domingo, 3 de outubro de 2010

ZAPPA, UM CÍNICO, CLÁSSICO NOS ANOS 80 (Folha de S.Paulo, 03/04/1983)

 

FrankZappa

Em seu novo LP lançado no Brasil, um dos artistas mais transgressivos do rock continua tão inquieto e debochado quanto em 1967

Front

SHIP ARRIVING TOO LATE TO SAVE A DROWNING WITCH – Frank Zappa (guitarra solo, vocais), Steve Vai (guitarra), Ray White (guitarra rítmica), Tommy Mars (teclados), Bob Martin (teclados, sax e vocais), Ed Mann (percussão), Scott Thunes (baixo), Arthur Barrow (baixo), Patrick O Hearn (baixo), Chad Wackerman (bateria), Roy Estrada (vocais), Ike Willis (vocais), Bob Harris (vocais), Lisa Popeli e Moon Zappa (vocais). Produzido por Frank Zappa (CBS).

PEPE ESCOBAR

Vivemos em um clima de esgotamento: o ato de criar, de forjar, de fabricar é menos significativo por si mesmo do que pelo vazio, pela caída que o segue. Comprometido por nossos esforços, sempre e inevitavelmente, o fundo divino e inesgotável se situa fora do campo de nossos conceitos e nossas sensações. O homem já nasceu com a vocação da fadiga: quando adotou a posição vertical e assim diminui suas possibilidades de apoio, condenou-se a debilidades desconhecidas para o animal que foi. As gerações acumulam a fadiga e a transmitem; nos legaram um patrimônio de anemia, reservas de desânimo, recursos de decomposição e uma energia de morte que chega a ser mais poderosa que nossos instintos de vida. É assim que o costume de desaparecer, apoiado por nosso capital de lassitude, nos permitirá realizar, na carne difusa, a neurastenia, nossa essência.

pepe zappa

Que nossa agonia beira o ridículo, alguns intuem . Mas poucos sabem tirar proveito estético e humorístico desta situação como um certo quarentão de bigode e cavanhaque, natural de Baltimore, Maryland. Para uns é um gênio da música eletrônica de vanguarda. Para outros, um blefe, um charlatão. Na verdade, Mr.Frank Zappa é para o rock o que Mahler e Schoenberg foram a música sinfônica.

Sátiras, paródias, referências clássicas e improvisações

Frank é um fenômeno que só poderia ter surgido na Califórnia, pátria do delírio americano. Quando era adolescente, morava no sul do Estado, perto do deserto, o que lhe fornecia uma adequada dose diária de incandescência nos miolos. A mãe – ex-bibliotecária – ficava cuidando dos seus três irmãos, e o pai fazia exercícios de ecletismo – um dia barbeiro, outro metalúrgico, depois professor de matemática, balconista, etc... Frank fundiu a cabeça dos seus mestres escolares e resolveu partir para a música: segundo ele, dois cursos de harmonia, um de composição (que ele “matava” para ouvir música) e muita prática – ouvindo discos, pesquisando em bibliotecas e tocando em bares de cidades pequenas. Olhava-se no espelho todo dia e ruminava: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais freak do que eu ?”

Frank Zappa Frank Frank Frank Frank Frank

Talvez não, mas quase. Encontrando outros fanáticos por “rock progressivo”, Frank materializou em 64 o Mothers of Invention, onde a música era apenas uma parte do stage package, que incluía muita sátira social, paródias pop, referências clássicas (Varese, Bartok), improvisações de jazz de vanguarda, comédia burlesca e teatro de variedades. Bonecas eram mutiladas. Os músicos apareciam com máscaras contra gases. Sacos de verduras eram cuidadosamente examinados. Toda a troupe, de repente, parava de tocar e ignorava o público. O baterista aproveitava para engraxar o sapato de Zappa. Quando ninguém agüentava mais, Frank modulava sua melhor voz canastrona e dizia: “Isto traz à tona todas as hostilidades dentro de vocês, não é ?”

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Nada mais adequado do que esse deboche no meio da década de 60. O horror, comodamente instalado nas grandes cidades americanas, trespassava crânios indiscriminadamente. Vivia-se em estado de guerrilha urbana (é só lembrar de “The Streets of Your Town”, de Country Joe e The Fish, e da pulsação infernal nos primeiros discos do Velvet Underground). Zappa revela-se o mais competente para brincar com esta violação constante dos nervos e do espírito pelos ruídos da cidade. Suas colagens correspondem à pop art pictórica. De “Freak Out” (agosto de 66) e “Absolutely Free” e a “Lumpy Gravy” e “Uncle Meat”, a experiência se concretiza e se aperfeiçoa: convergência de Stravinski, Schoenberg, rock, jazz, Cage, vaudeville. Multimídia em ação, freak out generalizado.

Colagens transmitem a cacofonia de sons urbanos

Se não fosse “Freak Out” não haveria “Sgt Pepper”, como reconheceu o próprio McCartney. A técnica , como nos discos seguintes, era relativamente simples: Zappa escrevia um tema, fazia com que os Mothers o tocassem e o mixava alterando radicalmente o equilíbrio dos volumes para cada instrumento. Com estas tracks na mão, começava a colagem, integrando materiais não musicais (ruídos criados pelo meio ambiente) na estrutura musical, e deles se servindo como contraponto rítmico. Música surpreendendo a cada segundo, como os infinitos tentáculos da cidade em cada uma de suas esquinas.

