domingo, 31 de março de 2013

ROBERT ZEMECKIS E SUA CILADA PARA O TÉDIO (Bizz nº41, Dezembro de 1988)


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Zemeckis é o homem que já nos levou De Volta Para o Futuro e agora nos leva Além da Imaginação pela mão (ou pata) de um coelho histérico e uma vamp de acetato.
PEPE ESCOBAR
Uma Cilada para Roger Rabbit não é apenas o primeiro cartoon noir da história do cinema. Não é apenas o primeiro filme onde personagens de desenho animado convivem - no mesmo plano, na mesma imagem, durante todo o filme - com atores reais. Não é apenas a maior invenção de Hollywood desde, justamente, os filmes noir e os cartoons. Uma Cilada para Roger Rabbit é o prazer supremo do cinema-espetáculo. 
1 035 efeitos óticos, 300 desenhistas trabalhando em tempo integral durante dois anos, supervisionados pelo canadense- londrino Richard Williams (ex-Pantera Cor-de-Rosa). 1 440 desenhos necessários para uma cena de apenas dez segundos. 56 minutos de animação. Cinco meses de filmagens. Pós-produção interminável, incluindo efeitos especiais na Industrial Light & Magic, de George Lucas. Associação olímpica: estúdios Disney ("Nós éramos moralmente obrigados a fazer esse filme"), Steven Spielberg, George Lucas e Robert Back to the Future Zemeckis na direção. Colaboração de todos os grandes estúdios. Orçamento guerra-estelar de 45 milhões de dólares. Roger Rabbit causa furor na América desde sua aparição no auge do verão. Causou prazer destrambelhado à crítica do mundo inteiro em sua pré-estréia européia no Festival de Veneza, em setembro. Não poderia ser diferente. Roger Rabbit, o filme, tem  Bob Hoskins como um êmulo de Philip Marlowe na Hollywood de 1947, sua sensual amiga Dolores, um produtor alucinado de desenhos animados (R.K. Maroon), um vilão (Doom), um coelho histérico (Roger Rabbit - o Pernalonga desta época), uma pin-up apoteose-do-pincel-erótico (Jessica) e a vida inimaginável dos toons - ou seja, os personagens de desenho animado, que vivem em um gueto, Toontown, trabalhando todos no cinema, e que estão, como nós, sujeitos a uma afinidade de caprichos e problemas com suas vidas privadas.
    O enredo de Roger Rabbit é inenarrável. E este não é o ponto. O ponto é se submeter a este maelstrom de fantasia onde desenhos frente a câmeras em constante movimento assumem uma amplitude e um volume jamais vistos no cinema, onde uma pin-up com voz de máxima carga lúbrica pode dizer "eu não sou uma bad girl. É, só que me desenharam assim...", e onde um ator (Bob Hoskins) foi capaz de ficar meses falando sozinho em sets de filmagem, falando com toons imaginários que depois seriam criados em pranchas miraculosas.

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    BIZZ - Como você resumiria Uma Cilada para Roger Rabbit para quem ainda não viu ofilme?
    Robert Zemeckis - Uma Cilada para Roger Rabbit é a história de um homem, uma mulher e um coelho envolvidos em um triângulo de problemas. Personagens reais e desenhos animados vivem e trabalham lado a lado no coração de Hollywood e se cruzam em um filme sobre o delito, a avidez, o sexo, a corrupção e os cartoons.

    BIZZ - Como se organizou, passo a passo, o processo de filmagem?
    Zemeckis - Primeiro filmamos todos os planos de ação ao vivo. Tínhamos que imaginar toda a animação. Para ajudar, tínhamos as vozes dos personagens de cartoon no set. Depois da fotografia principal, o filme foi editado em Los Angeles e gravamos as vozes dos cartoons na trilha. Cada fotograma passou pelo fotostato e foi ampliado. Richard Williams (o diretor de animação), a partir daí, pôde começar os desenhos e mesclá-los à ação dos atores. Toda a filmagem da animação foi depois para São Francisco, onde a Industrial Light & Magic a mixou com os efeitos especiais. Um trabalho extenuante.

