quinta-feira, 28 de maio de 2015

MARVEL COMICS – A HISTÓRIA SECRETA (Sean Howe, ed.Leya) # 5

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     Enquanto isso, o modelo da revista em quadrinhos norte-americana estava começando a
tomar forma. Em 1933, a Eastern Color Printing Company usou suas prensas ociosas no turno
da noite para publicar Funnies on Parade [“desfile de piadinhas”], livro que compilava
tiras de jornais dominicais. As tiras eram publicadas lado a lado numa única página em
formato tabloide, dobrada ao meio e grampeada, depois vendida à Procter & Gamble para
ser dada de brinde. No ano seguinte, a Eastern Color colocou o preço de dez cents na capa
de Famous Funnies n. 1 e vendeu mais de 200 mil exemplares em banca; de uma hora para
outra, a série passou a render US$ 30 mil por mês. Outras editoras também fizeram a aposta.
O que mais vendia eram tiras de jornais dominicais recondicionadas, como Tarzan, Flash
Gordon e Popeye. Mas a New Fun, antologia em preto e branco no formatão 25 por 38
centímetros, foi a primeira revista em quadrinhos só de conteúdo inédito. Em 1937,
visionários começaram a montar serviços de produção editorial: criavam quadrinhos numa
eficiente linha de produção, seguindo os moldes da indústria de vestuário. O roteirista
entregava o roteiro a uma linha de montagem composta de ilustradores veteranos sem muita
opção de emprego ou a recém-graduados da escola de artes, armados com pranchas Bristol
de 35 por 53. Eles, por sua vez, repartiam a ação numa série de quadros simples,
elaboravam os desenhos a lápis, acrescentavam o cenário, adornavam a arte com nanquim,
inseriam os diálogos e passavam guias de cores à gráfica. Não era a rota da fortuna, mas, na
agonia da depressão, era trabalho garantido.
     E, então, em 1938, Jerry Siegel e Joe Shuster, dois garotos de Cleveland de 23 anos,
venderam uma história de treze páginas chamada “Superman” para a National Allied
Publications por US$130. O personagem era uma mistureba de tudo o que as crianças
gostavam – heróis dos pulps, ficção científica, mitos da Antiguidade – em um só esplêndido
pacote nas cores primárias. O “campeão dos oprimidos, a maravilha corpórea que jurou
dedicar sua vida a auxiliar os necessitados” enfrentava magnatas gananciosos e políticos
corruptos, sempre pregando o reformismo social – fantasia perfeita para a época do New
Deal.7 Mas Superman era mais do que um símbolo. Sua identidade secreta, o pateta Clark
Kent, dava até aos leitores mais solitários um colega renegado com quem se identificar. Ao
estrear como atração de capa da Action Comics n. 1, Superman fez sucesso da noite para o
dia. Na sétima edição, Action já vendia meio milhão de exemplares por número. A empresa
irmã da National, a Detective Comics (as duas em breve viriam a fundir-se para virar DC
Comics), introduziu Batman, outro cruzado de capa, e deu título próprio ao Superman – bem
no momento em que a concorrência começava a lançar uma onda de plágios fantasiados e
cheios de cor. (Diz a lenda que o editor do Homem-Miraculoso, uma das primeiras e mais
descaradas imitações, fora contador da National até ver os números da Action e sair para
fundar sua própria empresa.)
     Lloyd Jacquet, um ex-coronel de fala macia e adepto do cachimbo, abandonou seu cargo
como diretor de arte da Centaur Comics e, seguindo a deixa de outros, entrou no negócio de
produção editorial de revistas em quadrinhos: histórias e mais histórias para editores
ligados à tendência. Dentre os artistas que Jacquet pegou da Centaur e trouxe para sua nova
firma – a Funnies Inc. –, os principais eram Carl Burgos e Bill Everett; ficou com eles o
serviço de criar novos super-heróis. Ambos tinham 21 anos e eram irrequietos. Burgos
trancara a matrícula na National Academy of Design, impaciente com o aprendizado lento;
Everett, que fumava três maços de cigarro por dia e já acumulara uma década de bebedeira,
vinha pulando de Boston para Phoenix, de lá para Los Angeles e depois para Chicago.
Estavam sentados num bar de Manhattan chamado Webster, forjando os planos para superheróis.
Decidiram ater-se ao básico: água e fogo.
     Burgos veio com a ideia de um cientista brilhante, mas avarento, o Professor Phineas T.
Horton: ele cria um homem sintético dentro de um tubo de ensaio gigante, mas o vê entrar em
chamas ao tomar contato com oxigênio. O Tocha Humana [Human Torch ] não precisava de
uniforme: seu rosto sem traços e a anatomia vaga, ambos enrubescidos e obscurecidos por
tufos de chamas, são cercados por eclosões dispersas, como gotas de suor escarlate, e as
labaredas que se formam no alto da cabeça sugerem intenções diabólicas. Em outras
palavras, é uma criatura bruxuleante de medo e fúria. Quando foge, ele começa a lançar
bolas de fogo das mãos e a deixar tiras e criminosos de cabelo em pé. O estilo primitivista e
de baixo orçamento de Burgos só aumentava a impressão de que os tênues prédios, carros e
pessoas que o Tocha encontrava eram construídos às pressas para serem destruídos logo a
seguir. Ao fim de sua primeira aventura, o Tocha Humana aprende a controlar seus poderes,
mas vira fugitivo da lei.

(continua)

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PLACAR nº 36, novembro de 1970