domingo, 25 de agosto de 2013

A MAIOR BANDA INDEPENDENTE (Bizz nº 4, Novembro de 1985)

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                        PEPE ESCOBAR
Joy Division
Gíria da Segunda Guerra Mundial, designado a ala das prostitutas em um compo de concentração.
New Order
Entre outras coisas, o termo utilizado por Hitler o que pretendia impor á humanidade.
     Duas expressões, entre a ironia e a provocação. Elas envolvem uma história de dilaceramento, mitologia, suicídio, experimentação e sucesso comercial. Joy Division e sua sucessão, New Order, representam muito mais do que duas bandas: configuram-se como uma artéria vital no sistema circulatório da música contemporânea.
Bernard Sumner (guitarra, vocais), Peter Hook (baixo), Stephen Morris (bateria) e Gillian Gilbert (teclados), todos de Manchester ou arredores, finalmente conseguiram livrar-se de um espectro: o mítico Ian Curtis.       Ian, enforcando-se na casa dos pais em 18 de abril de 1980, suspendendo definitivamente sua representação em vida, foi sacralizado como uma mescla de Rimbaud e Jim Morrison na era do tédio e da mistificação. Ele era um quebra-cabeça, responsável pela imensa aura de mistério em torno do Joy Division. A essência da vulnerabilidade. No palco, com os olhos cheios d'água, caía em espasmos frenéticos apenas para se recompor e se concentrar como um monge. Um epilético em perpétuo exorcismo (vide a memorável "She´s Lost Control").
     No infernal ano 77, ápice da purgação cultural punk, o extended play do Joy Division, An Ideal for Living, surgiu como uma porrada nas sensibilidades moldadas pelo rock progressivo do início dos anos 70. Tony Wilson - ex-produtor de TV - os assinou com a lengendária Factory Records, de Manchester. Foram cair nas mãos de Martin Hannett, ex-químico e fissurado em tecnologia eletrônica.
     Hannett botou o Joy - e o futuro New Order - na linha. Ensinou-lhes tudo sobre produção. Foi contra a corrente. Mixou a voz e a guitarra atrás do baixo e da bateria, definindo eletronicamente os espaços mal costurados do som da banda. O resultado, no álbum Unknown Pleasures, de 78, é uma vasta paisagem sonora desolada, esparsa, monolítica, estatuesca.
     Curtis era o bardo do desespero e da decadência enquanto a Inglaterra assistia ao colapso final de um boom industrial de dois séculos. Em Manchester, 79, o sistema de esgotos, podre, estourou. Curtis passava a agonia da época em "Transmission". Sua agonia pessoal era intransferível, claro. Mas os grandes sofrimentos pessoais, os abismos da angústia, são patrimônio de toda a Humanidade.
     O Joy Division finalizou Closer, cujo título antecipava ambíguas nuances de intimismo e solução definitiva. Uma epopéia da melancolia terminal, gravada em uma abóboda de estuque para realçar o tom gótico. Saía o compacto "Love Will Tear Us Apart" ("O Amor Vai nos Dilacerar"), uma das mais belas canções da música popular em todos os tempos, digna das maiores criações do Romantismo inglês no século 19. Na capa, negra, o título está inscrito como em uma tumba. E veio o enforcamento, a estupefação, a aura de danação romântica. "Love Will Tear Us Apart", a canção-símbolo da Inglaterra em 80, ameaçou transformar-se na "Stairway to Heaven" da nova década.
     Depois de tanta agonia, o silêncio. O New Order - na época Sumner, Hook e Morris - surgiu de uma concha como uma Afrodite eletropop. Lentamente, começaram a aparecer aquelas capas: ricos estouros de cores com tipologia cheia e logotipos opacos. Sempre um mínimo de informação: New Order, título do disco, produtor, selo, data. E a melancolia eletrônica antecipada pelo Joy Division encontrou um novo mix de universal simplicidade. Nunca muito mais do que uma atmosfera. Os próprios títulos das músicas, vagos, intercambiáveis - "Isolation" , "Transmission", "Ceremony", "Temptation", "Confusion" -, realçavam a aura de mistério.
     Os cultistas ainda sonhavam, melancólicos, com os exorcismos de demônios pessoais operados por Ian Curtis. Mas a dinâmica da nova ordem já era outra. A banda configurou-se definitivamente como um coletivo hard rock (por estranho que possa parecer...), tingido pela eletrônica celebrada nos night clubs urbanos. Um dia, o New Order estarreceu de vez a indústria da música. Executivos e públicos em geral perceberam que aquela banda esquisitíssima - quase uma seita oculta - fabricava hits e entupia pistas dança na Europa, EUA, Austrália até locais selecionados do Rio e São Paulo.
     A culpa foi de "Blue Monday". Sem vídeo promocional, sem propaganda, sem roupinhas colaterais, sem foto na capa imaculadamente negra, este compacto de 12 polegadas está até hoje na lista inglesa dos independentes mais vendidos - mais de 600 mil cópias em pouco menos de dois anos, e um dos cinco mais populares compactos de 12 polegadas de todos os tempos. Segredo? Nenhum. Apenas uma fragilíssima melodia inserida em uma pesadíssima batida hard disco. A influência de "Blue Monday" foi tão grande que fertilizou até mesmo experimentos de estúdio dos magos negros de Nova York.
