quarta-feira, 28 de novembro de 2012

ELEFANTINHO ENSAIA PRIMEIROS PASSOS EM ZOO INGLÊS (Folha Uol, 28/11/2012)

 

Um elefantinho foi visto ensaiando seus primeiros passos no zoológico de Chester, Inglaterra.

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O pequeno nasceu há três dias e passou a maior parte do tempo junto da mãe.

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Pertinho da mãe.

O RISO (Manchete Esportiva, 08/03/1956)


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                       NELSON RODRIGUES
     Eis a verdade: — o que sustenta, o que nutre, o que dinamiza o
futebol é a vaidade. Vejamos o juiz. É um crucificado vitalício. Seja
ele o próprio Abrahão Lincoln, o próprio Robespierre, e a massa
ignara e ululante o chamará de gatuno. Dirá alguém que ele percebe
um bom salário. Nem assim, nem assim. Não há dinheiro que o
compense e redima, nenhum ordenado que o lave, que o purifique. E,
no entanto, ele não renuncia às suas funções nem por um decreto.
      Pergunto: — por que esta obstinação? Amigos, a vaidade o
encouraça, a vaidade o torna inexpugnável, a vaidade o ensurdece
para as 200 mil bocas que urram: — “Ladrão! Ladrão! Ladrão!”.
     O mesmo acontece com o craque, com o paredro, com o
técnico. O futebol os projeta e pendura nas manchetes, e esta
publicidade histérica constitui uma delícia suprema. E ninguém é
modesto, ninguém. Qualquer jogador, ou qualquer dirigente, ou
qualquer técnico tem a torva e a vaidade de uma prima-dona gagá,
cheia de pelancas e de varizes. Eu disse que ninguém é modesto no
futebol. Em tempo retifico: — há, sim, uma única e escassa figura,
que, no meio do cabotinismo frenético e geral, constitui uma exceção
franciscana. Refiro-me ao esquecido, ao desprezado, ao doce
massagista.
     A imprensa e o rádio falam de tudo, numa sádica e minuciosa
cobertura. Jamais, porém, um locutor, um repórter lembrou-se de
mencionar a atuação de um massagista. Ele não merece, ao menos,
uma citação desprimorosa. Um bandeirinha consegue ser vaiado.
Não o massagista, que não inspira nada: — nem amor, nem ódio.
     Dir-se-ia que o gandula é mais importante. E, no entanto, apesar da humildade sufocante de suas funções, o massagista pode ser uma
dessas figuras capitais, que resolvem o destino das batalhas.
     Para não ir muito longe, citarei o exemplo de Mário Américo.
Tudo na sua figura de ex-boxeur justifica uma simpatia universal, a
começar pela cabeça minuciosamente raspada, até o último vestígio
de cabelo. Esse coco lustroso e negro já o distingue dos demais, em
violento destaque. Pois bem: — simples e humilde massagista, Mário
Américo influi mais nos fatos do campo, na evolução das partidas,
que muito jogador, muito paredro, muito técnico. E não é com
massagens platônicas, não é fazendo seu métier, que o homem tem
decidido vários jogos. Mário Américo age pelo riso, apenas pelo riso.
     Sim, amigos: — quando ele se abre, quando se escancara,
quando se alarga no seu riso incoercível, não há força que o
contenha e que lhe resista. Mário Américo sério é um pobre ser,
duma esplendorosa nulidade como todos nós. Mas a gargalhada o
transfigura, dá-lhe uma nova dimensão racial, uma grandeza
inesperada e terrível, o equipara a certos negros da ficção e da vida:
— Paul Robeson, José do Patrocínio, Otelo, imperador Jones etc.
Sobretudo nas pelejas internacionais, tudo, nesse homem de
cor, é um riso só: — riem os lábios, as gengivas, os dentes, as ventas
e até a careca retinta. Foi o que aconteceu no Brasil x Argentina*, em
Montevidéu. Luizinho deu um corte num adversário de forma tão
espetacular que Mário Américo não resistiu: — nunca o seu riso foi
tão largo, nunca o seu riso teve, como naquele momento, uma
dilatação de parto. E aquela cara que ria alucinou os nossos
adversários. Como vencer uma gargalhada cósmica? Se pudessem,
os argentinos teriam atravessado aquele riso com uma lança, como
nas gravuras de são Jorge.

