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sexta-feira, 11 de março de 2016

PARA SEMPRE (Carlos Drummond de Andrade)




Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.

Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

ONTEM

 

Matisse_Bowl_of_Oranges_1916

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.
De como este banco
não reteve forma,
cor ou lembrança.
Nem esta árvore
balança o galho
que balançava

Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado
não no ar, em mim,
que por minha vez
escrevo, dissipo.

*”Bowl Of Orange” (1916), Henri Matisse

sábado, 31 de agosto de 2013

MUITO OBRIGADO

 

Max Ernst - A Friends' Reunion (Au Rendez-vous des amis)

FRANCISCO ALVIM

Ao entrar na sala
cumprimentei-o com três palavras
boa tarde senhor
Sentei-me defronte dele
(como me pediu que fizesse)
Bonita vista
pena que nunca a aviste
Colhendo meu sangue: a agulha
enfiada na ponta do dedo
vai procurar a veia quase no sovaco
Discutir o assunto
fume do meu cigarro
deixa experimentar o seu
(Quanto ganhará este sujeito)
Blazer, roseta, o país voltando-lhe
no hábito do anel profissional
Afinal, meu velho, são trinta anos
hoje como ontem ao meio-dia
Uma cópia deste documento
que lhe confio em amizade
Sua experiência nos pode ser muito útil
não é incômodo algum
volte quando quiser

*quadro Reunião de Amigos (Max Ernst)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O POETA PRAS CADEIRAS

 

PN11

CARLOS SALDANHA


Coessarte tradicional!...
Mas qual...


O poeta cumprimenta o seu público,
As cadeiras que não podem
sequer dar-lhe uma salva de palmas:
que têm braços, têm pés,
mas não têm mãos a medir
Na admiração contumaz
Pra dar ânimo, enfim
Que ânimo infusa, ninguém
por certo João Limão
se está querendo ser;
Mas afinal algum interesse
Mínimo que se desperte

*Goya

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

GRUPO ESCOLAR

 

Hokusai - Flock Of Chickens

ANTONIO CARLOS DE BRITO


Sonhei com um general de ombros largos
que fedia
e que no sonho me apontava a poesia
enquanto um pássaro pensava suas penas
e já sem resistência resistia.
O general acordou e eu que sonhava
face a face deslizei à dura via
vi seus olhos que tremiam, ombros largos,
vi seu queixo modelado a esquadria
vi que o tempo galopando evaporava
(deu pra ver qual a sua dinastia)
mas em tempo fixei no firmamento
esta imagem que rebenta em ponta fria:
poesia, esta química perversa,
este arco que desvela e me repõe
nestes tempos de alquimia.

*Katsushika Hokusai. “Flock Of Chickens”

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

PRAÇA DA REPÚBLICA DOS MEUS SONHOS

 

Salvador Dali - Tuna Fishing

ROBERTO PIVA

A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com
[paciência pela paisagem
de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e
[crianças brincando
na Tarde de esterco
Praça da República dos meus Sonhos
onde tudo se fez febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde García Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias
[mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela
[multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma
[os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras
[sexos de papel
anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água
[fumegante nas

privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da
República dos meus
Sonhos última sabedoria debruçada numa
porta santa

*”Tuna Fishing”, Salvador Dali

terça-feira, 27 de agosto de 2013

MAKE LOVE, NOT BEDS OU É ISSO MESMO

 

1950 - the hero's return

TORQUATO NETO


Filho de Kennedy não quer ser Kennedy
Deus os faz e os junta.
Amanhã em Tara eu pensarei nisso.
Pra o bom entendedor: meia palavra basta?
É disco que eu gosto?
Quem vem lá faça o favor de dizer por que é que vem.
Tem gente dando bandeira a meio pau.
Ninguém me ama, ninguém me chama, são coisas
[do passado (W.S.)
Quem sabe, sabe, conhece bem: gostoso gostar de alguém?
Vai começar a era de Aquarius. Prepare seu coração.
Ou não: dê um pulo do lado de fora.
Compre: Olhe. Vire. Mexa.
Você sempre me aparece com a mesma conversa mole.
Com o mesmo papo furado – só filmo planos gerais.
Sou feiticeiro de nascença/Trago o meu peito cruzado
A morte não é vingança/Orgulho não vale nada.
E atrás dessa reticência
Nada, ri-go-ro-sa-men-te nada
Boca calada, moscas voando, e tudo somente enquanto
Eu deixar. Enquanto eu estiver atento nada me
[acontecerá.
Um painel depois do outro e um sorriso de vampiro;
Eu me viro/como/posso me virar.
E agora corta essa – só quero saber do que pode dar certo
Mas hoje tenho muita pressa. Pressa! A gente se vê,
Na certa.