    BIZZ - Foi sua, desde o início, a idéia técnica de mesclar o jogo de atores com a loucura dos desenhos animados? Como vocês fizeram para contornar as dificuldades técnicas?
    Zemeckis - O meu objetivo básico era juntar três coisas: a articulação dos desenhos de Disney, os personagens dos "shorts" animados da Warner Brothers e o humor de Tex Avery, porém menos brutal. Eu queria toda a dimensão desses três estilos. Tivemos sorte de contar com uma das melhores equipes técnicas já montadas no cinema. Não se pode dizer que tivemos dificuldades. Era gente no ponto exato e no máximo de suas carreiras, sempre enfrentando um desafio. Quando nos perguntávamos: "Como é que se faz isso?", não podíamos nunca nos remeter a qualquer outro filme como referência.

    BIZZ - Muitos vão tentar reduzir o filme ao filão cinematográfico de nostalgia dos anos 40 e 50. O que você acha disso?
    Zemeckis - Eu não acho que exista na América uma tendência a prestar homenagem aos filmes do passado. Em relação a este filme em particular, a idéia era combinar dois elementos da história do cinema americano: o filme noir e os cartoons malucos. As duas formas me interessam muito. O filme noir - como os cartoons - foi uma das grandes invenções de Hollywood.

    BIZZ - Daí a mulher fatal e o detetive cheio de problemas...
   Zemeckis - Sim. Jessica foi baseada em um tipo de pin-up e de desenho de pin-up dos anos 40. Tem três modelos: Veronica Lake, Lauren Bacall e Rita Hayworth. O mesmo vale para o detetive Eddie Valiant. O bom desse filme é que, se você está imerso na história do cinema, vai encontrar uma série de piadas e citações. E, mesmo se não está, ele é capaz de atingir todo tipo de público.

    BIZZ - Você não perdeu os cabelos com o custo dessa epopéia?
    Zemeckis - Em março deste ano, estava em 32 milhões de dólares. Foi quando eu parei de perguntar para os contadores (o custo total foi 45 milhões). Essa forma de arte é labourintensive. Nunca o cinema teve artistas desenhando todo e qualquer fotograma. Nos filmes de Disney, desenhavam um sim e outro não. Nesse, tinham que desenhar todos, porque a câmera está em movimento o tempo todo. Esse filme, tecnicamente, é o mais elaborado até hoje. O cartoon inicial, de três minutos e meio, é uma celebração desse tipo de animação, mas com uma sensibilidade diferente.

    BIZZ - O plano-seqüência inicial é ... de tirar a respiração. Tem movimentos de câmera de uma sofisticação fora do comum. Que câmeras e lentes vocês usaram? Como conseguiram essa magia?
    Zemeckis - Eu não me lembro de quais as lentes que nós usamos, as suas especificações técnicas. Usamos duas câmeras desenvolvidas especialmente para este projeto. Filmamos em Vista Vision 1:8:5, com lentes esféricas. A imagem é bastante sharp. Em uma só tomada, sem edição, a câmera indo e vindo, temos o efeito desejado, que é o de provocar imediatamente, no espectador, a suspensão de qualquer possibilidade de ele não acreditar no que está vendo.

    Bizz - Como você analisa a condição atual dos desenhos animados, com o boom japonês na TV?
    Zemeckis - Eu não gosto particularmente do mecanicismo dos cartoons japoneses. No meu tempo, os cartoons eram a grande celebração de sábado de manhã na vida de um garoto. A minha crítica aos cartoons modernos é a animação limitada e ao fato de os personagens raramente se movimentarem. É um problema acima de tudo econômico. Para fazer um show de TV de meia hora a um custo efetivo, a animação deve ser cada vez mais pobre. E o que chamamos poor animation. Em Roger Rabbit os desenhistas faziam dez pés (cerca de três metros) de animação por semana. Na animação para a TV, devem fazer pelo menos noventa pés (cerca de 27 metros). Em certas cenas de Roger Rabbit chegamos até mesmo a apenas três pés por semana, como na cena em que as balas de revólver saem em perseguição.

    Bizz - São muito interessantes alguns temas laterais de Roger Rabbit, relativos à especulação imobiliária ao avanço dos grandes conglomerados. As brincadeiras subversivas são suas, aos roteiristas ou já estavam no romance original de Gary Wolf?
   Zemeckis - É uma mistura. Me interessam muito os subtextos: nesse caso, como o progresso mudou a face de Hollywood para o mundo. A ação do filme transcorre no momento em que se está removendo o transporte público de Los Angeles. A partir disso começamos a brincar com a idéia de um gigantesco e diabólico complô organizado por poderes interessados em cobrir a cidade de freeways e milhões de carros...

