sábado, 30 de março de 2013

O FANTASMA DA FAZENDA (Shazam nº4, abril de 1949)


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DICK LANE
Na fazenda mal-assombrada a surpresa foi geral quando capturaram o fantasma
E assim, o que quer que fosse, homem, fera ou demônio, foi a última vez que foi visto. No dia seguinte procuraram o rastro e, naturalmente nada encontraram, nem um galho partido!
Ninguém falou quando o guia Tim terminou a história. Lá fora, na noite escura, o vento soprava docemente entre os pinheiros, lançando ao solo uma poeira de neve.
A tensão se quebrou, de repente. Uma acha de lenha se extinguia na lareira e a centelha revelou a figura pensativa do velho guia, quando se voltou, sacudindo no fogo a cinza fria do cachimbo, quando todos conversavam animadamente.
Eu poderia acrescentar comentário à conversa se antes não lançasse um rápido olhar a Gruder, o cozinheiro do acampamento, que furtivamente se aproximara da lareira e ali ficara torcendo, nervosamente, o avental entre os dedos. Quando começaram a caçoar da história de Tim, se estampara em seu rosto uma expressão animal de descontentamento e se retirara, contrariado, à cozinha.
Intrigado, recomecei a encher o cachimbo. Naquele rápido instante meu olhar percebeu algo sinistro, desagradável, naqueles olhos parados e muito abertos
A estranha história do velho Tim, as sombras flutuantes produzidas pelo fogo, o incessante gemido do vento, todos esses fatores contribuíam pra criar um ambiente de mistério que se transmitia ao espírito e ao corpo daqueles homens cansados de depois dum dia de caçada na floresta.
Por isso, quando os outros se levantaram e partiram, enfrentando a noite fria, na escura alameda em direção ao pavilhão de caça, continuei sentado, junto ao fogo, fumando, escutando, esperando, não sei o quê.
Tim e o cozinheiro estavam na cozinha. Podia ouvir as vozes abafadas.
Me dispunha a sair, quando subitamente ouvi a voz exaltada de Gruder:
— Mas vi! Garanto!
— Viste o quê? — Perguntei, tranqüilamente, da porta.
Os dois homens se voltaram bruscamente Foi Tim quem respondeu.
— Me disse que o que vi foi o Demônio de Jersey.[1]
Olhei, pasmo, a Gruder. Como vivesse muitos anos naquela região, em Nova Jersey, me acostumara, naturalmente, à maneira supersticiosa da gente do lugar. Já ouvira, anteriormente, a lenda do fantasma que vagava na floresta e que era metade homem e metade cavalo. No entanto havia algo ali qualquer coisa.
— Onde o viste?
Era de escárnio o sorriso de Gruder.
— No bosque, na noite.
— Estavas inspecionando?
Não obtive resposta.
— O que aconteceu?
— Estava andando num velho pomar. De repente notei que não estava só. Apurei, gelado, o ouvido. Então o vi. Me olhava fixamente atrás dum arbusto.
O homem umedeceu os lábios com a língua. Indaguei depressa:
— Então o que fizeste?
— Iluminei o rosto. Os olhos eram horríveis, injetados de sangue!
— Tinha chifre?
— Afiado!
Caçoei:
— Viste um veado.
A resposta de Gruder veio baixinho:
— Não. Os chifres eram levantados e o cabelo no peito era branco como a neve.
— Mentira! — Gritei — Nada há nesta floresta que corresponda a essa descrição.
Olhei a Tim, esperando aprovação. O velho guia enrubesceu, fugindo de meu olhar.
— Está bem. — Disse, tranqüilamente — Já é tempo de acabar com esse mito. Amanhã na noite esperarei no mesmo pomar. E espero ver tal fantasma!

