sexta-feira, 30 de abril de 2010
quinta-feira, 29 de abril de 2010
GENEALOGIA DO ESCRITOR ATERRORIZADO (Folha de S.Paulo 26/11/1983)
“O terror é o sentimento que convém inspirar”
Nicolau Emérico, Inquisidor 1320-1399
Toda criança ao chegar neste mundo, é convidada por Mamãe Natureza e pelo Super-Ego circundante a ter medo, temor, terror. A síntese destes medos-temores-terrores é o medo da morte.
Mãe e Morte, no entanto, só existe uma. O terror tem que ser distribuído pela vida afora. Daí o temor do homem das “mortes parciais”: medo do escuro, de cair do abismo, da noite, do silêncio, da água, das máscaras (do que elas escondem), da castração (no menino), o terror fálico (na menina). De quem é a culpa ? Do Pai do Céu, é claro. Quando Ele vê muita gente junta, fica morto de medo, e manda terror para cima da turba: epidemias, lepra, peste, guerra, inferno, morticínio generalizado, répteis, pragas, águas purulentas, eclipses solares e lunares.E ainda pode contar com seus ajudantes-de-ordens, que exercem o terror por meios terrenamente mais requintados, distribuindo morte lenta e as citadas “mortes parciais”.
Julio Cortázar, desde pequenininho, resolveu não temer o Criador, como ele mesmo diz nesta crônica. Sua curiosidade o levou ao diabo – este anjo que Deus Pai capou, transformando em chefe dos castrados, e precipitou no Inferno como castigo por Ele, diabo, ter tentado castrar o Ser Supremo. O diabo, portanto, é aliado de todos os que tremem frente à idéia de, depois de terem ficado sem pipi, caírem no abismo negro “onde haverá choro e ranger de dentes”, como diz o Evangelho. Mais: o diabo é o Pai da literatura.
Cortázar só pôde se tornar um suspeitador contumaz do cosmos, um contrabandista da cultura, por artes do Demo. É um feeling de sentir na veia uma linhagem aristocrática. Cortázar se reconheceu nos contos da carochinha de Perrault, no Barba-Azul premonitório do terror divino-inquisitorial, nos ogros comedores de criancinhas com molho, nos répteis, nos vinhos, pós, abismos, pântanos, nevoeiros, cemitérios, casas assombradas, monstros, anões, gigantes, lepras, polvos, espaços ambíguos, ruas inexistentes, igrejas aéreas – um bestiário que ninguém celebrou como Edgar Allan Poe, ponto de convergência e divergência – entre correntes literárias e psicopatologias – de tudo que se relaciona à arte do terror.
O regresso à escuridão e ao silêncio uterino, único lugar onde está ausente o sofrimento, é a aspiração suprema do homem, que sempre termina caindo em buracos bem diferentes. Poe embarcou em uma vertiginosa e torturada viagem ao ventre materno. Mas só encontrou abismos vorazes e a Morte Gélida, Branca. No auge do prazer, o amor transfigura-se em morte. Poe consegue evitar a queda em “O Poço e o Pêndulo”. Mas nos leva a cair vivos na escuridão da gruta de “O Enterro Prematuro”.
Cortázar se aterrorizou com Poe. Cresceu e traduziu sua prosa para o castelhano, como Baudelaire para o francês (e Cortázar é um incurável romântico, amante de Keats). Mas – como um implacável cronópio crítico, e providencial pequena carga de traumas – previu outras possibilidades para sua literatura. Enxergou uma realidade-outra, do outro lado do espelho. Viu que o universo poderia ser de outra forma. Que podemos ser mitos de minotauros e unicórnios céticos frente a nossa insensata realidade.
A partir daí, Cortázar domou seu terror construindo infinitamente uma figura, dentro da própria linguagem. De um conto passa-se a uma novela; personagens disfarçam-se e assumem outras identidades; outros reaparecem; uma referência liga-se a uma página ainda não escrita. Do conto breve sustentado por uma idéia brusca – à maneira de Poe – até a noveleta (a sublime “O Perseguidor”, em homenagem a Charlie Parker) , pôs-se a perseguir e registrar séries de formas fugazes antes do esquecimento – operador de caleidoscópio provocando um congestionamento gigante na autoestrada do Sul, ou vomitando coelhos e escrevendo para uma senhorita em Paris. Fantástico ? Qualquer sequência na vida de qualquer homem é fantástica, pois “bruscamente se armam sequências terríveis ou idiotas na vida de um homem, sem que se saiba que lei fora das classificadas as decide” (“O Perseguidor”).
Como diz em “Rayuela”, Cortázar nunca parou de dar voltas em torno de si como um cão buscando sua cauda. Pelo itinerário, foi construindo labirintos. Aqui, nos mostra sua genealogia do terror, e como passou a exorcizá-lo transferindo –o ao próximo. Mas neste jogo infernal terminou se convertendo em um escorpião encalacrado – pela linguagem e pela obra. Belo e perigoso destino, ao fio da navalha. Pois todo Criador – e ainda mais crítico, como Cortázar – desperta iras inomináveis. E ele ainda tem medo de robôs... Não dormirás em paz, Julio, desde que vistes “Blade Runner”. Te lembras do Andróide supremo que, após sensual beijo da morte, extermina seu Criador humano ?
mais sobre o escritor:
A MULHER DO POTE (EPÍLOGO)
No capítulo anterior:
Antonio abre o pote e cede aos encantos da mini-mulher que lhe promete a vida eterna e “um pouco de amor”…
(finaliza amanhã)
quarta-feira, 28 de abril de 2010
A MULHER DO POTE – 2
No capítulo anterior:
Antonio recebe um estranho embrulho e descobre que nele havia um pote contendo uma linda mulher em miniatura…
(continua)