    Bizz - Sua maneira de fazer cinema privilegia grandes espaços e é muito próxima dos cartoons. Você diria que com Roger Rabbit fez um cartoon adulto? Ou rejuvenesceu o cinema de ação?
   Zemeckis - Eu sempre considerei que o humor do cinema animado não deveria ser uma exclusividade do público infantil. É um sentimento que tem se desenvolvido nesses últimos tempos. O cinema de ação deve ter um apelo tanto para adultos quanto para gente jovem.

    BIZZ- Para encerrar, três curiosidades. Sem Spielberg esse filme jamais teria sido feito? Quem escolheu a voz de Jessica - tão sedutora quanto a pin-up desenhada? E como você escolheu o elenco?
    Zemeckis - Esse filme só seria perfeito se combinasse personagens de desenhos animados de diversos estúdios. Só mesmo alguém com o poder de negociar diretamente, e com autoridade, com Warner Brothers, Disney, Universal, Paramount, como Steven, poderia nos conseguir os direitos de utilização. Jessica tem duas vozes. A voz do diálogo é de Katheleen Turner - que não cobrou nada pela sua participação. A voz da Jessica cantora é de Amy Irving (também senhora Spielberg). A pesquisa de casting levou muito em conta as vozes dos atores. Eles deveriam ser capazes de uma complete performance: projetar-se ao espectador usando apenas a voz. É preciso muito talento para isso. Vozes são muito difíceis de escalar. Quanto a Bob Hoskins, eu o escolhi por causa de sua performance em Mona Lisa. E o nosso homem mau, Doom, só poderia ser Christopher Lloyd (o cientista louco de De Volta para o Futuro). Ele sempre está mudando de rosto. Ninguém sabe como é a cara - e a atitude - do verdadeiro Christopher Lloyd...

O primo mais novo do Pernalonga.

ARTE DA CAPA – PAMELA ANDERSON 3


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sábado, 30 de março de 2013

O FANTASMA DA FAZENDA (Shazam nº4, abril de 1949)


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DICK LANE
Na fazenda mal-assombrada a surpresa foi geral quando capturaram o fantasma
E assim, o que quer que fosse, homem, fera ou demônio, foi a última vez que foi visto. No dia seguinte procuraram o rastro e, naturalmente nada encontraram, nem um galho partido!
Ninguém falou quando o guia Tim terminou a história. Lá fora, na noite escura, o vento soprava docemente entre os pinheiros, lançando ao solo uma poeira de neve.
A tensão se quebrou, de repente. Uma acha de lenha se extinguia na lareira e a centelha revelou a figura pensativa do velho guia, quando se voltou, sacudindo no fogo a cinza fria do cachimbo, quando todos conversavam animadamente.
Eu poderia acrescentar comentário à conversa se antes não lançasse um rápido olhar a Gruder, o cozinheiro do acampamento, que furtivamente se aproximara da lareira e ali ficara torcendo, nervosamente, o avental entre os dedos. Quando começaram a caçoar da história de Tim, se estampara em seu rosto uma expressão animal de descontentamento e se retirara, contrariado, à cozinha.
Intrigado, recomecei a encher o cachimbo. Naquele rápido instante meu olhar percebeu algo sinistro, desagradável, naqueles olhos parados e muito abertos
A estranha história do velho Tim, as sombras flutuantes produzidas pelo fogo, o incessante gemido do vento, todos esses fatores contribuíam pra criar um ambiente de mistério que se transmitia ao espírito e ao corpo daqueles homens cansados de depois dum dia de caçada na floresta.
Por isso, quando os outros se levantaram e partiram, enfrentando a noite fria, na escura alameda em direção ao pavilhão de caça, continuei sentado, junto ao fogo, fumando, escutando, esperando, não sei o quê.
Tim e o cozinheiro estavam na cozinha. Podia ouvir as vozes abafadas.
Me dispunha a sair, quando subitamente ouvi a voz exaltada de Gruder:
— Mas vi! Garanto!
— Viste o quê? — Perguntei, tranqüilamente, da porta.
Os dois homens se voltaram bruscamente Foi Tim quem respondeu.
— Me disse que o que vi foi o Demônio de Jersey.[1]
Olhei, pasmo, a Gruder. Como vivesse muitos anos naquela região, em Nova Jersey, me acostumara, naturalmente, à maneira supersticiosa da gente do lugar. Já ouvira, anteriormente, a lenda do fantasma que vagava na floresta e que era metade homem e metade cavalo. No entanto havia algo ali qualquer coisa.
— Onde o viste?
Era de escárnio o sorriso de Gruder.
— No bosque, na noite.
— Estavas inspecionando?
Não obtive resposta.
— O que aconteceu?
— Estava andando num velho pomar. De repente notei que não estava só. Apurei, gelado, o ouvido. Então o vi. Me olhava fixamente atrás dum arbusto.
O homem umedeceu os lábios com a língua. Indaguei depressa:
— Então o que fizeste?
— Iluminei o rosto. Os olhos eram horríveis, injetados de sangue!
— Tinha chifre?
— Afiado!
Caçoei:
— Viste um veado.
A resposta de Gruder veio baixinho:
— Não. Os chifres eram levantados e o cabelo no peito era branco como a neve.
— Mentira! — Gritei — Nada há nesta floresta que corresponda a essa descrição.
Olhei a Tim, esperando aprovação. O velho guia enrubesceu, fugindo de meu olhar.
— Está bem. — Disse, tranqüilamente — Já é tempo de acabar com esse mito. Amanhã na noite esperarei no mesmo pomar. E espero ver tal fantasma!

