domingo, 29 de junho de 2014

CHEGA DE HUMILDADE (O Globo, 16/06/1969)


n_fluminense_os_jogos-2531029
                        NELSON RODRIGUES
     Amigos, a humildade acaba aqui. Desde ontem o Fluminense é
o campeão da cidade. No maior Fla—Flu* de todos os tempos, o
tricolor conquistou a sua mais bela vitória. E foi também o grande
dia do Estádio Mário Filho. A massa “pó-de-arroz” teve o sentimento
do triunfo. Aconteceu, então, o seguinte: — vivos e mortos subiram
as rampas. Os vivos saíram de suas casas e os mortos de suas
tumbas. E, diante da platéia colossal, Fluminense e Flamengo
fizeram uma dessas partidas imortais.
     Daqui a duzentos anos a cidade dirá, mordida de nostalgia: —
“Aquele Fla—Flu!”. Ah, quem não esteve ontem no Estádio Mário
Filho não viveu. E o Fluminense fez uma exibição perfeita,
irretocável. Lutou com a alma indomável do campeão. Ninguém
conquista o título num único dia, numa única tarde. Não. Um título
é todo sangue, todo suor e todo lágrimas de um campeonato inteiro.
     Acreditem: — o Fluminense começou a ser campeão muito
antes. Sim, quando saiu do caos para a liderança. “Do caos para a
liderança”, repito, foi a nossa viagem maravilhosa. Lembro-me do
primeiro domingo em que ficamos sozinhos na ponta. As esquinas e
os botecos faziam a piada cruel: — “Líder por uma semana”. Daí para
a frente, o Fluminense era sempre o líder por uma semana.
     Olhem para trás. Da rodada inaugural até ontem, não houve
time mais regular, mais constante, de uma batida mais harmoniosa.
Mas foi engraçado: — por muito tempo, ninguém acreditou no
Fluminense, ninguém. Um dia, Flávio veio de São Paulo. Era o
ponta-de-lança mais esperado que um Moisés. Queríamos um
goleador. E nunca mais se interrompeu a ascensão para o título.
     O curioso é que, há muito tempo, aqui mesmo desta coluna,
fez-se o vaticínio de que o campeonato teria a sua decisão num Fla—
Flu. Foram autores de tal profecia, primeiro, o Celso Bulhões da
Fonseca; em seguida, o Carlinhos Niemeyer, um e outro rubronegros.
     O que ambos não sabiam é que já estava escrito há 6 mil anos que o campeão seria o Fluminense. E vou citar um outro oráculo: o Haroldo Barbosa. Quando o tricolor parecia uma piada, o bom Haroldo piscou o olho para o Marcello Soares de Moura: —
“Este é o ano do Fluminense!”. E do seu olhar vazava luz.
     E mais: — na sexta-feira, o presidente do Fluminense, Francisco Lapport, convidou para um almoço, em sua residência, a mim, ao Marcello Soares de Moura e ao Carlinhos Nasser. Ainda na mesa, e antes do cafezinho, baixou-nos o sentimento profético do título. Amigos, o que se viu ontem no Estádio Mário Filho foi espantoso. Primeiro, a tempestade de bandeiras, de pó-de-arroz, os pombos tricolores e rubro-negros.
     E que formidável partida! Houve, durante noventa minutos, um
suspense mortal. O Fluminense fez o primeiro gol e o Flamengo
empatou. O Fluminense fez o segundo e o Flamengo mais uma vez
empata. Duzentas mil pessoas atônitas morriam nas arquibancadas,
gerais e cadeiras. E foi preciso que Flávio, o goleador do Fluminense,
o goleador do campeonato, marcasse aquele que seria o gol da
vitória, da doce e santa vitória. E o rubro-negro não empatou mais,
nunca mais. Era a vitória, era o título.
     Agora a pergunta: — e o personagem da semana? Podia ser
Cláudio, que fez uma exibição magistral e, inclusive, um gol. Podia
ser Denílson, que volta a ser o “Rei Zulu” e um dos maiores jogadores
brasileiros de defesa. Penso também em Galhardo, que, a princípio
nervosíssimo, teve intervenções sensacionais. Podia ser também Telê,
que, sóbrio, modesto, trouxe a equipe do caos para o título. Mas
entendo que desta vez o personagem deve ser o time. Do goleiro ao
ponta-esquerda. Todos, todos mostraram uma alma, uma paixão, um
ímpeto inexcedíveis.
     Pelo amor de Deus, não me venham dizer que, no segundo tempo, o Flamengo jogou com dez. O rubro-negro cresceu com a desvantagem numérica, lançou-se todo para a frente. Eram dez fanáticos dispostos a vencer ou perecer. O Flamengo teve ontem um dos grandes momentos de sua história. Mas, dizia eu no começo que a nossa humildade pára aqui. Passamos toda a jornada com um passarinho em cada ombro e as duras e feias sandálias nos pés. Mas o Fluminense é o campeão.      Erguendo-me das cinzas da humildade, anuncio: — “Vamos tratar do bi”.



* Fluminense 3 x 2 Flamengo, 15/5/1969, no Estádio Mário Filho. Domingues, goleiro
do Flamengo, foi expulso aos vinte minutos do segundo tempo com o jogo em 2 x 2.

