quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A NOVA PROFISSÃO (Visões de Robô, Editora Record)

 

4 leis da robotica

        ISAAC ASIMOV

Em 1940 escrevi uma história cujo personagem principal se chamava Susan Calvin. (Minha nossa, faz quase meio século!*) Ela era uma “robopsicóloga” e sabia
tudo a respeito de robôs. Tratava-se, naturalmente, de uma história de ficção científica. Escrevi outras histórias sobre Susan Calvin nos anos seguintes, onde
informei, entre outras coisas, que ela nasceu em 1982, freqüentou a Universidade de Columbia, onde se diplomou em robótica no ano de 2003, fez o doutorado e em 2010 estava trabalhando em uma firma chamada U.S. Robôs e Homens Mecânicos.
Não levei nada disso a sério na época em que escrevi as histórias. O que eu estava
escrevendo era “apenas ficção científica”.
Por incrível que pareça, as coisas estão se passando do jeito que eu descrevi.
Os robôs são usados rotineiramente em linhas de montagem e sua importância
aumenta a cada ano que passa. As companhias de automóveis estão instalando
dezenas de milhares de robôs em suas fábricas. Eles vão começar a aparecer
também em outros lugares, à medida que robôs mais complexos e mais inteligentes
deixarem as pranchetas. Naturalmente, esses robôs vão acabar com muitos
empregos, mas, em compensação, novos empregos serão criados. Em primeiro
lugar, esses robôs terão que ser projetados. Eles também terão que ser construídos
e instalados. Além disso, já que nada neste mundo é perfeito, de vez em quando
eles vão enguiçar e terão que ser consertados. Para reduzir ao mínimo a freqüência
de defeitos, será preciso desenvolver e implantar um sistema de manutenção
preventiva. Também é provável que tenham que ser modificados uma vez ou outra,
para desempenhar tarefas diferentes.
Para fazer tudo isso, vamos precisar de um grupo de pessoas que podemos
chamar, em termos gerais, de técnicos em robótica. Existem algumas estimativas de
que no ano em que minha fictícia Susan Calvin sair da universidade, haverá mais de
dois milhões de técnicos em robótica nos Estados Unidos e talvez seis milhões no
mundo inteiro. Susan, portanto, não estará sozinha. A esses técnicos, acho que
devemos acrescentar todas as pessoas que serão empregadas pelas indústrias direta
ou indiretamente ligadas à robótica, que se encontram em franca expansão. Pode
ser até que os robôs acabem criando um número maior de empregos do que os que
eliminaram, embora, naturalmente, sejam um tipo diferente de emprego, o que
significa que haverá um período difícil de transição, no qual aqueles cujos empregos
desapareceram terão que ser treinados para poderem desempenhar novas funções.
Isso pode não ser possível em todos os casos, e haverá necessidade de
programas sociais criativos para cuidar daqueles que, por idade ou temperamento,
não se adaptarem aos novos tempos.
No passado, o progresso tecnológico sempre exigiu avanços no setor da
educação. Os trabalhadores agrícolas não precisavam ser alfabetizados, mas os
operários das fábricas, sim, de modo que, depois da Revolução Industrial, as nações
industrializadas tiveram que criar escolas públicas para educar em massa suas
populações. A nova economia de alta tecnologia deve ser acompanhada por um
progresso semelhante na educação. O ensino de ciência e tecnologia deve ser
levado mais a sério e continuado por toda a vida, pois o progresso será rápido
demais para que as pessoas se limitem a usar o que aprenderam na juventude.
Esperem! Falei em técnicos em robótica, mas esse é um termo geral. Susan
Calvin não era uma simples técnica em robótica; era, especificamente, uma
robopsicóloga. Interessava-se pela “inteligência” dos robôs, pela forma de “pensar”
dos robôs. Ainda não ouvi ninguém usar esse termo na vida real, mas acho que vai
chegar o dia em que ele será usado, da mesma forma como o termo “robótica”
passou a ser usado depois que eu o inventei. Afinal de contas, os especialistas estão
tentando desenvolver robôs que sejam capazes de ver, de compreender instruções
verbais, de fornecer respostas orais. À medida que os robôs se tornarem mais
capazes, mais eficientes e mais versáteis, começarão a parecer mais “inteligentes”.
Na verdade, neste exato momento, existem cientistas no MIT e em outras
instituições de pesquisa que estão trabalhando muito seriamente na questão da
“inteligência artificial”.
Mesmo, porém, que seja possível projetar e construir robôs capazes de
executar muitas tarefas de tal forma que pareçam inteligentes, não é provável que
venham a ser inteligentes da mesma forma que os seres humanos. Para começar,
seus “cérebros” serão feitos de substâncias diferentes. Além disso, terão outro tipo
de organização e abordarão os problemas (com grande probabilidade) de forma
totalmente diversa.
A inteligência dos robôs pode ser tão diferente da inteligência humana que
seja preciso uma nova disciplina (a “robopsicologia”) para estudá-la. É aí que Susan
Calvin entra em cena. Susan Calvin e outros como ela serão para os robôs o que
são os psicólogos comuns para os seres humanos. E este pode vir a ser um dos
aspectos mais importantes da robótica, porque se estudarmos a fundo dois tipos
totalmente diferentes de inteligência, poderemos compreender muito melhor o que
é a inteligência. Em particular, poderemos compreender melhor o que é a
inteligência humana do que estudando apenas a inteligência humana.


Este artigo foi escrito em 1979.

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