* Brasil 1 x 0 Argentina, 5/2/1956, no Estádio Centenário.

ENCENDEDOR VAQUERO

 

Bugia (1958)

TBO Extra Oeste 1-22

TBO Extraordinario del Oeste

terça-feira, 27 de novembro de 2012

BOING BOOM TSCHAK # 58


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Ainda em Tron, Kevin decide invadir o servidor da ENCOM usando um programa chamado CLU para encontrar provas da fraude de Dillinger. Porém, CLU é detectado e destruído pelo Programa de Controle Mestre (MCP), um programa de computador criado por Dillinger para proteger os sistemas da ENCOM. O código de acesso usado por Flynn é desativado pelo MCP, o que também desativa o código de acesso de outro funcionário da empresa, Alan Bradley (Bruce Boxleitner), que confronta Dillinger e revela que criou um programa chamado Tron para monitorar o MCP. Após Bradley ir embora, o MCP confronta Dillinger e revela que planeja invadir os servidores do Pentágono e conquistar o mundo, já que está mais apto a fazê-lo do que os humanos. Dillinger é forçado a ajudá-lo. Bradley e sua namorada, a Dra. Lora Baines (Cindy Morgan) descobrem que Flynn foi o Hacker que tentou invadir os servidores da ENCOM e vão avisá-lo que ele foi detectado. Os três decidem invadir o prédio da ENCOM e usar o código de acesso do laboratório de Lora, que vinha trabalhando em um Laser que poderia digitalizar objetos do mundo real e materializá-los no mundo digital, para encontrar as formas que Flynn precisa.
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Flynn é detectado pelo MCP, que usa o Laser para digitálizá-lo e transportá-lo para o mundo virtual, onde ele conhece outros programas, cujas aparências lembram às de seus criadores, os Usuários. Flynn e um programa chamado Ram são levados até o programa de Dillinger, Sark, que diz que eles devem aceitar o MCP como seu novo mestre ou competirem até a morte em jogos de gladiadores. Flynn recusa-se a servir ao MCP e é forçado a participar de uma corrida com Lightcycles. Durante a partida, ele conhece o programa de Bradley, Tron. Os três tentam fugir, mas são perseguidos pelos soldados de Sark, que matam Ram e separam Flynn e Tron. Tron entra em contato com Bradley e Lora e, com a ajuda deles e do programa de Lora, Yori, é direcionado para o local onde reside a programação do MCP e onde ele pode ser destruído. Flynn, que, por não ser um programa e sim um Usuário, possui superpoderes no mundo virtual, junta-se a ele e os três atacam o MCP, que transfere sua programação para Sark, que ataca o trio. Após um longo confronto, Flynn consegue atrasar Sark/MCP por tempo suficiente para que Tron destrua a programação original, destruindo Sark/MCP, libertando o servidor da ENCOM e impedindo que o MCP assume o controle do arsenal nuclear do Pentágono. Flynn despede-se de Tron e Yori e retorna para o mundo real com evidências da fraude de Dillinger, que é preso. Flynn então torna-se o novo Vice-Presidente da companhia.
 
M. Ashraf feat. Ahmed Rushdi – Dama Dam Mast Qalandar
The Brides Of Funkenstein – War Ship Touchante
Faderhead – Electrosluts Extraordinaire
The Retrosic – Unleash Hell
Alessandro Alessandroni – Congetture Melodiche
Alvin Lucier – Music On a Long Thin Wire
Annexus Quam – Trobluhs El e Isch
Dave Fredericks – Stinger
Ars Nova – Isis
Ash Ra Tempel – Flowers Must Die
Boneschi Electronic Combo – New Concept
Brian Eno – Music For Airports 1-1
Elektrik Cokernut – Popcorn
Esquivel – Nine
no rádio:

baixe: MP3

AS INVENÇÕES POR ACASO

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domingo, 25 de novembro de 2012

