domingo, 29 de setembro de 2013

GATINHAS & MORCEGÕES (Bizz, Nº 17, Dezembro de 1986)

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 Town and Country Club (Londres)  02/10/86
 PEPE ESCOBAR

Anja Huwe é a Siouxsie loira (Susan Janet, ao princípio , era blonde, mas essa é outra história). X Mal Deutschland , com Anja nas letras e vocais, duas gatas no baixo e teclados, e dois morcegões na guitarra e bateria, foi e ainda é um dos cult hits da brigada Sisters of Mercy. São teutônicos, o que na Inglaterra, lhes confere uma aura adicional de legitimação. Eram da 4AD, o selo independente favorito de trendies em geral – até um ano atrás. Sumiram, trocaram de gravadora e voltaram, em essência continuam os mesmos.
O X Mal Deutschland sempre rendeu muito melhor em mix do que ao vivo. O último é Matador – e descorrobora, espera-se que en passant, a tese anterior. Tem três LPs. O primeiro praticamente uma só música – drive furioso, conduzido pelo baixo, guitarra linha serra elétrica e os alalaôs de Anja Huwe disparando na autobahn como Porsches 917. É um headbanging linha Panzer. O toque sedutor são as três gatinhas.
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Anja cresceu muito, como se pode notar nesse show. Está mais para modelito Katherine Hamnett do que para junkie terminal na Banhof Zoo de Berlim. Trata-se de uma das melhores mixagens ao vivo que já ouvi na Inglaterra. Tudo estourando e cristalino – especialmente a devastação nas sonoridades graves. Anja faz uns joguinhos de mão à la Siouxsie, pega uma guitarra no final para fazer cena e, de perto, revela-se mesmo uma tremenda gata. A platéia é um cassino: modelitos na linha revista I-D, universitários metidos, punkadaria e hells angelenos de butique, e toda a colonia alemã-londrina com adereços sessentoitistas. Tocaram a mesma música durante uma hora e fecharam com Incubus Sucubus.
Das ist gut rock’n’roll. 

                                         A Família Addams é apresentada à dark music.

O GORDO SALVADOR (Manchete Esportiva, 03/05/1958)

 

Vicente_Feola_1958

NELSON RODRIGUES

     Nenhum gordo gosta de ser gordo. Sobe na balança e tem um
incoercível pudor, uma vergonha convulsiva do próprio peso. E, no
entanto, vejam: — pior do que ser gordo é o inverso, quer dizer, pior
do que ser gordo é ser magro. Digo isto a propósito de Feola*, o meu
personagem da semana. Ele está em Araxá e eu aqui. A despeito da
distância, porém, é como se eu o estivesse vendo com a doce, a
generosa cordialidade que é o clima dos gordos de todos os tempos. E
aqui pergunto:

— um Feola magro teria sido melhor para o escrete?
     Não creio e explico. É preciso ver os magros com a pulga atrás
da orelha. São perigosos, suscetíveis de paixões, de rancores, de
fúrias tremendas. E, até hoje, que eu me lembre, todos os canalhas
que conheci são, fatalmente, magros. Acredito que Feola esteja no
profundo e amargo arrependimento de ser gordo. Mas, se assim for,
temos de admitir a sua ingenuidade. Pois uma de suas consideráveis
vantagens de homem e, atrevo-me a dizê-lo, de técnico está nesta
circunstância, que ele deplora e repudia. Numa terra de
neurastênicos, deprimidos e irritados, convém ter o macio, o inefável
humor dos gordos. A banha lubrifica as reações, amacia os
sentimentos, amortece os ódios, predispõe ao amor.
     Nós temos, aqui, um preconceito, de todo improcedente, contra
a barriga. Erro crasso. Na verdade, há uma relação sutil, mas
indiscutível, entre a barriga e o êxito, entre a barriga e a glória.

     Examinem a figura de Napoleão como imperador. Era ele, na ocasião, algum depauperado? Não, senhor. Pelo contrário: — os quadros mostram a inequívoca e imperial barriga napoleônica. E uma das coisas que me levam a acreditar no Brasil como campeão do mundo
é o fato de termos, finalmente, um técnico gordo.
     O leitor pode perguntar, com certa irritação:

— e que importância tem que o técnico seja magro ou não? Muita. De fato, dirigir um escrete, no Brasil, é um dos mais pesados encargos
terrenos. O sujeito está cercado de palpites por todos os lados. Digo
“cercado de palpites” e acrescento:

— de palpiteiros. O técnico tem, no mínimo, duzentas irritações por dia. E, além do mais, não há função mais polêmica. Tudo o que ele faça suscita debates no país inteiro. Há sujeitos que vivem, dia e noite, tramando a sua desgraça.
     E das duas uma: ou ele tem uma inexpugnável sanidade mental ou
acaba maluco e a família não sabe. Só um gordo, repito, possui por
natureza a euforia necessária para resistir às crises de um escrete.
     Por exemplo:

— observem o comportamento de Feola na preparação do escrete em Poços de Caldas e Araxá. Nada o perturba, nada o irrita. Não subiu pelas paredes nenhuma vez, não gritou, não xingou a mãe de ninguém.     

     Sabemos que há técnicos no Brasil e, por coincidência, magros, que acham bonito e eficaz tratar o craque a pontapés. Feola, nunca. Podem fazer todas as ondas do céu e da terra. Ele permanecerá com sua alegria imbatível — constante, ininterrupta alegria. E esse bom humor quebra e desmoraliza qualquer resistência. De resto, não desafia, não discute, não ofende.
     Faz o que quer, e só o que quer, da maneira mais discreta, insidiosa
e, direi mesmo, imperceptível.
Não se sente a autoridade de Feola que, entretanto, é militante,
irredutível. Sim, amigos: — não esbraveja, não estrebucha, nem
todos percebem que ele é o único que manda, o único que decide. E
ninguém se iluda: — a sua abundante cordialidade de gordo é o
disfarce de um maquiavelismo benéfico e criador. Esse técnico sem histeria, insuscetível de irritações, fazia falta num futebol de
emotivos, de irritados, como o nosso.
     Eu disse que Feola não perdia nunca o bom humor e já retifico:
há uma maneira, sim, de enfurecê-lo. É chamá-lo de gordo. Então,
ele pula e esbraveja como um caluniado.

* Vicente Feola foi o treinador da seleção brasileira na Copa de 1958. O grosso da
imprensa não o levava a sério, acusando-o de cochilar no banco de reservas durante
os treinos.

CONDIÇÕES SÃO CONDIÇÕES (Zé Carioca nº1007, fevereiro de 1971)

 

Editora Abril

ZE CAR 015

MORTUARY

 

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AIRTO DE VOLTA (POR POUCO TEMPO) AO PAÍS DA BUROCRACIA (Jornal de Música, agosto de 1977)

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