PAULO FRANCIS
O sr. Roberto Carlos está processando dois amigos meus, Ruy Castro e Fernando Pessoa Ferreira, porque Ruy escreveu um artigo sobre o sr.Carlos, “O Que Ninguém Conhece” (é uma boa pergunta se vale a pena conhecer) e Fernando editou. E bobagem, claro, mas é uma interferência censora sobre o livre exercício do jornalismo. Não é atoa que, em 1965, o sr.Carlos foi considerado por maliciosos esquerdistas “A Patativa da Ditadura”, quando berrava que queria ser “aquecido no inverno” (onde ? no Rio Grande do Sul ?) e que tudo mais “fosse para o inferno”. Quando o estupro é inevitável, relaxe e aproveite.
Só vi o sr.Carlos uma vez, em “O Pasquim”, numa entrevista. Ele me pareceu modesto. Como disse Winston Churchil de Clement Attlee, tem toda a razão de ser modesto… A voz é banal. As músicas (referência genérica) são de um sentimentalismo mais repulsivo do que o habitual. Mas não há dúvida que foi e deve ser amado por muita gente. E quer submissão da imprensa. Fica furioso quando repórteres lhe fazem perguntas sobre a vida particular. Deve-se supor músico importante. Sou todo pela santidade da vida particular, mas músico pop é objeto de consumo, é símbolo sexual. Sem isso, não existiria. Não é afinal o que o sr.Carlos vá ficar na história. Será consumido e esquecido.
A culpa é da imprensa. Se Caetano Veloso não tivesse sido endeusado (está aqui baianamente curtindo o terrível calor do momento, com publicistas e tudo. Mais uma vez “Noviorque” se curva etc.), não diria ao ser criticado por um show que nada mudaria mas que gostaria de mudar a imprensa. O sr.Chico Buarque não teria chamado os críticos de censores (poderia mais plausivelmente chama-los de idiotas…) . A culpa é da imprensa porque promoveu essa gente ao delírio, em detrimento de manifestações culturais mais saudáveis para nossa sociedade doente. atrofiada.
Mas é argumentável que Caetano e Chico têm talento. Fica aqui argumentado. O sr.Carlos é diferente. Ele é da escola da “Revista do Rádio”, da Wandeca (sempre me perguntam se fui torturado na cadeia. Uma vez, na prisão de “O Pasquim”. Na cela, ao lado de soldados, eles ouviam dia e noite Wandeca), do chulé das macacas de auditório. Logo é natural que esteja sempre “com novo romance enlouquecedor”, e quejandos.
Mas já que recorre à Justiça para censurar jornalistas , que afinal exploram o que ele precisa ter explorado para se manter em sucesso (uma contradição ? Claro. Mas não esperemos dos nossos “gênios pop” um mínimo de inteligência sequer), o que editores mais conscientes dos direitos e inimigos da imprensa deveriam fazer seria bani-lo dos jornais. Afinal, não faltaria chulé. Há sempre algum moçoilo ou moçoila de violão e pé na cadeira, gritando. As massas, como os leões romanos, nunca passarão fome em matéria de detrito cultural.
Um assunto um pouco mais sério é um certo George Will. Cara de fuinha, mestre do lugar-comum. Will agora é atacado na imprensa americana por colegas porque teria treinado Reagan para o debate contra Carter em 1980, sabendo que Reagan tinha papéis confidenciais de Carter, sem nada dizer, e por isso dizem que ele violou ética jornalística.
Francamente. Quem já leu Will sabe que é descendente de Genghis Khan. É um propagandista do privilégio, da repressão e do militarismo. Admira profundamente Reagan. Como todo jornalista, excetuando algumas pessoas que conheço, é gente de segunda categoria. Nada mais pândego que exigir de propagandistas do “establishment” que se portem como jornalistas independentes. São parte do sistema, ajudam os poderosos a ludibriar as massas o tempo todo, ao contrário do que imaginava Lincoln, que acreditava que não se pode enganar o povo o tempo todo…
Não só brasileiros são ingênuos. Somos menos inocentes de Freud, ou seja, do sentido das palavras. Um deputado do PMDB aqui disse ontem que não se escreve história com baioneta ou fuzil. Ao contrário, é plausível argumentar que só se escreve história com baioneta, fuzil ou equivalente, de Julio César a Robespierre, a Hitler e Stalin.
Li uma escritora brasileira que sabe escrever. Se chama Márcia Denser. Tem um cuidado com palavra que sempre imaginei morto aí, onde nossos escritores ou contam histórias ou propoem teses para nos salvar do capitalismo. Denser cai ocasionalmente no clichê e, pior, na frase literária, um hábito provinciano pré-Pound, mas tem uma cabeça capaz de criar o que vê, como é, sem adornos. Parabéns.
Fique com o original, não aceite imitações…




