domingo, 27 de janeiro de 2013

PRINCE (Bizz nº39, Outubro de 1988)


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PEPE ESCOBAR
Palatrussardi (Milão) 19/01/88

Cat - a principesca dançarina e erotômana - diz ao mundo em um programa de show de dez dólares que "a vida só pode ser entendida para trás, mas deve ser vivida para frente" "4 Wards", em inglês, com o numeral, individuando em linguagem principesca o "forwards" do avanço. Por dez dólares, não deixa de ser um pensamento sólido.
    Na revista high-tech de Prince 88, a Europa ganhou não só mais pensamentos, como mais sexo do que o resto da concorrência. Ingleses, italianos, franceses chegaram até a conceder que "Prince é melhor do que sexo ". Não é - mas pelo menos o sexo de pantomima de Prince ao vivo é tão bom quanto todo o resto do show de Prince.
    Comparei com Paris e Londres e não deu outra: Prince para milaneses não foi a exceção. Foi a regra. Em 87, seu show era o que câmeras em Rotterdam preservavam em celulóide como Sign O’the Times - uma hora e meia de impecável montagem e dolby stereo que vai faturar um equivalente da dívida do Terceiro Mundo quando sair em vídeo pelo planeta. O filme é melhor do que o show -porque "gruda" no palco com tremenda qualidade técnica. Ao vivo, não segurava. Inevitáveis as comparações com Sly Stone em sua época áurea - e com drive superior de, por exemplo, Trouble Funk ou até mesmo o Godfather véio em uma noite de vodu.
    Prince no tour Lovesexy é outra purpuríssima história. His Purple Highness - depois de individuar o(s) signo(s) da época com a concisão de rigor, extravasou o intelecto e chegou a uma visão completa; uma cosmogonia, do mundo. Lovesexy, o show, é a venda, o ataque de mísseis do Strategic Air Comand em Omaha, Nebraska, se Ronnie Reagan o ordenasse, em cima deste infiel pop-planeta. Salve-se quem puder. Ninguém pode, porque a visão religiosa pessoal do Príncipe é de uma absoluta sedução: nada menos do que o orgasmo como via à Santidade.
    Grandes cérebros como Bataille já disseram a mesma coisa - mas Bataille não sabia cair no funk. Outra coisa é dispor de um palco gigantesco, irregular, no centro de uma arena, entulhado de mecanismos (uma verdadeira nave espacial) onde a mobília é tão notável quanto a ascensão - hidráulica - dos músicos e patamares mais altos: ou seu desaparecimento para o equivalente principesco do buraco negro (pior do que o inferno). A banda foi reduzida para oito - os cruciais, incluindo a crucialmente sexy Sheila E. - ou a "Última Tentação de Cristo" em versão percussiva. Prince também aprendeu uma coisa ou duas sobre entradas dramáticas. Em 87 a banda entrava nas trevas, em fila indiana, tocando bumbo para o sample de  "Sign O’the Times". Em 88, o palco está nas trevas e, de repente, em suspensão, materializa-se uma maravilha cilíndrica do auge de Detroit; dá um voltinha completa, pára, e, de dentro, quem sai, com seus estampados superpostos preto-e-branco, cabelos longos - agora lisinhos - e botinha de camurça com salto-lápis?

39 Com cinco minutos de ação já tivemos farto sexo simulado. farto sexo oral simulado e o anão libidinal de Minneapolis arrastando-se pelo palco, abanando a cauda atrás de Cat e a cheirando de um jeito que provocaria desmaios em qualquer Irish setter de bom pedigree. A lascívia detumesce em erotismo - e é possível se tentar acompanhar a performance com um mínimo de objetividade crítica. Tremenda performance. Trinta músicas -divididas em duas seções. A primeira é puro greatest hits. Em "Head", o cavalheiro coloca o microfone entre as pernas e Cat vem por trás para... cantar, claro - o que mais poderia ser? A banda arrasa, Sheila E. arrasa, Boni D. arrasa nas arrancadas gospel. Prince arrasa nos solos (superado o egocentrisrno flashy, sola com a paixão e a convicção dos mestres.
    A movimentação de palco é infernal. O mini Mefisto é ubíquo. Trabalha à base da fração de segundo, brincando com teclados em uma plataforma suspensa em forma de coração, simulando coito em uma cama que aparece do nada, projetando uma arena em introspecção em "Purple Rain", projetando uma arena frente à febre em "Kiss", tocando sua guitarra purple rose com uma garra e um ataque de transformar em estátuas de sal toda a parada de supostos pop stars no exercício da profissão. Nenhuma performance entre os Top 20 do pop planetário - pelo menos em 88 -foi, é ou será capaz de unir tanta vitalidade com uma extrema, impecável organização técnica.
    Temos dois diamantes do Álbum Preto. De acordo com Sua Majestade Sátira, este foi um produto "do lado noir e infeliz de sua musa". Na hipnose em espiral de "Superfunkycallifragisexy" ele conta a história de um assassino psicopata com tons de voz progressivamente diabólicos até o clímax em um telefone maníaco-demencial. Ele grita: "Esta noite eu estou com uma tremenda má atitude". Sai atrás da insultante lubricidade de Cat e, alguns minutos depois, está urgindo toda a arena a cantar "Deus está vivo". O orgasmo como via à Santidade. Dessa vez acreditamos - afinal, antes nunca nos tinham oferecido o Céu com uma adequada trilha sonora.
    A primeira parte acaba com uma apoteose de gelo seco, música clássica e vozes possessas, voduescas, intimando a arena a "cruzar a linha". Na segunda parte, linha cruzada, carne e espírito dissolvem-se em um êxtase pagão, sob endiabradas coreografias dançantes; os metais frenéticos em "Kiss"; solos de Sheila E.; e "1999", a 128 h.p.m., quando o Libidinal Supremo, entre suas Supremas Gatas - Cat e Sheila - nos deixa de pernas cruzadas no topo de seu carro. Retorna, claro, para uma longa "Lovesexy", para mais uma batalha com o spooky eletric (é como denomina o Senhor das Trevas), para nos intimar ao cuidado e à salvação de nossas almas.
    Ele viu a Luz? Viu. Nós também. A salvação é um show. There is no bussines like the salvation bussines. Então vamos dançar à nossa eternidade, como príncipes da lascívia e sacerdotisas da luxúria.
    Oh, my God...

Uma orgia sonora com a marca funk do Amadeus negro.

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