Muito antes de haver uma Marvel Comics, havia Martin Goodman. Nascido no Brooklyn em
1908, filho de imigrantes russos, nono entre treze filhos, o jovem Goodman era um leitor tão
ávido que recortava pedaços de revistas velhas e colava para criar revistas novas. Mas a
vida de fantasia à toa não lhe era opção: o emprego de seu pai na construção civil se
encerrou quando ele caiu de um telhado, o que lhe custou as costas; Isaac Goodman virou
mascate. Os quinze membros da família Goodman estavam em mudança constante pelo
Brooklyn, sempre tentando ficar um passo à frente dos senhorios. Martin foi forçado a largar
o colégio na quinta série e teve vários empregos que não lhe deram estímulo. Por fim, ao
findar da adolescência, decidiu apostar em ser livre: saiu a viajar de trem por todo o país.
Quando a Grande Depressão atingiu os EUA, ele já tinha uma pilha de diários que
detalhavam suas experiências de costa a costa, em ferrovias e acampamentos de hobos.3A
paixão infantil pelas revistas acabou trazendo-o de volta para casa. Ao retornar a Nova
York, ele conseguiu emprego ao cantar louvores aos pulps4 como representante editorial da
Eastern Distributing. A Eastern foi para o buraco, mas a fortuna de Goodman cresceu: ele e o
colega Louis Silberkleit se uniram para criar a Newsstand Publications. De um esquálido
escritório na baixa Manhattan, lançavam westerns, histórias de detetive e contos românticos
por quinze cents a edição.
Plágios do Cavaleiro Solitário podiam não ser arte, mas o improvável aconteceu: Martin
Goodman ascendera de imigrante pobre, passando por passageiro clandestino, até virar
editor de revista. Esbelto, quieto, de sobrancelhas arqueadas que soterravam os óculos de
aro fino e a gravata borboleta que pontuava uma de suas várias camisas rosa choque,
Goodman tinha até cabelo grisalho prematuro – tudo para arrematar sua transformação de
garoto de rua em homem de negócios. Estava com 25 anos.
Em 1934, a distribuidora da Newsstand Publications afundou, deixando Goodman e
Silberkleit com milhares de dólares em contas não pagas. A Newsstand não conseguiu honrar
as dívidas com a gráfica; os ativos da empresa foram confiscados. Silberkleit abandonou o
navio, mas o ávido Goodman convenceu a gráfica de que ela ainda veria o dinheiro se o
deixasse continuar publicando alguns dos títulos. O instinto audaz de Goodman rapidamente
trouxe a empresa de volta ao azul; poucos anos depois, ele havia se mudado para o RKO
Building, consideravelmente mais elegante. Chegara a uma fórmula simplista para o sucesso:
“Se você tem um título que pega, é só botar mais”, disse à Literary Digest, “que o lucro vai
bater à sua porta”. O negócio era ficar antenado nas tendências, sem querer algo mais que
literatura descartável. “Fãs”, decretou, “não se interessam por qualidade”. Quando o
mercado voltou a afundar, Goodman ficou à tona: bastava encher as revistas com
republicações de outras editoras, sem dizer que não eram histórias inéditas.
Ele estava numa situação financeira boa o bastante para manter uma casinha para os pais
em Crown Heights, no Brooklyn. Também podia relaxar. Num cruzeiro às Bermudas,
abordou duas jovens que jogavam pingue-pongue e pediu para jogar com a vencedora da
partida. Jean Davis – também nova-iorquina, mas de uma Nova York mais culta e sofisticada
– virou a menina dos olhos de Goodman. De volta aos EUA, Jean ainda estava em dúvida
quanto a uma relação séria, mas Goodman usou todas as armas. Uma vez, raspou a conta no
banco e levou-a de avião à Filadélfia para um jantar e um concerto. Acabou conquistando a
moça, com quem noivou. A lua de mel foi na Europa, e os planos eram de retornar no
chiquíssimo Hindenburg5 – mas na última hora descobriram que não havia assentos juntos,
então mudaram de ideia e voltaram de avião. A sorte de Martin Goodman só crescia.
Goodman tinha mais de vinte publicações em 1939, de nomes como Two Gun Western
[“dois revólveres no velho oeste”], Sex Health [“saúde sexual”] e Marvel Science Stories
[“histórias deslumbrantes da ciência”]. (Essa última não era grande sucesso de vendas, mas
Goodman gostava de alguma coisa naquela palavra, Marvel. Guardou-a na gaveta.) Mudou
seu negócio para o estiloso McGraw-Hill Building, na Rua 42, onde começou a passar
trabalho fixo para os irmãos. O empreendimento de Goodman era, nas palavras de um editor,
“o ninho do nepotismo”: um dos irmãos fazia a contabilidade; outro trabalhava na produção;
outro tinha sua sala para fotografar aspirantes a starlet para os pulps. Até o tio de Jean,
Robbie, entrou na jogada. Além disso, a enchente de razões sociais que Goodman tinha na
mão – algo bem vantajoso na hora do fisco, assim como para manobras rápidas em caso de
problemas jurídicos – muitas vezes vinha de nomes de familiares: tinha a Margood
Publishing Corp., a Marjean Magazine Corp. e, assim que Jean deu a luz aos filhos Chip e
Iden, surgiu a Chipiden.
segunda-feira, 25 de maio de 2015
MARVEL COMICS – A HISTÓRIA SECRETA (Sean Howe, ed. Leya) # 4
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