domingo, 27 de abril de 2014

TERRENO BALDIO (O Globo, 02/06/1966)


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                         NELSON RODRIGUES
     Amigos, para entender a Comissão Técnica da seleção, eu
inventei as conversas de terreno baldio com o João Havelange. E por
que terreno baldio? Vou repetir a minha explicação. Tudo o que se
diz num capinzal vem repassado de sinceridade. Ao passo que, no
gabinete, na sala, no coquetel e na mesa, o ser humano usa 35
máscaras, nunca a sua face verdadeira.
     Pois bem. Tenho levado o presidente da CBD para os matagais
mais discretos, mais secretos da cidade. E, lá no sigilo, no mistério
do terreno baldio, digo ao João as coisas indizíveis, as coisas
impublicáveis. E ele responde com a mesma lealdade. Tal é a
vantagem das conversas imaginárias.
     Acontece que o escrete vive um grande momento. Estamos a
um mês da Copa da Inglaterra e rola, por todo o país, a pergunta
apavorante: — “E o time?”. Sim, onde está o time que a Comissão
Técnica não fez? Não importa a sua qualidade. Mas 80 milhões de
brasileiros querem uma equipe básica, suscetível de retoques, mas
conhecida e proclamada.
     E ninguém conhece esse time. Que nós não o conhecêssemos,
vá lá. Afinal, somos pobres e ignaros mortais. Mas a própria
Comissão Técnica participa da nossa ignorância e da nossa
perplexidade. A equipe, que toda a nação deseja, ela não a tem. E o
pior é que o relógio não pára. Nem o relógio, nem a folhinha.
     Começou uma luta corpo a corpo entre o escrete e o tempo. Cada
minuto perdido é irrecuperável.
     Com o João num terreno baldio, e na presença apenas de uma
cabra pensativa, eu cobraria: — “E o time, Havelange? E o time?”. Aí
está a pergunta de todo um povo. Podia não ser o ideal, mas que
fosse um time. A própria Comissão só poderá agir e reagir a partir de
uma equipe básica.
     Sob o olhar indiferente da cabra, eu perguntaria: — “Você acha
direito, João?”. Por enquanto, há um só titular obrigatório: — Pelé.
Garrincha é provável e sabemos que a Comissão tudo fará para
impor Servílio. Outra pergunta de terreno baldio: — “Como você
explica, Havelange, que não se tenha experimentado ninguém ao
lado de Pelé?”. O João, que conhece futebol, sabe que Silva não é um
perna-de-pau. Pelo contrário: — Silva se impôs, durante todo o
campeonato, como um atacante decisivo. Servílio, com a bola nos
pés, pode ter — quem sabe? — mais virtuosismo.
     Mas Silva é o homem das grandes e fatais penetrações. Tem o
tal feitio épico que o tricampeonato exige. E não há dúvida: — há
muito que merece uma chance ao lado de Pelé. Há também Alcindo,
há também Jairzinho. Dirá alguém que Jairzinho é reserva de
Garrincha e Silva reserva de Pelé. Mas craques como Silva, como
Jairzinho podem ser testados de várias maneiras. Em verdade, o que
há é um pré-julgamento da Comissão, em favor de Servílio.
     No terreno baldio, eu perguntaria ainda ao João: — “Fidélis ou
Carlos Alberto? E Brito? E Bellini? Orlando ou Altair, hein,
Havelange? Paulo Henrique ou Rildo?”. O nosso João teria de
responder: — “Não me pergunte nada. Sei tanto quanto você”. Sabe
tanto quanto nós. Pura e santa verdade. O presidente da CBD e
chefe da delegação sabe tanto quanto qualquer outro brasileiro, vivo
ou morto. Dirá alguém que a Comissão demora para não errar. Pois
que erre. A simples demora é, em si mesma, um erro maior.

OS ROBÔS QUE CONHECI (Visões de Robô, Editora Record)

 