     "Blue Monday" foi uma bomba. Não nos termos conceituais. Mas no som. As canções do New Order geralmente exploram um pequeno espectro de emoções em torno do desespero profundo. Sempre avançam com mordacidade e veneno, manipulando também o sarcasmo como se fosse uma pausa para tomar ar fresco. Power, Corruption and Lies, o magnífico LP anterior "Blue Monday", era ainda uma epopéia melancólica, quase tão divinamente fúnebre quanto as composições do Joy Division. Na capa magistral - como todas do designer Peter Saville -, apenas um óleo com rosas do impressionista francês Fantin-Latour, e uma pequena (e falsa) escala de cores no canto superior direito. Em "Confusion", o compacto de 12 polegadas posterior a "Blue, Monday", um verdadeiro delírio. Eletropop, orquestrado pelo possesso Arthur Baker, produtor do não menos possesso Afrika Bambaataa. Um experimentalismo ao qual deram-se ao luxo e de onde aprenderam lições fundamentais, como na temporada sob Martin Hannett. Em 83, New Order já produzia todos os seus discos.
     Eles têm pouca coisa a dizer longe de um estúdio. Quase toda a renda do grupo é investida na compra de equipamento. Tocam pouquíssimo ao vivo, sempre nos arredores de Londres ou em pequenas salas no interior da Inglaterra. Detestam publicidade. São extremamente insulares. Mas, quando saem de casa, um tumulto, como nas incursões ao Japão, onde são venerados como deuses eletrônicos. Nas fitas piratas de shows - muitas podem ser encontradas nas barraquinhas dos trambiqueiros de Portobello Road, em Londres, aos sábados - quase sempre soam como nas mixagens oficiais. Sua concepção de jam session é sempre hipereletrônica, como nas longas introduções ao vivo para "Blue Monday", ornadas de múltiplos efeitos especiais.
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Configurados como uma banda dançante, fizeram em 84 uma belíssima canção de amor, "Thieves Like Us", verdadeiro balé sintetizado para apaixonados, lançado depois em versão instrumental com duas antológicas capas - branca e preta - em torno de um quadro do surrealista italiano Giorgio de Chirico. Até que em junho deste ano apareceu o esperadíssimo novo LP, Lowlife, termo que designa "criminoso", verdadeiro ou potencial.  Temos uma bela canção de amor, "The Perfect Kiss", também lançada em mix de entortar o cangote. Temos New Order soando como uma banda heavy metal ("Sunrise"). Temos uma brilhante canção pop com guitarras acústicas ("Sooner than you Think"). Temos um pastiche Lou Reed ("Sub-Culture"). Temos até os rostos dos quatro New Order, pela primeira vez para o grande público, distorcidos em branco e negro e grande angular, como em uma sala de espelhos. Temos certeza de que, sem New Order, um enorme contingente do pop contemporâneo - Human League a Depeche Mode, passando pelas "invenções" ZIT - ainda estaria procurando sua razão de existir.
Mas a faísca de gênio de uma determinada banda ou performer pode ser realmente conferida em determinadas canções. No caso, New Order perpetuou um dos grandes hinos dos anos 80 com "Love Vigilantes", cujo impacto de abertura - uma melodia entre soul e reggae perdidos no tempo - é impressionante. O tom é dos poetas da época da Primeira Guerra Mundial. E a letra inverte as perspectivas, como em uma adequada sala de espelhos. Um herói de guerra volta para casa ("Quero ver minha família/ minha mulher e meu filho esperam por mim/ tenho que voltar para casa/ me sinto tão sozinho"). Só que sua mulher pensa que ele já morreu. É um conto de "ilusões perdidas" reduzido a permanentes quatro minutos. Com seus computadores caseiros, sua fria insularidade e seu laconismo suburbano, poucas bandas na história da música popular conseguiram suscitar uma atmosfera tão envolvente e emocionante. Não se enganem com a aparência da nova ordem. Nem com os truques sonoros de sua sala de espelhos.




Um contragolpe com estilo. Do suicídio para o prazer…

3 comentários:

walace disse...

Gostei Muito Desse texto sobre New Order.
Banda Influencia de muita bandas, que estão surgindo e surgirão.

walace disse...

Gostei Muito Desse texto sobre New Order.
Banda Influencia de muita bandas, que estão surgindo e surgirão.

Anônimo disse...

Tenho até hoje essa matéria guardada em casa. O lamentável é que o Pepe Escobar copiou descaradamente vários trechos de uma matéria de 1983 da The Face e não deu o devido crédito. E hoje o cara é um jornalista de renome internacional...

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