NEW ORDER, O MAIS FINO SABOR DE MANCHESTER (Bizz nº35, Junho de 1988)


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    Desde o mês passado, eles já estão em estúdio preparando o novo álbum, antes dele, sai o primeiro solo de Bernard Summer - com participação de Johnny Marr, enquanto isso, escala as paradas americanas o remix "Blue Monday ´88", executado por Quincy Jones, estas são as ultimas novas, antes de telexá-las, PEPE ESCOBAR já tinha batido um longo papo com três quartos da banda independente que mais vende discos no planeta
    "Oh, Manchester, quanto tens por responder..." O verso é de Morrissey, quando ainda estava começando a exorcizar suas fantasias de quarto solitário em cima de James Dean, Oscar Wilde, impérios perdidos, lama e glória. O trem Londres - Manchester avança a 140 km/h e passa pela cabeça não só uma história condensada do pop inglês quanto um countryside absolutamente entediante. Em uma estação deprê-total, puro detrito da Revolução Industrial, comento com minha fotógrafa: "Como é que alguém pode morar em MacClesfield?"
    Meia hora depois, na gloriosa Piccadilly Station de Manchester, fico sabendo que metade do New Order, Stephen Morris e Gillian Gilbert, mora em MacClesfield. Gillian até passou batom, sombra e rímel para essa entrevista histórica. Peter Hook - com o heavy metal look já abandonado - nos recepciona. Em puro Manchester style, ou seja, qualquer nota, a entrevista é na própria lanchonete da estação. com chá em copinho de plástico e um hominho passando de vez em quando vendendo o Manchester Evening News.

35  Bernie Albrecht não veio. Não exclusivamente porque esteja gravando seu álbum solo (isso é para mais tarde): Não veio também porque está dedicando-se ao sócio. New Order, depois do sucesso de "True Faith" e Substance, dedica-se a um relativo ócio, interrompido por um jamming de onde sairá o próximo LP. No warm up para a entrevista, descobrimos que Gillian Gilbert não fala (igual a Lady Di) e Stephen Morris é fissurado em tiradinhas cínicas. Peter Hook cai de pau nos japoneses, nos americanos (todos invariavelmente idiotas), diz que jamais moraria em qualquer outro lugar além de Manchester. Anuncia que não conhece música brasileira. Mas comenta como ficou impressionado ao saber a quantidade de discos - e a popularidade - de uma "cantora brasileira negra" (viu em um programa de TV; não lembrou o nome da cantora). Para Mr. Hook, o Brasil é uma curiosa fantasia que lhe remete a generais da SS e gente comendo restos de lata de lixo enquanto as limusines passam á côté.
    New Order, claro, não vai se dissolver. Sua preocupação é com o novo status de quase superbanda mundial. Preferem não entrar em detalhes no (ainda) delicado assunto Ian Curtis. Ao final da entrevista na lanchonete. New Order pagou a conta e deixou seus três autógrafos para a escocesa da caixa, que quase teve um colapso.
    Peter nos convidou para a noite de hip hop no mítico Hacienda, também conhecido como Fac 51 (o 51.º produto saído da Factory Records). À tarde, refizemos os itinerários ur e suburbanos de Morrissey, incluindo a desolada Strangeways (está no título do último LP dos Smiths). Manchester é a cidade ideal para incitar qualquer alma ao suicídio. As duas únicas exceções ao tédio terminal são alguns pubs de subúrbio - com faces dignas de entrar na História da Pintura - e a trilha sonora do Hacienda - extra-acid house e extra-heavy remixes de DJ. Os locais são extremamente delicados - ao contrário dos ingleses - e não costumam posar - ao contrário dos ingleses. Em uma medida da finesse de seus acionistas, New Order não toca no Hacienda.