À medida que caminhava na alameda escura, em direção ao pavilhão de caça, não podia deixar de me sentir superior aos dois homens que me seguiam mas instintivamente sentia que Gruder disse a verdade.
Caminhando sempre, quase ultrapassei o caminho estreito e escuro que se desviava no bosque de pinheiro. Depois de andar alguns quilômetros naquele verde arvoredo, me apareceram os primeiros sinais de civilização.
Finalmente penetrei no pequeno vilarejo que Gruder descrevera.
Parei diante duma espécie de armazém, de janelas empoeiradas. Lá dentro o ar abafado cheirava a madeira queimada e a comida.
— Sim?
Hesitei. Sentia os olhares hostis de inúmeros convivas. Disse, apontando:
— Uma fatia de pão e uma vasilha de feijão.
— E eu pensava que conhecia todos! — Uma voz de poucos amigos se arrastou atrás de mim.
Percebi a situação. Acreditavam que eu fosse o novo guarda enviado pra investigar a caça clandestina a veado.
Observei o homem grisalho que falara.
— Há alguma velha fazenda aqui, cum monte de graveto atrás?
Sem resposta.
— Com certeza se refere à fazenda mal-assombrada. — Disse uma voz monótona. — Foi ali, naqueles gravetos que se deu... — se interrompeu.
Paguei a conta e já me retirava quando o velho proprietário me acompanhou à porta.
— A fazenda mal-assombrada fica na estrada da esquerda, a alguns quilômetros daqui. Quando chegares até lá sigas meu conselho: Não pares. Sigas sempre em frente!
— Obrigado. — Disse, secamente, e fui embora.
A fazenda abandonada ficava num declive em ruína, na extremidade de grande macieiral que seguia paralelo à estrada. A distância fazia o celeiro parecer em perfeito estado mas vi que o telhado da casa surgia oscilante. Atrás se via o monte de graveto.
Tirei o carro da estrada e o escondi entre os pequenos pinheiros. Jantei o que trouxera.
A noite descia, lentamente, sobre o bosque, quando terminei. Então segui no antigo rastro de carroça na areia. O céu coberto de nuvem e o luar, eu sabia, só apareceriam mais tarde. Seria uma grande caminhada e ainda mais demorada a pé, na escuridão. Preferia continuar de carro. Contudo sabia que se houvesse algo freqüentando aquela paragem desolada era melhor eu estar a pé.
Instintivamente procurei caminhar na grama, a fim de abafar o som de meus passos apressados.
Sombras já cobriam o chão quando, tendo rodeado a casa, comecei a acompanhar a pista das pegadas de veado.

