo, 29 de janeiro de 2012

ARDENDO NA FOGUEIRA DAS VAIDADES (O Estado de S.Paulo, 14/02/1988)

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As chamas do novo livro de Tom Wolfe alcançavam agentes e contraventores em geral
PEPE ESCOBAR
Ele é radical chic (1970). Ele tem The Right Stuff (1979). ele veio From Bauhaus To Our House (1981). Ele passou por todos póssíveis Electric Kool-Aid Acid Tests (1968). ele é o pai do New Journalism. O homem incapaz  de escrever uma frase banal. Com The Bonfire Of The Vanities, seu primeiro romance, ele publica o que já pode ser considerado um dos definitivos estudos da América pós-everything.
Mr.Wolfe tem a implacabilidade característica dos observadores privilegiados do fim de uma era (no caso, os últimos 20 anos). Ele é capaz de escrever com elegância frívola de Gore Vidal, o frenesi de Hunter Thompson , o insight político de Alexander Cockburn  ou os flertes de sarjeta de Martin Amis. Mas sua elegância e o senso de estilo o colocam em uma classe por si só.
O new journalism consistia em introduzir técnicas de literatura na reportagem. Wolfe não inventou a escola – Tucídedes; no mínimo, foi um dos precursores, inventou a denominação – e começou a aplicá-la à ebulição dos anos 60. The Bonfire Of The Vanities de mr.Tom é um formidável romance escrito por uma cabeça de papel. Como jornalismo, é letal; como literatura, provoca o mais puro prazer do texto.
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A técnica de Tom é simples, em essência. E impecável. Constrói a narrativa cena por cena. Usa o máximo de diálogos autênticos. Explora cruciais detalhes de cada personagem para frisar sua condição social (por exemplo: um rico impõe seu queixo, um classe média retesa o pescoço, os pobres ondulan o corpo). E joga à vontade com as mudanças de ponto de vista. A fogueira das vaidades anos-80 configura-se como uma demencial comédia humana, onde o xis da questão é o eterno conflito entre o desejo e a lei. Nessa fogueira, queimam os agentes e contraventores da lei, da política e da mídia. O anti-herói de Wolfe é Sherman McCoy – signo ambulante de nossa era –, com seu “queixo aristocrático”, apartamento de três milhões de dólares em Park Avenue, renda anual de um milhão de dólares traficando papéis em um quinquagésimo andar de Wall Street… Ele é um master of the universe e Wolfe o distende até os limites.
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Um liberal é um conservador que já foi para a cadeia”. Esta é a idéia-chave de The Bonfire Of The Vanities. Wolfe confronta a lei do branco com a lei do Bronx. É preto no branco. Temos o strip-tease  da relatividade da lei e das regras imutáveis do business. Temos business em Wall Street e business no Bronx. O Primeiro Mundo e “os outros”. Quem controla, quem detém o poder, quem circula a riqueza, de onde vem o poder e a riqueza, como traficar influências, à coté, a feira das vaidades.
Tudo envolvido por duas flores envenenadas: o olhar absoluto da mídia (este é um livro de um jornalista apaixonado e horrorizado com sua profissão: entre outras coisas, um livro que termina com uma matéria publicada no New York Times), e a letal vulgaridade ianque que Tom disseca com um turbilhão de one liners e uma evidente admiração por um modo inglês de concepção de vida perdido na América desmemoriada.
The Bonfire Of The Vanities é uma fabulosa celebração da Nova York real onde tipos e lugares estão dissecados pela lente do jornalista-entomólogo. O grid de Nova York, atravessado de norte a sul por Mr.Tom, readquire uma nova dimensão mítica como a terra devastada de todos os desencontros. Os personagens – compêndios de abominações, ou simplesmente vítimas – desembestam em seus desejos e pesadelos como espermatozóides à deriva. Eles podem ser puro lixo humano – mas são inesquecíveis.
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The Bonfire Of The Vanities é a apaixonante comédia humana como a conhecemos, nesse extertor da purple décade. Moral da história ? Claro que não tem. A desilusão é inevitável para todos. Morremos de rir e ficamos com um gosto amargo. Sherman, no fundo, era um inocente. O choque com o mundo real o transforma em um animal. Mas ele já era, dentro de si, este animal. O aspecto mais esplêndido do furacão literário de Wolfe é nos demonstrar como não somos nós mesmos: somos o que os outros nos fazem. Quando – e se - esta raça se dispuser a olhar menos para o umbigo e mais para o espírito, estará aberto o caminho para o verdadeiro autoconhecimento. Até lá ardemos todos na fogueira das vaidades.
Há 25 anos Tom Wolfe lançava o livro “A Fogueira das Vaidades”.

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