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    BIZZ - Para começar. New Order nunca se interessou muito em falar com a mídia - o que por um lado pode ser muito saudável.
   Stephen - Mas nós falamos com todo mundo...
   Peter - Há uma diferença entre falar e se construir uma imagem de pop star. Isso quem faz são os outros, não nós.

    BIZZ - Muita gente refere-se a New Order - como antes ao Joy Division - como "o som de Manchester". Como vocês se relacionam com a cidade? Como ela impregna o que vocês fazem? A quela história do homem como produto do meio ambiente...
    Peter - Eu ando muito pela cidade. Mas Stephen vive em MacClesfield. Acho que é a mesma coisa em qualquer lugar que você vive, não é? Não sinto necessidade de subir em um caixote e pregar as virtudes de Manchester.

    BIZZ - Morrissey construiu uma espécie de mitologia própria de Manchester - e é interessante comparar com o approach de vocês, completamente diverso...
    Peter - Para ser honesto, acho que ele merece. Ele não é assim tão bom. Não é tão mau, mas não é tão bom. Há coisas interessantes onde quer que você vá. No Brasil, por exemplo, gente se alimentando de latas de lixo ao lado de limusines.

    BIZZ - Vocês sofreram alguma influência forte do american way of life, ou dos valores americanos, depois que começaram as tours constantes?
    Peter - Os americanos são um pé no saco a maior parte do tempo. Nós tínhamos tantos problemas antes, quando não tínhamos um contrato de distribuição na América, quanto hoje, que temos o contrato. Na maior parte do tempo, eles se comportam como galinhas com um lenço na cabeça. Certamente isso não me provoca a pensar na "terra do futuro"

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    BIZZ - No inicio vocês eram uma cult band para um grupo seleto de pessoas. Hoje são uma banda extremamente popular, até mesmo nas pistas de dança de todo o planeta.
   Peter - Eu nunca entendi essa história de cult. Uma cult band é quando você está tentando fazer sucesso, não tem atenção de mídia, e é muito difícil para alguém que não mora em Manchester ouvir falar de você. Mas de repente todo mundo em Manchester ouviu, os amigos se telefonam, o barulho aumenta, e todo mundo ouviu falar de você antes da imprensa.

    BIZZ - Mas nos primeiros tempos de New Order havia uma espécie de sociedade secreta em Londres, no Brasil, na Malásia, gente que realmente cultuava vocês como the real thing...
    Peter - Mas isso eu acho que sempre vai acontecer a quem faz boa música. Sempre que você escuta um bom disco, vai falar para seus amigos. E essa banda vira uma cult band entre vocês, ou no seu bairro.

    BIZZ - Vamos pegar alguns pontos nesse aspecto. Martin Hannett realmente ensinou vocês a produzir discos?
    Stephen - E, ensinou a não colocar muitos músicos em um estúdio (risos).
    Peter - Na época, nós éramos muito jovens para apreciar o seu trabalho. O negócio é que ele não gostou muito do que ele passou junto com a gente. Produzir é um dos piores trabalhos do mundo. Ficar convivendo só com músicos... (risos).
    BIZZ - Vocês começaram a produzir seus próprios discos em 83, não é?
   Stephen - Logo depois de Martin. Nós achávamos que podíamos fazer melhor do que ele (risos).
   Peter - Ambição... até que não é uma coisa ruim, ambição. Contanto que esteja dirigida para o lugar certo.

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    BIZZ - Como vocês toparam com "Blue Monday"? Foi um acidente brincando com drum machine?
    Stephen - A gente estava roubando um riff de bateria de Donna Summer (risos). Não sabemos exatamente como foi.

    BIZZ - Um acidente planejado?
    Peter - Bernard é que estava interessado em toda a cena de dança. Stephen arrumou uma drum machine. Os dois se juntaram... Mas não foi a primeira que fizemos assim.
    Stephen - Mas essa foi a primeira drum machine que dava para programar no tempo real. Não foi a primeira música em que usamos drum machine. Qual foi? (Os dois ficam trocando figurinhas tentando lembrar.)