A noite desceu rapidamente. Parecia trazer uma quietude que abrandava os contornos irregulares do terreno. Coloquei bala na espingarda e deixei a alcance a lanterna elétrica.
Gradativamente o silêncio se tornou mais carregado, parecendo fazer, de todos os lados, pressão sobre mim. Na aldeia distante se ouvia o ganido choroso dum cão. Foi tudo.
Assim me sentei duramte muito tempo, esperando, ouvindo. Já desistia quando tive, de repente, a sensação estranha de que algo passara bem em minha frente, no escuro!
Apurei, atentamente, o ouvido. Nada! Nada além duma brisa ligeira e perfumada.
Com mãos frias procurei a lanterna, cujo tênue raio brilhou na escuridão. A dirigia ao bosque. Nada!
Abalado, ainda que revoltado contra minha fraqueza passageira, me levantei.
De qualquer modo a noite estava muito escura. Devia ter esperado uma noite de luar.
E então, ao acaso, vi algo que realmente me abalou!
Claramente delineadas sobre a neve, sob uma das macieiras, a luz revelou pegada. As marcas irregulares das patas eram antigas, já estavam espalhadas. Isso me deixou apavorado.
Nalguns lugares só havia duas grandes em vez de quatro. Seja o que for, podia se manter em pé.
O longo inverno quase findando quando recebi um telefonema de Tim.
— Houve outra aparição!
— Nããão! — Tartamudeei — Onde?
— Atrás da fazenda mal-assombrada.
Dessa vez fui bem equipado pra enfrentar o fantasma: Um rifle, óculos noturnos e uma garrafa térmica com café quente. Levava também um companheiro. Jim e eu caçáramos juntos e eu sabia que podia contar consigo em toda dificuldade. Jim murmurou:
— Lugar estranho. Não é?
Não respondi. Essa noite estaria cheia de perigo. Esperamos Um luar indiferente surgia no céu nublado, criando sombras disformes que iam e vinham entre as árvores torcidas do bosque.
Devo ter adormecido. Me acordou forte pressão da grande mão de Jim em meu braço.
Jim levara os óculos aos olhos.
— Olhes ali! — disse, baixinho.

Então vi, na sombra, ao lado do celeiro, uma forma branca nos observando atentamente atrás da névoa incerta. Rapidamente ergui o rifle e hesitei. E se fosse um ser humano? Tarde demais, pois a coisa sumia de minha vista, atrás da casa.
— Venhas! Rodeemos o celeiro. Se pudermos o cercar...
Ofegante, alcancei o celeiro. Apontei a lanterna. Mais alguns passos na escuridão e descobriria tudo.
— Pam!
Senti o som e o movimento simultaneamente. Durante um terrível instante um corpo peludo se encostou ao meu. Pude distinguir uma figura chifruda. E então, sem poder me conter mais, caí ao chão, ainda consciente dum forte cheiro de ranço que aquele ser deixara na escuridão.
— Bum!
Um revólver disparara enquanto eu me levantava como um louco, procurando a lanterna.
— É o fantasma! — Gritou Jim. — Dentro do celeiro. — Suas palavras se perderam sob o ruído duma porta que se fechava, batendo ruidosamente.
Dentro da casa havia um ser descontrolado. Se podia ouvir, repetidamente, o barulho dum grande corpo lutando contra obstáculos invisíveis. Corri àquela direção.
Jim era uma sombra incerta e escura de encontro à porta. Gritei:
— Abras e te afastes!
Homem, fera ou demônio, eu ainda tinha fé em minha arma.
Jim obedeceu. O vi se afastar quando ergui o revólver.
Silêncio quebrado somente por uma respiração gutural que partia dum lugar qualquer da sala escura, a minha frente. Ordenei como louco:
— Saias! Ou eu...
Pressenti o movimento, vingador antes dos pés correrem o assoalho.
Um grito penetrante e inumano repercutiu na noite quando dei três tiros.
— Acendas a luz!, por favor. O matei.
Me contive pra não correr pra o auxiliar.
Então se ouvia-se somente o som duma respiração difícil e um corpo que se arrastava, procurando sair. Procurei acender um fósforo mas não consegui.
O som se transformou num estertor abafado, que crescia como uma súplica. Pedi novamente:
— Depressa, acendas a luz!
E então Jim voltou. Ficamos juntos, gratos a nossa mútua presença. A luz correu sobre o corpo ensangüentado do animal que jazia a nossos pés.