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ISAAC ASIMOV

Os homens mecânicos, ou robôs, para usar o termo de Capek hoje
universalmente adotado, são um tema freqüente na ficção científica moderna.
Nenhum invento inexistente, com a possível exceção da espaçonave, está tão nítido
na imaginação de tantas pessoas: uma forma sinistra, grande, metálica, vagamente
humana, movendo-se como uma máquina e falando sem nenhuma emoção.
A palavra-chave nesta descrição é “sinistra” e é aí que está a tragédia, pois
nenhum tema de ficção científica se desgastou tão rapidamente como o dos robôs.
Apenas um enredo envolvendo robôs parecia viável para a maioria dos escritores
do gênero: o do homem mecânico que se mostrava perigoso, o da criatura que se
voltava contra o criador, o do robô que se tornava uma ameaça contra a
humanidade. E quase todas as histórias deste tipo estavam carregadas, explícita ou
implicitamente, da moral deprimente de que “existem certas coisas que é melhor a
humanidade não conhecer”.
Esta triste situação melhorou consideravelmente depois de 1940. As
histórias sobre robôs são mais numerosas do que nunca; um novo ponto de vista,
mais mecanicista e menos moralista, passou a ser adotado. Algumas pessoas
(especialmente o Sr. Groff Conklin, na introdução de sua antologia, intitulada
Máquinas Pensantes na Ficção Científica/Science-Fiction Thinking Machines, publicada em
1954) atribuem esta mudança, pelo menos em parte, a uma série de histórias sobre
robôs que escrevi a partir de 1940. Já que provavelmente não existe nenhum
indivíduo na face da Terra menos propenso à falsa modéstia do que eu, aceito este
crédito com satisfação, modificando-o apenas para dividi-lo com o Sr. John W.
Campbell, Jr., editor da revista Astounding Science Fiction, com quem tive muitas
discussões profícuas a respeito de histórias sobre robôs.
Meu ponto de vista era o de que os robôs não deviam ser considerados
como imitações diabólicas de seres humanos, mas sim como máquinas sofisticadas.
Uma máquina não se “volta contra seu criador” se for bem projetada. Quando uma
máquina, uma serra elétrica, digamos, parece fazè-lo, cortando por exemplo o braço
de alguém, esta lamentável tendência para o mal é combatida pela instalação de
dispositivos de segurança. Dispositivos de segurança análogos poderiam ser
implantados nos robôs. E o lugar mais óbvio para instalá-los seria o “cérebro” do
robô.
Deixe-me fazer um parêntese para explicar que na ficção científica procuramos não entrar em detalhes quanto à natureza exata do “cérebro” do robô.
Imaginamos que seja possível construir um dispositivo eletromecânico com o
volume aproximado do cérebro humano e que contenha todos os circuitos
necessários para que o robô tenha um comportamento parecido com o de um ser
humano. Como isto pode ser feito sem recorrer a unidades do tamanho de uma
molécula de proteína ou, pelo menos, do tamanho de um neurônio, ninguém
explica. Alguns autores podem falar em transistores e circuitos impressos. A
maioria não diz nada. Meu truque favorito consiste em referir-me, de forma quase
mística, a “cérebros positrônicos”, deixando a cargo do leitor a tarefa de encontrar
alguma relação entre os positrons e um cérebro artificial e por conta da sua boa
vontade a decisão de continuar a ler depois de chegar à conclusão de que a tarefa é
impossível.
Seja como for, enquanto eu escrevia minha série de histórias sobre robôs,
os dispositivos de segurança tomaram forma aos poucos em minha imaginação
como “As Três Leis da Robótica”. Essas três leis foram enunciadas explicitamente
pela primeira vez em “Impasse/Runaround”. Em sua forma final, as Três Leis são
as seguintes:
Primeira Lei - Um robô não pode fazer mal a um ser humano ou, por
omissão, permitir que um ser humano sofra algum tipo de mal.
Segunda Lei - Um robô deve obedecer às ordens dos seres humanos, a não
ser que entrem em conflito com a Primeira Lei.
Terceira Lei - Um robô deve proteger a própria existência, a não ser que essa
proteção entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei.
As leis acima estão firmemente implantadas no cérebro dos robôs, ou pelo
menos os circuitos equivalentes a essas leis estão. Naturalmente, nunca descrevi
esses circuitos equivalentes. A verdade é que evito falar de detalhes a respeito da
estrutura interna dos robôs, pois meus conhecimentos do assunto são praticamente
nulos.
A Primeira Lei, como é fácil de perceber, elimina aquele enredo velho e
desgastado que não me darei ao trabalho de mencionar novamente.
Embora pudesse parecer à primeira vista que a imposição de regras limitaria
a imaginação criadora, as Leis da Robótica, longe de representarem um bloqueio
mental, se revelaram uma ótima fonte de inspiração.
Um bom exemplo é a história “Impasse”, a que já me referi. O robô que
aparece nessa história, um dispendioso modelo experimental, foi projetado para
funcionar no lado exposto ao sol do planeta Mercúrio. Por questões econômicas
óbvias, a Terceira Lei foi reforçada no cérebro do robô. Quando a história começa,
ele foi enviado por dois humanos para buscar na superfície de Mercúrio o selênio
de que necessitam para alimentar as células solares que são essenciais para sua
sobrevivência. (Peço ao leitor para acreditar que o lado de Mercúrio exposto ao sol
possui vários lagos de selênio líquido.)
Infelizmente, a ordem foi dada ao robô em tom casual, de modo que o
potencial produzido pela Segunda Lei é mais fraco que de costume. Para complicar
as coisas, a poça de selênio para a qual o robô foi enviado fica perto de um local de