    BIZZ - "Decades" era com drun machine, não?
    Stephen - Sim, mas foi uma antes.
    Peter - "Isolation".
   Stephen - Não... Mas foi ainda com o Joy Division.
    Peter - Nós já tínhamos usados sintetizadores há bastante tempo, com o Joy Division.

    BIZZ - Mas aí vocês começaram a explorar ritmos mais dançantes.
    Stephen - (lembrou) - "The Eternal."
    Peter - O ponto, em tudo isso, é que a tecnologia se desenvolveu muito. Quando estávamos no Joy Division não havia máquinas. Havia uma drum machine, mas estava caindo aos pedaços. Na hora em que chegamos a "Blue Monday" e Power, Corruption and Lies, já conhecíamos e entendíamos um pouco de tecnologia.
   Stephen - Sintetizadores polifônicos, não tinha nada disso. E nas drum machines só tinha aquelas teclas "samba", "mambo"... Poderia ter dado muito certo no Brasil!

    BIZZ - Vocês foram uma das primeiras batidas brancas a trabalhar com hip hop. Vocês foram atrás de Arthur Baker? Ou ele os procurou?
    Stephen - E, um amigo meu conheceu Arthur Baker em Nova York e ele disse que queria fazer alguma coisa conosco. Nós aceitamos, mesmo porque estávamos querendo passar uma semana em Nova York. Então escrevemos uma musica...
    Peter - O gozado é que deveria ser um remix de "Blue Monday", não é?
    Stephen - Uma coisa era isso, e a outra era "Five Eight Six". Depois tudo virou uma história muito enrolada.
    Peter - E o que ele fez naquele "Confusion" não soa melhor do que a nossa versão em Substance...

    BIZZ - Isso nos leva a outro ponto: vocês conseguem manter completo controle sobre todos os aspectos da marca New Order, como as capas de disco, os vídeos, o material de promoção? Vocês supervisionaram tudo?
    Peter - Nós costumávamos, antes. Mas desde que começamos a fazer, entre aspas, sucesso, não dá tempo. E as pessoas agora acham que elas sabem melhor do que nós mesmos o que é melhor para a banda. Por causa do sucesso de "True Faith", todo mundo fala: "O que vier agora tem que ser como ´True Faith´, tem que fazer tanto sucesso"... Nós nunca tivemos esse tipo de pressão antes. A gente podia até querer fazer um... Metal Machine Music...

    BIZZ - Muitas pressões de gravadora?
    Peter - De todo mundo. E agora estamos rodeados por muito mais gente. E tem a América...

    BIZZ - "True Faith" foi quase um choque para Vocês, um big break que de repente os jogou quase para a liga das bandas que tocam em superestádios. Foi um choque? Ou foi um problema?
    Peter - Nós não temos realmente problemas no momento. E só que tem havido uma mudança gradual - nós temos tido cada vez menos tempo para cuidar de muito mais coisas. Mas isso não nos mudou. Em nada.
    Stephen - Se eu tivesse mudado, o nosso próximo disco seria um outro "Blue Monday". Ou "True Faith, part 2". É isso que as pessoas querem fazer em gravadoras - para poder continuar com o mesmo tipo de atividade promocional. Se a gente fizesse isso, seria muito chato...

    BIZZ - No correr do tempo, houve uma transformação marcante no conteúdo de suas letras, junto com a forma. É só comparar, por exemplo, "You Silent Face" com "The Perfect Kiss", "Thieves Like Us" Elas eram mais melancólicas, no início, e depois foram virando algo como love songs.
    Peter - É difícil para mim descrever por que mudou. Acho que ficou mais fácil compor - talvez pelo fato de que Bernard esteja compondo há um bom tempo. Basicamente, quando nos começamos, alguém dizia: "Escrevam letras, escrevam frases para os vocais". Nós não sabíamos como. Sempre deixamos isso com Ian. Acho que aprendemos. Por que Barnie canta canções de amor, eu não sei. Você tem que perguntar para ele.
   Stephen - E um dos temas mais fáceis por ai, não?

