sábado, 27 de setembro de 2014

AS LEIS DA ROBÓTICA (Visões de Robô, Editora Record)

 

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                                  ISAAC ASIMOV

Não é fácil pensar em computadores sem imaginar se algum dia eles irão
“assumir o controle”.
Será que um dia os computadores vão nos substituir, tornar-nos obsoletos,
livrar-se de nós como nos livramos das lanças e das pederneiras?
Se imaginamos cérebros computadorizados no interior de imitações
metálicas de seres humanos chamadas robôs, o medo se torna ainda mais direto. Os
robôs se parecem tanto com seres humanos que a própria aparência pode deixá-los
cheios de idéias.
Este problema estava presente no mundo da ficção científica nas décadas
de 1920 e 1930, e muitas foram as histórias sobre robôs que se voltaram contra os
criadores.
Quando eu era criança, fiquei cansado dessas histórias, porque a mim me
parecia que o robô era uma máquina e os humanos estavam sempre construindo
máquinas. Como todas as máquinas podem ser perigosas, de uma forma ou de
outra, os seres humanos passaram a construí-las com salvaguardas embutidas.
Em 1939, portanto, comecei a escrever uma série de histórias nas quais os
robôs eram apresentados de forma simpática, como máquinas projetadas para
realizar certas tarefas e dotadas de salvaguardas suficientes para torná-las
inofensivas.
Em uma história que escrevi em outubro de 1941, apresentei finalmente as
salvaguardas, na forma específica das “Três Leis da Robótica”. (Inventei a palavra
robótica, que nunca tinha sido usada antes.)
Aqui estão as Três Leis:


1. Um robô não pode fazer mal a um ser humano ou, por omissão, permitir
que um ser humano sofra algum tipo de mal.
2. Um robô deve obedecer às ordens dos seres humanos, a não ser que
entrem em conflito com a Primeira Lei.
3. Um robô deve proteger a própria existência, a não ser que essa proteção
entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei.


Essas leis eram programadas no cérebro computadorizado dos robôs, e as
numerosas histórias que escrevi a respeito de robôs levavam isso em consideração.
Na verdade, as leis se tornaram tão populares entre os leitores e eram tão lógicas
que outros escritores de ficção científica começaram a usá-las (sem jamais citá-las
diretamente; só eu posso fazer isso) e, em conseqüência, as velhas histórias de
robôs que se voltavam contra seus criadores saíram de moda.
Ah, mas isso é na ficção científica. E o trabalho que está sendo realmente
realizado hoje no campo dos computadores e da inteligência artificial? Quando
começarmos a construir máquinas inteligentes, será que vamos dotá-las de algo
parecido com as Três Leis da Robótica?
É claro que vamos, se os projetistas de computadores tiverem um mínimo
de inteligência. E o que é mais: as salvaguardas não vão ser simplesmente algo
parecido com as Três Leis da Robótica; elas vão ser as Três Leis da Robótica.
Quando criei essas leis, não me dei conta de que a humanidade as vinha
usando há muitos séculos. Pense nelas como “As Três Leis das Ferramentas” e
passarão a ser enunciadas da seguinte forma:


1. Uma ferramenta deve ser segura.
(É óbvio! As facas vêm com cabos e as espadas com bainhas. Uma
ferramente capaz de ferir o usuário, mesmo que seja manipulada corretamente,
jamais será usada de forma rotineira, quaisquer que sejam suas outras qualificações.)
2. Uma ferramenta deve executar a tarefa para a qual foi projetada,
contanto que o faça de forma segura.
3. Uma ferramenta deve permanecer intacta durante o uso, a menos que sua
destruição seja necessária por questões de segurança ou que essa destruição seja parte de sua função.


Ninguém se dá ao trabalho de citar essas Três Leis das Ferramentas porque
elas parecem óbvias. Cada uma delas, se dita em voz alta, seria recebida por um
coro de “Mas é claro!”.
Compare as Três Leis das Ferramentas com as Três Leis da Robótica, lei a
lei, e verá que a correspondência é perfeita. E por que não, já que o robô, ou, se
preferir, o computador, não passa de uma ferramenta?
Essas salvaguardas são suficientes? Pense no esforço que já foi feito para
tornar os automóveis mais seguros... e no entanto os automóveis matam mais de
cinqüenta mil americanos por ano. Pense no esforço que já foi feito para tornar os
bancos seguros... e no entanto raro é o dia em que um banco não é assaltado. Pense
no esforço que já foi feito para tornar seguros os programas de computadores... e
no entanto os casos de fraude no campo da informática se multiplicam.
Os computadores, porém, se se tornarem suficientemente inteligentes para
“assumir o controle”, talvez não precisem mais das Três Leis. Talvez, em sua
benevolência, decidam tomar conta de nós e nos proteger contra qualquer tipo de
mal.
Alguns de vocês podem argumentar que não somos crianças e que ficarmos
sob a tutela das máquinas destruiria a própria essência da nossa humanidade.
Será verdade? Olhe para o mundo de hoje e para o mundo do passado e se
pergunte se não somos crianças (e crianças destrutivas!) que precisam ser vigiadas
para não fazerem bobagens.

