A contribuição de Everett – que tomava de empréstimo as aventuras marítimas de Jack
London, a Balada do Velho Marinheiro de Coleridge e o Mercúrio de Giambologna – foi
Namor, o Príncipe Submarino [Namor, the Sub-Mariner ]. Depois que uma expedição no
ártico provoca destruição involuntária em colônias submersas de uma raça aquática, o
imperador anfíbio manda sua filha espionar os humanos. A princesa casa-se com o
comandante da expedição, recolhe informações para sua terra natal e, antes de voltar ao
oceano, engravida. Dezenove anos depois, Namor – de orelhas pontudas, sobrancelhas
pontudas e bico de viúva, trajando apenas sunga e agraciado com pés alados – é “um ultrahomem
das profundezas... que voa ao vento... tem a força de mil” e quer vingança dos EUA.
Ele usa seus poderes para fins diabólicos: mata dois mergulhadores (com apunhaladas
rancorosas em um e esmagando a cabeça do outro) e joga o navio deles contra um recife. As
linhas horizontais fracas, uma e outra bolha, e os objetos levitantes que Everett administrava
em aguadas para representar o mundo subaquático davam ao esquema como um todo uma
ambiência tenebrosa, pronta para uma trilha de teremim, mesmo que tais sutilezas acabassem
sendo efêmeras.8 Páginas depois, o temível langor das batalhas na água salgada é substituído
por ação pura, quando Namor arranca um piloto de seu biplano e “mergulha mais uma vez no
oceano – a caminho de mais aventuras em sua cruzada contra o homem branco!”
Irrepreensivelmente violento e caprichosamente incorreto, o maquiavélico Príncipe
Submarino era o inverso do herói-imigrante Superman.
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As histórias do Príncipe Submarino estavam separadas para inclusão na Motion Picture
Funnies Weekly, revista que seria distribuída de graça às crianças que fossem ao cinema,
torcendo para que ficassem vidradas e voltassem na semana seguinte. Mas a Motion Picture
Funnies gorou e nunca saiu da gráfica, com exceção de alguns exemplares de amostra
entregues a donos das salas.
Por sorte, o agente da Funnies Inc., um irlandês compacto e de cabelos rareando chamado
Frank Torpey tinha contatos. Um deles era Martin Goodman, com quem havia trabalhado na
Eastern Distributing. Torpey pegou exemplares de Superman e Homem Incrível (título que
Everett havia feito há pouco tempo para a Centaur), saiu do prédio caindo aos pedaços que
abrigava o loft da Funnies Inc., subiu três quadras e adentrou o arranha-céu art déco verdeazul
onde ficava o quartel-general da Timely, e lá vendeu sua ideia ao velho amigo
Goodman. Gibis, segundo Torpey, eram grana certa. Negociaram para Goodman publicar o
Tocha Humana e o Príncipe Submarino numa nova antologia. Goodman já tinha uma ideia
perfeita para o título.
Marvel Comics n. 1, produzida inteiramente pela equipe de Jacquet, contemplava o
sucesso em todas as suas 64 páginas: o Anjo [The Angel], herói bigodudo de Paul
Gustavson, inspirado no Santo;9 o aventureiro das selvas Ka-Zar, de Ben Thompson (uma
cópia de Tarzan reaproveitada dos pulps de Goodman); o caubói Cavaleiro Mascarado
[Masked Raider], de Al Anders; e cartuns de piadinhas para preencher espaço vago.
Goodman contratou o veterano ilustrador de pulps Frank R. Paul para desenhar a capa.
Assim, a primeira revista em quadrinhos da Timely foi publicada em 31 de agosto de 1939.
Horas depois, do outro lado do mundo, a Alemanha nazista invadia a Polônia. Começava a
Segunda Guerra Mundial.
(continua)
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