    BIZZ - Ele escreve todas as letras sozinho?
    Peter - Quando ele está inspirado, faz por si só - o que não é muito comum. Se não, fazemos todos juntos.
   Stephen - Geralmente ele vem com um verso e o refrão e nós nos reunimos e "cobrimos os buracos"...

    BIZZ - Voltando a um ponto: no início o som de vocês era mais tortuoso e torturado - depois foi abrindo-se para "mais luz´´. Vocês ate chegaram a colocar seus próprios rostos em uma capa de disco...
    Peter - Será que nós ficamos melosos?... Você muda à medida que envelhece, ganha mais experiência.
    Stephen - Acho que isso vale para a música em geral. Antes a música de alta energia era sinônimo de guitarras vistosas. Hoje a energia está com uma drum machine a 156 batidas por minuto, a música é mais dançável, mais orientada para a batida.
    Peter - E outra: a tecnologia, hoje, te dá a chance de poder ouvir uma bateria como se deve. Você procura o som de bumbo na mixagem de discos antigos e não consegue encontrar!

    BIZZ - Falando de ritmos, às vezes aparecem com algumas coisas cuja proveniência provavelmente desconhecem. Um exemplo: no mix de "Bizarre Love Triangle" há um padrão de batida que é puramente brasileiro, o que lá chama-se "batucada".
    Stephen - (sorrindo) Sabe como a gente fez isso? Nós botamos os arpejos no Emulator e apertamos cinco teclas, dois compassos, e só. Não foi programado para soar assim. Era um jeito de fazer um outro tipo de percussion break. Soava bem.

    BIZZ - Como é seu processo de composição? Vem, basicamente, de jams?
   Peter - É, tudo nasce mais ou menos de uma jam. Idéias que vão tomando forma. Nenhum de nós costuma vir com uma música pronta. É um processo lento. Cada música nossa leva um longo tempo de elaboração. Sempre passamos pela fase em que todas as músicas têm o mesmo som. E aí começa - como fazer para elas terem cada uma sua personalidade. E elas tendem a ser no mesmo tom...

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    BIZZ - Vocês tem problemas com tonalidade?
    Stephen - Nós não temos problemas, o negócio é que nunca precisamos saber do que se trata. Não é importante.
   Peter - O problema começou quando vimos que algumas musicas eram fáceis para Barnie cantar, e outras muito difíceis. Alguém falou: "Deve ser o tom"... E nós: "Que tom?"
    Stephen - Não é preciso ter conhecimento de música para ter uma banda.

    BIZZ - Quais eram as suas influências musicais, ainda na época do Joy Division? Se é que tinham alguma.
    Peter - Pessoalmente, eu ouvia heavy metal quando tinha 16 anos. Costumava ir urna vez por semana à disco... Só comecei a tocar guitarra com 21 anos, um pouco tarde. Foi Ian que realmente nos educou, eu e Barnie. Ele trazia todos aqueles discos e dizia "escutem só isso, Lou Reed, Velvet Underground, Doors, é muito bom". Nós nunca tínhamos ouvido. Tivemos nossa educação musical com Ian, porque eu consumia tudo em disco.
    Stephen - O que estava acontecendo na época era Low, The Idiot, Roxy Music, isso que a gente ouvia era o que nos influenciava.
    Peter - Nós começamos mais com a idéia de "tirar uma lasquinha" nessa história de ser rebeldes. Não tínhamos desejos de fazer uma música maravilhosa. Nós só queríamos ser notados.