atividade vulcânica e em conseqüência existe uma concentração considerável de
monóxido de carbono nas vizinhanças. Na temperatura do lado iluminado de
Mercúrio, imaginei que o monóxido de carbono reagiria rapidamente com o ferro
para formar ferrocarbonilas voláteis, danificando seriamente as juntas delicadas do
robô. Quanto mais o robô penetra na região, maior o perigo para ele e maior o
potencial produzido pela Terceira Lei. A Segunda Lei, porém, que normalmente
tem precedência, força-o a prosseguir. A certa altura, o potencial incomumente
fraco da Segunda Lei e o potencial incomumente forte da Terceira Lei se
equilibram e o robô não pode mais avançar nem recuar; limita-se a caminhar em
círculos em torno do lago de selênio.
Enquanto isso, nossos heróis precisam desesperadamente do selênio. Eles
vão atrás do robô em trajes especiais, descobrem o que aconteceu e procuram
resolver o problema. Depois de várias tentativas malsucedidas, encontram a
solução. Um deles se expõe delibe-radamente ao sol de Mercúrio, de tal forma que
se o robô não o socorrer, certamente morrerá. Isso faz com que a Primeira Lei
entre em ação. Como ela tem precedência sobre a Segunda e a Terceira, o equilíbrio
é rompido e o robô volta a funcionar normalmente, levando a história ao
necessário final feliz.
Foi na história “Impasse”, a propósito, que usei pela primeira vez a palavra
“robótica” (definida implicitamente como a ciência que trata do projeto, construção
e manutenção de robôs). Anos mais tarde, disseram-me que inventei o termo e que
ele nunca havia aparecido antes em um trabalho escrito. Não sei se isso é verdade;
se for, sinto-me feliz, porque acho que é uma palavra lógica e útil, e me disponho a
doá-la de boa vontade aos verdadeiros profissionais da área.
Nenhuma de minhas outras histórias está ligada tão de perto às Três Leis
quanto “Impasse”, mas todas têm algo a ver com elas. Escrevi uma história, por
exemplo, a respeito de um robô capaz de ler pensamentos que era forçado a mentir
porque a verdade, quase invariavelmente, faria “mal” aos seres humanos, sob a
forma de decepções, humilhações, invejas e outras emoções semelhantes, todas as
quais o robô era capaz de detectar com facilidade.
Também contei a história de um homem que era suspeito de ser um robô,
ou seja, de possuir um corpo quase protoplásmico, mas o “cérebro positrônico” de
um robô. Uma forma de provar a sua condição de ser humano seria desobedecer à
Primeira Lei em público, e é isso que ele faz, agredindo deliberadamente um
homem. Entretanto, a história termina sem que o leitor chegue a uma conclusão,
pois permanece no ar a suspeita de que o outro “homem” pudesse ser um robô, e
não há nada nas Três Leis que proíba um robô de agredir outro robô.
Temos ainda os robôs de última geração, modelos tão avançados que são
usados para prever coisas como as chuvas, as colheitas, a produção industrial, o
resultado das eleições e assim por diante. Isto é feito para que a economia mundial
fique menos sujeita aos caprichos de fatores que não estejam sob o controle da
sociedade. Entretanto, mesmo esses robôs, ao que parece, estão sujeitos à Primeira
Lei. Eles não podem, por omissão, permitir que seres humanos sofram algum tipo
de mal, e por isso fornecem deliberadamcnte respostas que não são
necessariamente verdadeiras e provocam colapsos econômicos localizados, com o
objetivo de dirigir a humanidade para caminhos que levem à paz e à prosperidade.
De modo que os robôs, no final das contas, assumem o controle, mas apenas para
o bem do homem.
A relação entre homens e robôs não deve ser esquecida. A humanidade
pode conhecer a existência das Três Leis e mesmo assim ter um medo incontrolável
dos robôs. Esse fenômeno, na falta de um nome melhor, pode ser chamado de
“complexo de Frankenstein”. Há também a questão mais palpável da oposição dos
sindicatos à substituição de operários humanos por robôs.
Isto também pode ser um bom tema para histórias de ficção científica. Meu
primeiro conto sobre robôs falava de um robô que trabalhava como babá de uma
criança. A criança, como seria de esperar, adorava o robô, mas a mãe tinha medo
dele, como também seria de se esperar. A essência da história está nas tentativas da
mãe de livrar-se do robô e nas reações da criança.
Meu primeiro romance sobre robôs, “Caça aos Robôs/The Caves of Steel”
(1954), fala de um tempo mais distante, em que outros planetas, populados por
imigrantes terráqueos, adotaram uma economia totalmente robotizada, mas a Terra,
por questões econômicas e sentimentais, ainda reluta em aceitar as criaturas de
metal. É cometido um assassinato, cujo motivo parece ser o ódio pelos robôs. O
crime é investigado por uma dupla de detetives, um homem e um robô, e boa parte
das deduções (que não podem faltar nos romances de mistério) giram em torno das
Três Leis e suas implicações.
Concluí que as Três Leis são ao mesmo tempo necessárias e suficientes
para que a humanidade se sinta segura com relação aos robôs. Acredito
sinceramente que um dia, quando forem construídos robôs avançados, com
características humanas, algo muito parecido com as Três Leis será embutido em
sua programação. Gostaria muito de ser considerado como um profeta, e só
lamento o fato de que provavelmente já estarei morto quando isso acontecer.*
Este artigo foi escrito em 1956. Desde então, a palavra “robótica” foi incorporada
definitivamente à língua inglesa e passou a ser usada universalmente. Além disso, vivi o suficiente para ver os especialistas em robótica levarem muito a sério as Três Leis.

BAND OF THE HAND

 

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