ANA LUIZA CASTRO

(2003)

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CATHOUSE COWGIRLS

 

Blazing Stewardesses 01

VELVET UNDERGROUND - THE VELVET UNDERGROUND & NICO (1967) (Bizz nº7, fevereiro de 1986)

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Dizem que 1967 foi o ano em que "tudo aconteceu" - tudo sendo a linha divisória do psicodelismo, decretando o fim da música pop como reduto das fantasias ingênuas e adolescentes. No vinil, a marca incicatrizável é composta pelo "tripé básico" - Sgt. Pepper´s dos Beatles (BIZZ 1), o primeiro dos Doors (BIZZ 5) e o primeiro do Velvet Underground.

Os Beatles, fundindo contrapontos bachianos com filosofia oriental, não estavam (muito) distantes dos contrapontos jazzísticos com tragédia grega dos Doors. Em ambos está a aspiração a fazer Arte a partir do velho rock´n´roll. Já o "subterrâneo de veludo" (nome tirado de um barato livrinho pornô) trazia a metamorfose mais radical. Em miúdos: agressividade gratuita convivendo com o mais acre-doce lirismo, e o mais preto-branco realismo urbano. O que era LSD para John Lennon e Jim Morrison, era a heroína ("minha esposa/ minha vida", na faixa "Heroin") para Lou Reed. Nenhum papo de "all you need is love" nem "light my fire". "Botas de couro preto reluzindo no escuro / Experimente o chicote", cantava Lou, ele também de couro preto e óculos escuros (na faixa "Venus in Fura", inspirada no romance homônimo de Leopold Sacher-Masoch). Qualquer semelhança com o punk ou com o David Bowie pré-Ziggy Stardust não é mera coincidência.

Compositor cativo de (tentativos) hits bobinhos - contratado para isso pelo selo Pickwick -, Lou Reed conheceu um galês muito estranho no ano de 64. Eles tinham em comum a formação erudita - Lou como pianista e John Cale como discípulo de vanguardistas como LaMonte Young.

Na concepção Velvet, Lou faria letras e vocais enquanto John cuidaria do baixo, dos teclados, dos arranjos e instrumentos esdrúxulos, como violinos e violas. Além disso, Lou e Sterling Morrison tocavam guitarra rítmica com tamanha demência e descompasso que, até hoje, 99% dos produtores jamais admitiriam a dupla dentro de uma gravação "séria". Está aí a chave de um dos momentos mais picantes de Velvet Underground & Nico. É a faixa "Run Run Run", que culmina num duelo de guitarras saturadas e distorcidas, raspadas com toda a força do punho -ou seja, a guinada anti-Hendrix que os punks "criaram" em 76 e que David Byrne dos Talking Heads enxugou e dilapidou para transformar em estilo.

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Em torno de Cale e Reed, arregimentaram-se as seguintes peças: o já citado Morrison e, suprema audácia, uma mulher baterista. Munida apenas de caixa, bumbo e um chimbau com pandeiro, Maureen "Mo" Tucker limitava-se a marcar o tempo com a seca displicência que faria BiIIy Cobham e similares darem meia-volta e fugir pela culatra.

Meses depois - no começo de 66 - o grupo passou a tocar toda semana no Café Bizarre, no bairro nova-iorquino de Greenwich Village. Foi aí que apareceu o artista plástico e catalizador em geral, Andy Warhol, que os integrou a seu show multimídia itinerante, o lendário Exploding Pkistic inevitable. Mais que isso, Warhol obrigou o Velvet a incorporar uma atriz e modelo alemã - a espectral e imóvel Nico - como cantora.
As quatro músicas que Nico canta no LP dão o perfeito contraste para o mundo das sombras descrito obsessivamente por Lou Reed. Na superfície, parecem até baladas da mais solar e melódica doçura. Chegue mais perto que dá para ver a lâmina. Como em "Sunday Morning", que Lou compôs quando Warhol o provocou para fazer uma letra sobre a paranóia - o velho albino a considerava o tema mais quente e universal do momento (isso no auge do "flower power"!). Um violão é delicadamente dedilhado, e o sotaque teutônico de Nico sussurra: "Cuidado! O mundo está atrás de você/ Há sempre alguém à sua volta".

(José Augusto Lemos)

Para ouvir na manhã de domingo, de segunda, de terça…