sexta-feira, 27 de junho de 2014

O QUE VOCÊ QUISER (Visões de Robô, Editora Record)

 

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   ISAAC ASIMOV

A dificuldade para decidir quais serão as profissões do futuro está no fato
de que tudo depende do futuro que escolhermos. Se permitirmos que nossa
civilização seja destruída, a única profissão do futuro será a de lutar pela
sobrevivência e muito poucos serão vitoriosos nessa atividade.
Suponhamos, porém, que o homem seja capaz de manter a civilização viva
e florescente e que, portanto, o progresso tecnológico continue. Parece lógico
supor que entre as profissões de um futuro desse tipo estejam as de programador
de computadores, mineiro lunar, engenheiro de fusão, operário espacial, técnico de
laser e neurofisiólogo.
Não posso deixar de pensar, porém, que os progressos no campo da
informática e da automação vão acabar com os subempregos humanos, isto é,
todas as atividades simples e repetitivas, como cavar, empurrar, perfurar, digitar e
arquivar, que podem ser feitas com a mesma facilidade (e melhor!) por máquinas
não mais complicadas que as que possuímos atualmente.
Em outras palavras: o mundo poderia ser tão bem organizado que apenas
um número relativamente pequeno de “capatazes” humanos seria necessário para
manter a população mundial alimentada, abrigada e em boa saúde.
O que será da maior parte da espécie humana neste futuro automatizado?
O que será dos que não tiverem capacidade nem desejo de trabalhar nas profissões
do futuro, ou não conseguirem emprego nessas atividades? Pode acontecer que a
maioria das pessoas simplesmente não precise fazer o que consideramos hoje em
dia como trabalhar.
Essa pode ser uma idéia assustadora. O que as pessoas vão fazer se não
tiverem que trabalhar? Vão ficar paradas o dia inteiro, sentindo-se entediadas? Pior
ainda: vão se tornar inquietas, agressivas? Diz o provérbio que a ociosidade é a mãe
de todos os vícios. Estamos julgando, porém, com base na situação atual, em que
ninguém se importa realmente com as pessoas.
Lembrem-se de que houve épocas na história em que uma aristocracia tinha
uma vida de lazer à custa de máquinas de carne e osso chamadas escravos, servos
ou camponeses. Quando essa situação coincidia com um alto nível cultural, os
aristocratas aproveitavam o tempo livre para se dedicar à literatura, à arte, à
filosofia. Esses estudos não eram úteis para trabalhar, mas mantinham a mente
ocupada e se prestavam a conversas interessantes e uma vida agradável.
Essas eram as artes liberais, artes para homens livres, que não precisavam
trabalhar com as mãos. E eram consideradas mais nobres e gratificantes que as
artes mecânicas, que tinham utilidade apenas material.
Talvez, portanto, o futuro venha a conhecer uma aristocracia mundial
sustentada pelos únicos escravos eticamente toleráveis: máquinas sofisticadas. E
haverá um programa muito mais amplo e variado de artes liberais, administrado e
ensinado por máquinas.
Algumas pessoas podem escolher tecnologia de computadores, engenharia
de fusão, mineração lunar ou alguma das profissões que serão necessárias para que
o mundo continue a funcionar. Por que não? Essas profissões, que vão exigir
competência e criatividade, terão seus atrativos; certamente haverá um número de
voluntários suficiente para preencher todas as vagas.
Para a maioria das pessoas, porém, o campo de interesse será bem menos
esotérico. Poderá ser filatelia, cerâmica, pintura, cozinha, teatro, o que for. A
escolha será totalmente livre, do tipo “faça o que quiser”.
Cada pessoa, orientada por máquinas sofisticadas o bastante para lhe
oferecer uma ampla gama de opções, optará por uma atividade que lhe traga o
máximo de prazer.
As pessoas estão capacitadas para decidir como usar o seu tempo? Por que
não? Quem melhor do que elas para escolher? O que uma pessoa pode fazer
melhor do que o que ela mais gosta de fazer?
Será que algumas pessoas não vão preferir não fazer nada? Passar a vida
dormindo?
Se é isso o que querem, por que não? Só que tenho a impressão de que
ninguém vai fazer essa opção. Não fazer nada é uma atividade cansativa e, em
minha opinião, praticada apenas pelas pessoas que nunca tiveram oportunidade de
encontrar algo mais interessante e portanto mais fácil para fazer.
Em um mundo automatizado e educado, portanto, as máquinas terão uma
influência profundamente humanizante. Elas passarão a fazer o trabalho que torna
a vida possível e os homens farão todas as outras coisas que tornem a vida
agradável e gratificante.

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