À medida que caminhava na alameda escura, em direção ao pavilhão de caça, não podia deixar de me sentir superior aos dois homens que me seguiam mas instintivamente sentia que Gruder disse a verdade.
Caminhando sempre, quase ultrapassei o caminho estreito e escuro que se desviava no bosque de pinheiro. Depois de andar alguns quilômetros naquele verde arvoredo, me apareceram os primeiros sinais de civilização.
Finalmente penetrei no pequeno vilarejo que Gruder descrevera.
Parei diante duma espécie de armazém, de janelas empoeiradas. Lá dentro o ar abafado cheirava a madeira queimada e a comida.
— Sim?
Hesitei. Sentia os olhares hostis de inúmeros convivas. Disse, apontando:
— Uma fatia de pão e uma vasilha de feijão.
— E eu pensava que conhecia todos! — Uma voz de poucos amigos se arrastou atrás de mim.
Percebi a situação. Acreditavam que eu fosse o novo guarda enviado pra investigar a caça clandestina a veado.
Observei o homem grisalho que falara.
— Há alguma velha fazenda aqui, cum monte de graveto atrás?
Sem resposta.
— Com certeza se refere à fazenda mal-assombrada. — Disse uma voz monótona. — Foi ali, naqueles gravetos que se deu... — se interrompeu.
Paguei a conta e já me retirava quando o velho proprietário me acompanhou à porta.
— A fazenda mal-assombrada fica na estrada da esquerda, a alguns quilômetros daqui. Quando chegares até lá sigas meu conselho: Não pares. Sigas sempre em frente!
— Obrigado. — Disse, secamente, e fui embora.
A fazenda abandonada ficava num declive em ruína, na extremidade de grande macieiral que seguia paralelo à estrada. A distância fazia o celeiro parecer em perfeito estado mas vi que o telhado da casa surgia oscilante. Atrás se via o monte de graveto.
Tirei o carro da estrada e o escondi entre os pequenos pinheiros. Jantei o que trouxera.
A noite descia, lentamente, sobre o bosque, quando terminei. Então segui no antigo rastro de carroça na areia. O céu coberto de nuvem e o luar, eu sabia, só apareceriam mais tarde. Seria uma grande caminhada e ainda mais demorada a pé, na escuridão. Preferia continuar de carro. Contudo sabia que se houvesse algo freqüentando aquela paragem desolada era melhor eu estar a pé.
Instintivamente procurei caminhar na grama, a fim de abafar o som de meus passos apressados.
Sombras já cobriam o chão quando, tendo rodeado a casa, comecei a acompanhar a pista das pegadas de veado.

A noite desceu rapidamente. Parecia trazer uma quietude que abrandava os contornos irregulares do terreno. Coloquei bala na espingarda e deixei a alcance a lanterna elétrica.
Gradativamente o silêncio se tornou mais carregado, parecendo fazer, de todos os lados, pressão sobre mim. Na aldeia distante se ouvia o ganido choroso dum cão. Foi tudo.
Assim me sentei duramte muito tempo, esperando, ouvindo. Já desistia quando tive, de repente, a sensação estranha de que algo passara bem em minha frente, no escuro!
Apurei, atentamente, o ouvido. Nada! Nada além duma brisa ligeira e perfumada.
Com mãos frias procurei a lanterna, cujo tênue raio brilhou na escuridão. A dirigia ao bosque. Nada!
Abalado, ainda que revoltado contra minha fraqueza passageira, me levantei.
De qualquer modo a noite estava muito escura. Devia ter esperado uma noite de luar.
E então, ao acaso, vi algo que realmente me abalou!
Claramente delineadas sobre a neve, sob uma das macieiras, a luz revelou pegada. As marcas irregulares das patas eram antigas, já estavam espalhadas. Isso me deixou apavorado.
Nalguns lugares só havia duas grandes em vez de quatro. Seja o que for, podia se manter em pé.
O longo inverno quase findando quando recebi um telefonema de Tim.
— Houve outra aparição!
— Nããão! — Tartamudeei — Onde?
— Atrás da fazenda mal-assombrada.
Dessa vez fui bem equipado pra enfrentar o fantasma: Um rifle, óculos noturnos e uma garrafa térmica com café quente. Levava também um companheiro. Jim e eu caçáramos juntos e eu sabia que podia contar consigo em toda dificuldade. Jim murmurou:
— Lugar estranho. Não é?
Não respondi. Essa noite estaria cheia de perigo. Esperamos Um luar indiferente surgia no céu nublado, criando sombras disformes que iam e vinham entre as árvores torcidas do bosque.
Devo ter adormecido. Me acordou forte pressão da grande mão de Jim em meu braço.
Jim levara os óculos aos olhos.
— Olhes ali! — disse, baixinho.