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Qual a chave do mistério de Zappa ? Este seu trabalho era realmente inovador em termos de rock, introduzindo variações atonais e rítmicas, mas não era transgressivo a ponto de chegar à serialização. Schoenberg, Berg e Webern não chegaram a contaminar a escritura musical pop.

Zappa, deu seu “coup de grâce” ao misturar a nova salada musical com uma corrosão de todos os valores da “little America” absolutamente inédita na época.

Se a América podia eventualmente ser ridicularizada no cinema, na literatura e na fotografia, no rock terminou encontrando em Zappa o mais autorizado êmulo de Groucho Marx.
Cínico porém sério, Zappa entrou na década de 70, produzindo com a mesma prolixidade, e explorando territórios já cartografados por seus ídolos, especialmente Varese. Este já havia influenciado Cage , Stockhausen, Crumb, Charlie Parker e Pink Floyd: “Ummagumma”, por exemplo, revela o uso de construções em teipe interpoladas com música tocada em estúdio no mesmo clima dos “Deserts”, de Varese, um pioneiro no uso de “pequenos instrumentos”, construções em fita e estruturas atonais.

Mais de 30 álbuns gravados, e shows com muito humor

Mudando constantemente a equipe de músicos com quem trabalha, Zappa cria fama de gênio intratável. Mas tudo isso é folclore , sem dúvida engraçado. Adrian Belew, por exemplo, antes de virar estrela e tocar com Bowie, Talking Heads e King Crimson, foi fazer um teste com Zappa. Frank ouviu atentamente e falou que lhe telefonava logo a seguir. Ligou um ano depois: “Venha tocar comigo. Acho que você canta muito bem”. Anos depois, um baterista californiano, considerado um “monstro” na Universidade onde estudava , foi fazer seu teste. Deu um verdadeiro show. Zappa impassível, murmurou: “Interessante, mas não gosto de seu tempo”.

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Seus shows ao vivo são sempre imprevisíveis e hilariantes. Em Paris, em 78, tocou durante três horas inventando versões sensacionais de “The Illinois Enema Bandit” e “The Torture Never Stops”, entre outras, onde aproveitava todas a brechas para fazer gozações com os ingleses, para delírio do público francês. Nos EUA, adora achincalhar toda a mitologia de sonhos baratos e escapismo gerada em Los Angeles e adjacências; quando toca na área , entra em sincronia com seus fãs superfreaks de anos, e juntos destroem a América.

Nos últimos anos, Zappa vem trabalhando com um grupo mais ou menos fixo de músicos, entre os quais o guitarrista Steve Vai – responsável por “partes de guitarra impossíveis” ou “abuso de Stratocaster”, segundo Frank –, os tecladistas Tommy Mars e Bobby Martin e o vocalista Ike Willis. Produziu uma linha de álbuns absolutamente delirantes – que também deveriam ser lançados no Brasil para completar o que se encontra neste “Barco chegando atrasado para salvar uma bruxa se afogando” (uma das melhores capas zappeanas dos últimos anos). Estes álbuns são “Sheik Yerbouti”, “Joe’s Garage”, “You Are What You is” e “Shut Up’n’Play Your Guitar” disco triplo que também apresenta “Shut Up’n’Play Your Guitar Some More” e “Return of The Son of Shut Up’n’Play Your Guitar”. Os títulos são uma gozação tipicamente zappeana; são discos de solos de guitarra, “sem letras para perturbar sua imaginação, sem canções que você precisa ficar esperando para ouvir”.

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“Ship...” tem tudo que um zappeano – zumbi urbano pertencente a uma confraria que só em São Paulo já conta com milhares de fiéis – pode querer: polifonias nos teclados, loucuras atonais, xilofones, solos ensandecidos, sons superpostos em alta densidade, paródias, histéricas vozes femininas, bobagens recitadas em tom cerimonioso. Os destaques são para “Valley Girl”, um rock típico de Los Angeles, paródia dos Beach Boys, coma irmã Moon Zappa dando um toque de rap: “Drowning Witch”, em clima de funk e vaudeville, conformando uma loucura semelhante à das pinturas de Arcimboldo, e com um solo hendrixiano de Steve Vai; e “Teen Age Prostitute”, uma pecinha de 2m40, sinfônica , operística, semelhante a um trilha hollywoodiana composta para um diretor alucinado de filmes over-underground. Todas elas revelam que frente a criadores desprovidos de patetismo, caráter e intensidade, que se moldam sobre as formas do seu tempo, ainda restam outros nos quais se sente que, em qualquer momento que tivessem aparecido, teriam sido semelhantes a si mesmos, despreocupados de sua época, extraindo seus pensamentos de seu próprio fundo, da eternidade específica de suas taras. São fulgores únicos, como este cínico vampiro de bigode e cavanhaque, criador sem destino, infinitamente vazio e maravilhosamente amplo.

 

Vai que é sua Massari…

BATMAN E SARGENTO ROCK EM CORES Nº 7

 

Ebal (1970)

Batman07 [ebal.blogspot.com] pag01

Batman07 [ebal.blogspot.com] pag03

Batman07 [ebal.blogspot.com] pag12

Batman07 [ebal.blogspot.com] pag26

ARTE DA CAPA – PLAYBOY 1955

 

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LUIZ GÊ E OS IMPLACÁVEIS