PEPE ESCOBAR
A HORA DOS ASSASSINOS de Henry Miller. Tradução de Milton Persson. L&PM, 112 págs.
Quarenta anos nas costas, várias marcas no corpo, incontáveis peregrinações, viciado no ópio do ócio. Um dia, em 1931, Henry Miller resolve escrever. Proclama o fim da era do romance – bye bye Dostoievski, Balzac e Proust – e instaura o tempo da grande divagação sobre si próprio.
Fácil. Henry tinha passado quarenta anos fabricando um personagem para seus livros. E esse personagem era ele mesmo. Um iconoclasta de estilo cósmico, fluente, convulsivo, imitando à perfeição a catarse e o vômito. Dos gregos, aprendeu que a força do espírito, o poder e a energia fazem a felicidade do homem. De Nietzsche, que a compaixão a compaixão só é aceitável se parte da felicidade, e não do ressentimento. De Rimbaud, pegou a idéia do escritor como vidente. De Rabelais, a celebração da carne, da paixão e do prazer.
Um dia, em 1927, de passagem, em um porão sujo no depois mítico 14º Distrito de Brooklyn, Henry encontra Arthur Rimbaud, vidente. Vivia a sua própria temporada no inferno. Precisou de dezenove anos para sentar aquela beleza no colo, e injuriá-la à sua maneira com um furor apaixonado.
Que escritor teria coragem de escrever um ensaio comparando-se com a febre vital do príncipe Arthur ? Só mesmo o insolente Henry. Mesmo porque ele já havia percebido que a exploração de si próprio era a exploração do mundo e de outros escritores. Um processo de comparação , descoberta de ligações perigosas, iluminação gradual de potencialidades. Dickens teria apodrecido em uma fábrica, Shaw em um escritório de Dublin, Wells em uma loja e Rilke no exército prussiano se não fosse esse desejo persistente de autodescoberta que os levou à linha de frente intelectual de sua época.
Quando Henry fala de Arthur – sua voz demorou 37 anos para chegar a este paraíso tropical – em cada seqüência incandescente de pensamentos ouve-se a pergunta crucial: Que grau de autoconhecimento um homem deve obter para se considerar salvo ? Novalis diria que todos os homens poderiam ser gênios se não fossem tão preguiçosos. Mas não é por aí. Porque no limite da salvação está o mergulho no abismo.
“A Hora dos Assassinos” é a crônica de uma dissecação empreendida com lágrimas de sangue. Henry nos mostra o desenraizado, o ousado/tímido Arthur musicando a linguagem e na sua suprema negação, no seu fracasso exemplar, com toda a “sede de experiência, curiosidade insaciável , desejos irrefreáveis, coragem e tenacidade, autoflagelação, ascetismo, temperança, medos e obsessões, morbidez, solidão, sensação de ostracismo, desmesurado tédio”. Penetra na alma de Arthur – porque já sentiu o mesmo – para revelar seus cristais de “inocência, fome, inquietude, fanatismo, intransigência e absolutismo”. Como Baudelaire, Blake, Emily Bronte, Kafka, Sade, Arthur levou a linguagem ao limite, removeu qualquer sombra de mistério da caverna terrível do Mal.
Renegado, só lhe restava expiar a transgressão traficando na Abissínia, economizando cada franco e sonhando eternamente com o escape definitivo.
O que Rimbaud não resolveu, pergunta Miller ? Seu corpo a corpo com a mãe, que pode levar a loucura, “mãe-écran” da época. Por causa disso, Rimbaud renegou o amor. Ficou no angustiante esplendor da solidão. Chegou ao desconhecido. Revelou o que ninguém nunca viu. Mas – como reconhece na “Carta do Vidente” – neste limite é inevitável a perda da compreensão de todas as visões. Rimbaud, como Blake e Nietzsche, foi aniquilado pelos raios da raiva de Zeus.
“Viu que tudo era uma mixórdia nojenta, que ser outra nulidade histórica não o levaria a parte alguma. Queria viver , queria mais espaço, mais liberdade: queria expressar-se, não importa como. E por isso disse: “F...cara ! F...você e todo mundo !”.
E depois abriu a braguilha e mijou em cima de tudo – e de uma altura respeitável, como Céline certa vez disse. E isso, caros escravos da vida, é realmente imperdoável , não é ? Eis aí o crime, não é ?
Rimbaud, na sua criminosa renúncia, transformou-se na voz sublime do silêncio. Pediu as estrelas. Deram-lhe apenas indiferença. Uma “alma incompatível”, como a define Miller neste ensaio dilacerante – e muito bem traduzido. Quando o pensamento se encerra em cavernas, o amor se enraíza no inferno mais profundo , dizia Blake.
Quantos hoje, ainda terão a coragem de se alimentar deste fogo ?
A Charlotte já cantou este tema naquele disco “I.R.M.”…