Então vi, na sombra, ao lado do celeiro, uma forma branca nos observando atentamente atrás da névoa incerta. Rapidamente ergui o rifle e hesitei. E se fosse um ser humano? Tarde demais, pois a coisa sumia de minha vista, atrás da casa.
— Venhas! Rodeemos o celeiro. Se pudermos o cercar...
Ofegante, alcancei o celeiro. Apontei a lanterna. Mais alguns passos na escuridão e descobriria tudo.
— Pam!
Senti o som e o movimento simultaneamente. Durante um terrível instante um corpo peludo se encostou ao meu. Pude distinguir uma figura chifruda. E então, sem poder me conter mais, caí ao chão, ainda consciente dum forte cheiro de ranço que aquele ser deixara na escuridão.
— Bum!
Um revólver disparara enquanto eu me levantava como um louco, procurando a lanterna.
— É o fantasma! — Gritou Jim. — Dentro do celeiro. — Suas palavras se perderam sob o ruído duma porta que se fechava, batendo ruidosamente.
Dentro da casa havia um ser descontrolado. Se podia ouvir, repetidamente, o barulho dum grande corpo lutando contra obstáculos invisíveis. Corri àquela direção.
Jim era uma sombra incerta e escura de encontro à porta. Gritei:
— Abras e te afastes!
Homem, fera ou demônio, eu ainda tinha fé em minha arma.
Jim obedeceu. O vi se afastar quando ergui o revólver.
Silêncio quebrado somente por uma respiração gutural que partia dum lugar qualquer da sala escura, a minha frente. Ordenei como louco:
— Saias! Ou eu...
Pressenti o movimento, vingador antes dos pés correrem o assoalho.
Um grito penetrante e inumano repercutiu na noite quando dei três tiros.
— Acendas a luz!, por favor. O matei.
Me contive pra não correr pra o auxiliar.
Então se ouvia-se somente o som duma respiração difícil e um corpo que se arrastava, procurando sair. Procurei acender um fósforo mas não consegui.
O som se transformou num estertor abafado, que crescia como uma súplica. Pedi novamente:
— Depressa, acendas a luz!
E então Jim voltou. Ficamos juntos, gratos a nossa mútua presença. A luz correu sobre o corpo ensangüentado do animal que jazia a nossos pés.

Diante de nós estava o rosto branco e peludo, os olhos molhados e brilhantes e os chifres que se erguiam dos lados da cabeça. Jim se abaixou, olhando, incrédulo, as narinas vermelhas e os dentes cinzelados e murmurou:
— Um bode! Nada além dum simples, grande e velho bode!
Olhei o corpo muito branco e agonizante e abanei a cabeça. Era verdade. De repente me senti frustrado, desapontado. Eu esperava outra coisa e disse, enfim:
— Já sei o que aconteceu. Este velho eremita deve ter freqüentado esta fazenda abandonada durante anos, talvez desde que a abandonaram. Caçadores de veado, penetrando furtivamente na noite, perseguidos pelos guardas florestais, viram o que seu medo e superstição os levavam a acreditar. Uma cara barbada, percebida na tênue luz duma lanterna, certamente pareceria um fantasma!
— Sim. E isso explica as pegadas na neve. O bode estava de pé sobre as patas traseiras pra comer os galhos mais baixos da macieira!
Estávamos carregando a pesada carcaça quando chegaram os outros, silenciosos, desconfiados. Não se disse palavra. Somente um som abafado e misterioso se erguia sobre a procissão fúnebre. Estranha gente aquela, que acompanhava aquele corpo branco, cheia duma superstição profunda demais pra morrer de repente.


[1]  O Diabo de Jérsia, Demônio de Jersey ou Demônio de Leeds (Jersey Devil) é uma criatura criptozoológica que habita Pine Barrens, ao sudeste de Nova Jérsia, Eua. É descrito como um ser bípede com asas de morcego, patas de cavalo e um rosto que parece cavalo ou alce. Também possui um grito de gelar o sangue, parecido ao duma mulher agonizando. A história do Diabo de Jérsia tem muitas versões. A mais conhecida remete à lenda de mother Leeds. Dizem que mãe Leeds, ao parir o 12º filho, disse que se ficasse grávida novamente, do 13º, ele seria o Diabo. Dito e feito! Leeds engravidou do número 13. Numa noite tempestuosa de1735 a criança nasceu. A família e amigos assistiram ao parto e a criança parecia ter nascido normal. Mas subitamente começou a se transformar numa horrenda criatura. Soltando terríveis grunhidos, o ser matou mãe Leeds e fugiu voando na janela, aterrorizando a família e, brevemente, toda a cidade.

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AKIM