Diante de nós estava o rosto branco e peludo, os olhos molhados e brilhantes e os chifres que se erguiam dos lados da cabeça. Jim se abaixou, olhando, incrédulo, as narinas vermelhas e os dentes cinzelados e murmurou:
— Um bode! Nada além dum simples, grande e velho bode!
Olhei o corpo muito branco e agonizante e abanei a cabeça. Era verdade. De repente me senti frustrado, desapontado. Eu esperava outra coisa e disse, enfim:
— Já sei o que aconteceu. Este velho eremita deve ter freqüentado esta fazenda abandonada durante anos, talvez desde que a abandonaram. Caçadores de veado, penetrando furtivamente na noite, perseguidos pelos guardas florestais, viram o que seu medo e superstição os levavam a acreditar. Uma cara barbada, percebida na tênue luz duma lanterna, certamente pareceria um fantasma!
— Sim. E isso explica as pegadas na neve. O bode estava de pé sobre as patas traseiras pra comer os galhos mais baixos da macieira!
Estávamos carregando a pesada carcaça quando chegaram os outros, silenciosos, desconfiados. Não se disse palavra. Somente um som abafado e misterioso se erguia sobre a procissão fúnebre. Estranha gente aquela, que acompanhava aquele corpo branco, cheia duma superstição profunda demais pra morrer de repente.


[1]  O Diabo de Jérsia, Demônio de Jersey ou Demônio de Leeds (Jersey Devil) é uma criatura criptozoológica que habita Pine Barrens, ao sudeste de Nova Jérsia, Eua. É descrito como um ser bípede com asas de morcego, patas de cavalo e um rosto que parece cavalo ou alce. Também possui um grito de gelar o sangue, parecido ao duma mulher agonizando. A história do Diabo de Jérsia tem muitas versões. A mais conhecida remete à lenda de mother Leeds. Dizem que mãe Leeds, ao parir o 12º filho, disse que se ficasse grávida novamente, do 13º, ele seria o Diabo. Dito e feito! Leeds engravidou do número 13. Numa noite tempestuosa de1735 a criança nasceu. A família e amigos assistiram ao parto e a criança parecia ter nascido normal. Mas subitamente começou a se transformar numa horrenda criatura. Soltando terríveis grunhidos, o ser matou mãe Leeds e fugiu voando na janela, aterrorizando a família e, brevemente, toda a cidade.

RECRUTA ZERO nº4,outubro de 1989

 

Editora Globo

zero4 out 1989

sexta-feira, 29 de março de 2013

DISCOS DO DIA: SP METAL II, HARPPIA e IKE & TINA TURNER


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SP METAL II - Abutre, Performances, Korzus e Santuário.
A FERRO E FOGO - Harppia (Baratos Afins)

    Aperte os cintos porque lá vem pauleira. Juntos, estes grupos formam a novíssima geração do heavy metal paulista. Separados, são indistinguíveis entre si. Todos eles repartem uma obsessão comum por imagens apocalípticas e pela mais densa massa sonora que consigam gerar. É possível perceber influências de absolutamente todas as bandas heavy do mundo e, portanto, fica difícil extrair uma identidade própria de cada grupo. O Harppia, por exemplo, é a cara do Iron Maiden. Será que ninguém consegue inventar um heavy diferente?
Ike--Tina-Turner-Get-Back-522225_thumb

GET BACK - Ike & Tina Turner (EMI-Odeon)
    Quando Tina abandonou o marido e partner lke Turner, estava dando o mais importante passo de sua vida. Como pessoa, libertou-se do jugo de um homem possessivo e violento; como artista, livrou-se da bitolação de lke, que odiava o rock´n´roll que Tina sempre amara. Agora que Tina é uma estrela multiplatinada, a grande dama negra do rock, sai esta compilação do melhor de sua carreira com Ike. É imperdível para quem só conheceu Tina a partir do álbum Private Dancer. Detalhe; todo o brilho de Get Back pertence a Tina. Ike, com o passar dos anos, continua bem vagabundinho.

Bizz nº1 , agosto de 1985
Santuário – Espartaco Gladiador Rei
Korzus – Príncipe da Escuridão
Harppia – Salem a Cidade das Bruxas
Harppia – A Ferro e Fogo
Ike & Tina Turner – Get Back
Ike & Tina Turner – Proud Mary

PESADELO NUCLEAR nº2 (julho de 2011)


Guarujá (SP)
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SHOWGIRLS # 79

 

G-Eyefuls, Snap e At Ease

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