    BIZZ - Isso que vocês sempre tiveram, de fazer as coisas por si próprios, essa ética, pode-se dizer que está relacionada com o espírito punk?
    Peter - Deveria estar relacionada, realmente. Nós temos isso até hoje, e sempre tivemos a oportunidade de nos satisfazer, junto com Rob, nosso manager. Sempre trabalhamos com um grupo de cinco pessoas. Com Joy Division, nós estávamos a um passo de assinar com um grande selo, o Genetic, de Martin Rushent; e a única coisa que era motivo de discussão, naquele ponto, era o inevitável dinheiro. Nós achávamos que assinar com a Genetic, que tinha muito dinheiro, era a única coisa que a gente podia fazer. Mas aí Tony ( Wilson, da Factory) e Rob reuniram-se e decidiram: "Vamos soltar um LP nós mesmos, independente, pela Factory". E foi isso. Só porque Unknown Pleasures tinha feito sucesso local, não quer dizer que a gente estava ganhando dinheiro. Dava apenas para sobreviver. Claro que esse tipo de arranjo não funcionou na América. A América é grande demais.

    BIZZ - Vocês têm idéias similares no que concerne a turnês de vários meses e a passar muito tempo em estúdio?
    Stephen - Nós não fazemos turnês longas. Nós passamos, isso sim, muito tempo em estúdio. As turnês são sempre uma decisão pessoal - vamos fazer ou não. É bastante democrático. Quando ficamos no estúdio por dois meses, dá vontade de sair e tocar. E aí vemos: ´´Mas é só isso? , e já queremos fazer outra coisa.
    Peter - Mas a coisa chegou a um ponto tal que, depois de lançarmos o próximo disco, poderíamos decidir ficar cm casa, e não promove-lo. Apesar de tudo, ainda estamos no ponto de fazer o que nos dá na cabeça.

    BIZZ - E quanto ao Hacienda: voc6es ainda são acionistas?
    Peter - É, ainda somos acionistas, espiritualmente... Nós estamos abrindo uma outra casa, um bar-restaurante.

    BIZZ - O Hacienda dá dinheiro? Andou tendo problemas, não?
    Peter - Sobrevive. Afinal, sobreviveu cinco anos. Tivemos que acabar com os shows ao vivo e fazer só disco. Show não dava mercado no Hacienda, não é o tamanho certo. E meio frustrante, porque nós surgimos como uma banda em shows ao vivo. Seria legal dar a Manchester um lugar para shows, mas Manchester foi por outro caminho: garotos só querem grandes bandas internacionais...

    BIZZ - Public Enemy, quando esteve aqui, proclamou Manchester como "a capital mundial do hip hop".
    Stephen - Com hip hop parece que estão sempre tocando o mesmo disco. Mas eu acho que é o mesmo a "capital mundial etc.".
    Peter - Sábado tem uma grande noite de house music, também. Hip hop na sexta. Não sou seu fã em particular. Para mim tudo tem o mesmo som.

    BIZZ - Mas vocês não se interessam pela maneira com que usam colagem, cut ups? Afinal, vocês utilizam uma série de colagens - de uma outra maneira - em seus mix.
    Peter - Acho interessante, mas não acho que vá durar muito tempo. Ouvi unia banda muito boa recentemente, Soho, e gostei da maneira como fazem o amálgama de uma série de canções. Foi uma das únicas coisas que ouvi em séculos que me chamou a atenção.

New Order - Round & Round (1988)
    BIZZ - Gillian, é você que coordena toda a sintetização eletrônica no New Order? Se não, como você organiza a massa de teclados?
   Gillian - E meio difícil condensar tudo em cinco minutos. Quando nós começamos, usávamos máquina simples, fáceis de programar. Eu programava. Barnie me ajudava em alguns fraseados. Depois foi ficando mais complicado, tomando mais tempo, e contratamos alguém para programar para nós. Eu me concentrei em escrever. Temos também uma estrutura diferente da que usamos em ensaio. Em vez de levar todo o equipamento para turnês, condensamos tudo em dois samplers, o que facilita muito ao vivo, em controle. O problema é que há uma série de programas para se tomar conta, e você tem que organizá-los mentalmente. Eu tenho, geralmente, cinco minutos entre uma música e outra para mudar os programas - enquanto estou tocando tenho que manter a atenção nisso também.

    BIZZ - Essa mecanização atrapalha?
    Gillian - Não, nós seqüenciamos tudo. Em algumas músicas, por exemplo, eu tenho que tocar a linha de baixo, ao mesmo tempo que guitarra, então seqüenciamos o baixo.

