domingo, 30 de junho de 2013

PSICOCANIBALISMO (Bizz nº25, Agosto de 1987)

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             Palatrussardi (Milão) 11/06/87
                       PEPE ESCOBAR
    O potentado púrpura do party rock um dia teve uma visão. No ano 2000 acaba a festa. Então vamos todos suar a libido como se hoje fosse 1999.Grande conceito. Rendeu um álbum duplo de alta adrenalina e uma turnê americana, no início de 83 - que institucionalizou como o anão-sátiro libidinal de Minneapolis favorito deste planeta (na época, ainda não paranóico com a peste rosa). Prince estava no máximo da sua energia sex-soul-street funk em estado bruto.
    Depois, veio a verdadeira peste. O consenso. As pústulas megalômanas do excesso. Um clipão desmesurado (Purple Rain). Uma "comédia romântica" absolutamente ridícula Under the Cherry Moon). Revivals preguiçosos da psicodelia. E, claro, ocasionais redenções pela via de uma síntese preciosa: "Sign O´ the Times", a música, não o álbum, ou "Kiss".
    Em qualquer latitude, fale "Prince´. Resposta: o mais  revolucionário. Impossível um juízo crítico. Mais revolucionário, não: mais hábil, e mais bem colocado, para vender transgressões soft para um público de massa. O liquidificador que faz a mistura mais compacta do que as outras: as doses do rigor de James Brown, Sly Stone, Hendrix, Philadelphia soul, rhythm´n´blues primordial, high tech de estúdio. Para começar mesmo, dentro da cosmologia black: um show de Cameo é extra-libidinal. Um show de Trouble Funk te faz dançar como nenhuma possessão xamânica. Um show de James Brown - ainda hoje, já preto véio - tem uma carga imbatível de ritmo e emoção em estado bruto. E Prince? É uma limousine com ar condicionado e tapete de veludo, comparada a algumas berlinetas ou velhos conversíveis envenenados. Uma questão de excitament. E uma questão de provocar consenso no público - e mídia - de massa branco. Coisa que para a maioria absoluta dos artistas negros é uma quimera.
    Lá vamos para a escala milanesa da Sign O´ the Times Tour.A entrada da família principesca é literalmente marcial. Palco escuro. O homem sozinho com sua guitarra salmão à frente. Por uma plataforma lateral, desce a banda tocando bumbo, em fila indiana. Quando as luzes se acendem, vamos à paulada. Já abre com Sign O´The Times em sampler, enquanto a moçada toma posição. Uma selva psicocanibalesca digna dos velhos tempos da family Stone: folia black-mulata de brincos, corações, símbolos da paz, óculos espelhados, colares de contas, golas olímpicas, torsos nus, um Fat Boy com suíngue de rapper, uma bailarina com pernas de bodybuilder, pretos, púrpuras, salmões e rosas.No background, o cenário noturno-becos mitológicos dos EUA, neons brilhando com todas intimações da pop life "motel´; "girls´; ´Funk corner´; "drinks´: É o som da rua? É o som da rua - mas saindo de dentro da limousine de passagem.
    O Show segue a mesma estrutura da turnê 1999, com persianas atrás do palco, ventiladores embutidos, uma ceninha de cama (Prince e Cat, a bailarina, simulam uma perseguição sedutora que termina na cama em forma de coração abocanhando o casal). Em relação ao ano passado, não temos o Prince elegante de terninho amarelo, mas o Prince neopsicodélico ou black glitter (com botinhas salto sete e meio). O som sai como uma gigante bola de borracha - ao invés de feltro. A sintetização encobre as duas guitarras -menos os solos intermináveis do orgulho de Minneapolis - e a seção de metais. Quem articula todo o drive com um swing heavy/blue/latino é a luciferiana Sheila E.de vesti-dinho linha Mary Quant swingin´London, escondida atrás de uma Tama monumental. Prince lhe permite um solo de bateria. Mas não um vocal - só um backing linha gospel Sheila E. não permite adjetivos. Não toca bateria: toca libido em estado puro.
    Passa todo o "greatest hits": "Purple Rain" para todo mundo acender os isqueiros, "Kiss" no fim - roubado por Sheila E. -, um "1999" que atropela como uma locomotiva. Prince fecha com "Sweet Song of Salvation", sua mensagem-chave, de paz e amor, mas o registro é bem mais melancólico do que há quatro anos (só poderia). Solos hendrixianos intermináveis, auto-masturbatórios, abaixo de qualquer Hendrix padrão médio, muito barulho na tribo... Não bate lá no nervo profundo da emoção. Sinal dos tempos? Não importa. Ficamos com o que é um dos melhores versos pop desta época: "You don´t have to watch Dynasty/ to have an attitude"...A primeira metade do verso, cada um reconstrói como quiser. Quanto a atitude, é a palavra-mágica da época.













O Pequeno Prince em seu habitat natural. O palco.

A ÚLTIMA DO QUARTEL (Recruta Zero nº4,outubro de 1989)

 

Editora Abril

zero4 out 1989 (5)

SHOWGIRLS # 110

 

Rapture, Jest e French Frills

retrospace mens mag (264) 

retrospace mens mag (265)

retrospace mens mag (266)

AIRTO DE VOLTA (POR POUCO TEMPO) AO PAÍS DA BUROCRACIA (Jornal de Música, agosto de 1977)

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