TODDY

 

02

BERSERKER

 

Berserker 01

sexta-feira, 27 de junho de 2014

SÃO LUIZ

Nestlé

038

O QUE VOCÊ QUISER (Visões de Robô, Editora Record)

 

univac

   ISAAC ASIMOV

A dificuldade para decidir quais serão as profissões do futuro está no fato
de que tudo depende do futuro que escolhermos. Se permitirmos que nossa
civilização seja destruída, a única profissão do futuro será a de lutar pela
sobrevivência e muito poucos serão vitoriosos nessa atividade.
Suponhamos, porém, que o homem seja capaz de manter a civilização viva
e florescente e que, portanto, o progresso tecnológico continue. Parece lógico
supor que entre as profissões de um futuro desse tipo estejam as de programador
de computadores, mineiro lunar, engenheiro de fusão, operário espacial, técnico de
laser e neurofisiólogo.
Não posso deixar de pensar, porém, que os progressos no campo da
informática e da automação vão acabar com os subempregos humanos, isto é,
todas as atividades simples e repetitivas, como cavar, empurrar, perfurar, digitar e
arquivar, que podem ser feitas com a mesma facilidade (e melhor!) por máquinas
não mais complicadas que as que possuímos atualmente.
Em outras palavras: o mundo poderia ser tão bem organizado que apenas
um número relativamente pequeno de “capatazes” humanos seria necessário para
manter a população mundial alimentada, abrigada e em boa saúde.
O que será da maior parte da espécie humana neste futuro automatizado?
O que será dos que não tiverem capacidade nem desejo de trabalhar nas profissões
do futuro, ou não conseguirem emprego nessas atividades? Pode acontecer que a
maioria das pessoas simplesmente não precise fazer o que consideramos hoje em
dia como trabalhar.
Essa pode ser uma idéia assustadora. O que as pessoas vão fazer se não
tiverem que trabalhar? Vão ficar paradas o dia inteiro, sentindo-se entediadas? Pior
ainda: vão se tornar inquietas, agressivas? Diz o provérbio que a ociosidade é a mãe
de todos os vícios. Estamos julgando, porém, com base na situação atual, em que
ninguém se importa realmente com as pessoas.
Lembrem-se de que houve épocas na história em que uma aristocracia tinha
uma vida de lazer à custa de máquinas de carne e osso chamadas escravos, servos
ou camponeses. Quando essa situação coincidia com um alto nível cultural, os
aristocratas aproveitavam o tempo livre para se dedicar à literatura, à arte, à
filosofia. Esses estudos não eram úteis para trabalhar, mas mantinham a mente
ocupada e se prestavam a conversas interessantes e uma vida agradável.
Essas eram as artes liberais, artes para homens livres, que não precisavam
trabalhar com as mãos. E eram consideradas mais nobres e gratificantes que as
artes mecânicas, que tinham utilidade apenas material.
Talvez, portanto, o futuro venha a conhecer uma aristocracia mundial
sustentada pelos únicos escravos eticamente toleráveis: máquinas sofisticadas. E
haverá um programa muito mais amplo e variado de artes liberais, administrado e
ensinado por máquinas.
Algumas pessoas podem escolher tecnologia de computadores, engenharia
de fusão, mineração lunar ou alguma das profissões que serão necessárias para que
o mundo continue a funcionar. Por que não? Essas profissões, que vão exigir
competência e criatividade, terão seus atrativos; certamente haverá um número de
voluntários suficiente para preencher todas as vagas.
Para a maioria das pessoas, porém, o campo de interesse será bem menos
esotérico. Poderá ser filatelia, cerâmica, pintura, cozinha, teatro, o que for. A
escolha será totalmente livre, do tipo “faça o que quiser”.
Cada pessoa, orientada por máquinas sofisticadas o bastante para lhe
oferecer uma ampla gama de opções, optará por uma atividade que lhe traga o
máximo de prazer.
As pessoas estão capacitadas para decidir como usar o seu tempo? Por que
não? Quem melhor do que elas para escolher? O que uma pessoa pode fazer
melhor do que o que ela mais gosta de fazer?
Será que algumas pessoas não vão preferir não fazer nada? Passar a vida
dormindo?
Se é isso o que querem, por que não? Só que tenho a impressão de que
ninguém vai fazer essa opção. Não fazer nada é uma atividade cansativa e, em
minha opinião, praticada apenas pelas pessoas que nunca tiveram oportunidade de
encontrar algo mais interessante e portanto mais fácil para fazer.
Em um mundo automatizado e educado, portanto, as máquinas terão uma
influência profundamente humanizante. Elas passarão a fazer o trabalho que torna
a vida possível e os homens farão todas as outras coisas que tornem a vida
agradável e gratificante.

BEOWULF

 

Beowolf 1999 01

CHARLOTTE nº3 (janeiro de 2011)

 

www.ugapress.wordpress.com

capa

capa2 

capa3

capa4

capa5

capa6

capa7

capa8

capa9

capa10

AIRTO DE VOLTA (POR POUCO TEMPO) AO PAÍS DA BUROCRACIA (Jornal de Música, agosto de 1977)

                                        ------------------------------