    BIZZ - Como vocês vêem o fato de que o New Order eletrônico é muito mais melódico do que o New Order acústico? E vocês tem um feeling fabuloso para melodias que "pegam". É geral, vem de um lado de vocês particular?
   Peter - Acho que vem de todos nós. Por que o material eletrônico é mais melódico, não sei... Acho que nós evoluímos, basicamente...

    BIZZ - Vocês odeiam dar bis ao vivo. Por quê?
    Peter - Eu suponho que a razão principal seja o fato de que nunca gostamos muito de tocar ao vivo. Hoje até que damos mais, mas pessoalmente acho que é um pouco redundante. Você trabalha duro para tocar seu sei, e isso é o que basta. Isso também tem a ver com minha desilusão em ver bandas, como Echo & the Bunnymen, que têm tudo planejado, até mesmo as encores. Nós não fazemos isso nem com os seis...

    BIZZ - Os rumores continuam de que vocês iam, iriam ou podem vir a tocar no Brasil?
   Peter - Nós já fomos convidados para tocar no Brasil três vezes. Nós deveríamos estar naquele festival com Duran Duran. Mas o Simply Red é que terminou indo. Acho que o agente deles é mais esperto do que o nosso...
    BIZZ - Há alguma coisa na cena musical atual que vocês considerem particularmente interessante?
    Stephen - Te digo o que não considero interessante: o novo single dos Sugarcubes. Yeachh!
    Peter - Nada... Ouvi ontem um programa de country & western... Isso é interessante. E muito difícil ser "novo" nos dias de hoje.
    BIZZ - A culpa é dos conglomerados e de produtores que têm um só som na cabeça - cuja equação é produto de jogadas de marketing?
    Peter - E, é isso. Uma pena. Mas pelo menos tem O outro lado: alguém pode comprar um computador e começar a - "fazer música". E a definitiva atitude punk. Nada mais e sagrado. Você pode fazer o seu disco soar tão bem produzido quanto Stock, Aitken e Waterrnan.

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    BIZZ - Só um detalhe: vocês são contra as leis de copyright?
    Stephen - Sampling? Não. Somos uma das bandas mais pirateadas do mundo. Se a gente exigisse copyright de " Blue Monday´ -, estaríamos milionários.
    Peter - Tinha um disco no "Top of the Pops´´ ontem à noite, acho que era "S-Express", com um break bem, bem velho, de Barry White ou algum outro, e a garotada hoje (14, 15 anos) não sabe, pensa que é alguma coisa nova. Nós falamos "o que é isso, eu ouvi esso som há quinze anos!" Não tem nada de mais. Quem defende essas leis é gente ambiciosa, avarenta. Stock, Aitken & Waterman, esses caras têm quatro Ferraris, oito jaguars e ficam choramingando porque alguém usou dois segundos de um de seus discos. E patético. E eles roubaram de todo mundo
    Stephen - Todo mundo é influenciado por todo mundo. Muitas vezes começávamos a querer fazer cover versions, mas aí terminávamos escrevendo uma música. Nós descobrimos, por nós mesmos, que é muito mais fácil escrever do que fazer covers, pegando um riff daqui, outro dali...

    "Morrissey não é tão mau... mas não é tão bom. Há coisas interessantes onde quer que você vá. No Brasil, por exemplo, gente se alimentando de latas de lixo ao lado de limusines"    Peter Hook
    "Antes a música de alta energia era sinônimo de guitarras vistosas. Hoje a energia está com o drum machine a 156 batidas por minuto"    Stephen Morris
    "Não tínhamos desejos de fazer uma música maravilhosa. Nós só queríamos ser notados"    Peter Hook
    "Te digo o que não considero interessante: o novo single dos Sugarcubes. Yeachh!"    Stephen Morris
Remix obrigatório em todas as pistas de dança em 1988.

AIRTO DE VOLTA (POR POUCO TEMPO) AO PAÍS DA BUROCRACIA (Jornal de Música, agosto de 1977)

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