*”The Hero’s Return”, Roy Lichtenstein

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

COMPREENSÃO DE SANTO


Brian Despain 004
JOSÉ CARLOS CAPINAN

Todos os santos têm o sexo amputado.
E cansados de suster a própria boca
maldizem a fome, enquanto comem.
(De gula, assaz e sempre, estarão salvos).
Sabem ótimo o benefício de dar-se
mas em ânsias de céu, erram as doações pelo ar.
(Em dar assim, mais se exercem, mais se guardam.)
O santo é só um ângulo do homem.
Como só vê de um lado, enviesado
anda em círculos, se perseguindo,
doida figura que nas costas procurasse o seu sentido.
todo.
(Buscando o ausente, em Deus, faz-se íntegro e pouco.)

*”004”, Brian Despain

domingo, 25 de agosto de 2013

JÁ JÁ

 

The Beggars

ROBERTO SCHWARZ

Luís Inácio Trella, é verdade. Não sei bem se quer escrever
o ensaio que planejo escrever, ou se quer seduzir Alice.
Se fico aqui ronronando, é certo que escreverá antes de
mim. Se saio, entretanto, ocupará o meu lugar. Alice, como
você atrapalha. Luís Inácio, conte lá o que anda fazendo.
Ouvi dizer que tem projetos? Não? Modéstia sua, tenho
certeza. Sente-se. Não quer nos fazer companhia? Aqui
embaixo da mesa, é mais confortável. Não se incomode
comigo; primeiro as visitas. Preciso sair um instantinho.
Alice há de entretê-lo.
Não, não, não se incomode.
Vou à venda comprar cigarros. Não fumo, de modo que
não vou também à venda. Acho que não volto mais para
casa.
Fique lá o Luís Inácio, grudado.

*”The Beggars”, Pieter ‘The Elder’Bruegel

sábado, 24 de agosto de 2013

O MIOLO DO SONHO E O DENTE DE ALHO


And_We_Continue_Fishing-1
ZULMIRA RIBEIRO TAVARES

Quando percebi que os meus sonhos
não eram os sonhos dos meus sonhos
acordei estremunhada.
Ao verem meu rosto de sombra
Perguntaram:
Foi insônia?
Respondi:
Foi o contrário.
Ontem à noite ao invés de alhos
por temê-los no olfato
(afinal não sou uma rosa?)
decidi foi comer nuvens.
Conclusão?
Elas incharam.
E os comedores de alhos?
Não vêem o barulho que fazem
rindo às bandeiras soltas?
De que se riem? Das sombras?
A que rescendem? Não temem?
Não temeram o seu cheiro: transpiraram.
Não pegaram no sono: o soltaram.
Não perderam a cabeça: a ganharam.

*”And We Continue Fish”, Nicholas Roerich

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

QUASE CINZA

 

Matisse La danse

AFONSO HENRIQUES NETO

eu sei onde ladram os ventos pelos ladrilhos
dos mistérios inexistentes.
eu sei de que matéria esta sensação de derrota
é feita, moldada, entre instrumentos de tortura
e pálpebras e espelhos amassados.
eu sei dos que falam no escuro a flauta da voz
das fábulas.
eu sei através do vídeo o vácuo do sangue atrás e além
da imagem, violentos planetas vomitando o drama.
eu sei as tartarugas infinitas,
os bodes expiatórios.
os lavabos cheios de unhas vivas.
a eternidade do gesto humano
morrendo no longo tombadilho.
sei das certezas e incertezas verdes.
sei do resumo de tudo dançando na chuva mais cotidiana.
só não sei do teu sorriso se diluindo em nuvem.
só não sei do teu corpo quase infantil
de mulher amanhecida.
só não sei do timbre de tua voz
entre borboletas e musgos fluindo do único verbo.
só não sei do opalescente rastro de teus pés
entre cachoeiras apagadas.
só não sei da galáxia a resumir vazia
o silêncio mortal de tua alma quebrada.
ai de mim
que eras ouro e breve.

*”La Danse”, Henri Matisse

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

TEMPO: SAÍDA & ENTRADA

 

Miranda The Tempest

ANTONIO CARLOS SECCHIN


No tempo de minha avó,
meu feijão era mais sério.
Havia um ou dois óculos
me espiando atrás
de molduras roídas.
Mas eu era feliz,
dentro da criança
o outono dançava
enquanto pulgas vadias
dividiam os óculos.
Dentro da criança,
as pulgas espiavam
o outono vazio,
dividiam minhas molduras
roídas por óculos vadios.
No tempo de meu feijão
minha avó era mais séria.

*”Miranda, The Tempest”, John William Waterhouse

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

ORATE FRATRES

 

The Apotheosis Of Homer

FLÁVIO AGUIAR


No poço fundo do mundo
Encontrei minha bela irmã.
Aquela que nunca tive,
Aquela que não terei.
A vida se compra pronta,
O mundo roda sem festa.
Minha irmã tem cabelos longos
E traz um lunar na testa.
A beira do poço esquivo,
Hesito se pulo ou recuo.
No espelho claro e escuro
A lua a meus olhos uiva.

*”The Apotheosis Of Homer”, Jean Auguste Ingres

terça-feira, 20 de agosto de 2013

SIMULACRO DE UMA SOLIDÃO

 

The Magician

ANA CRISTINA CÉSAR


30 de agosto
Hoje roí cinco unhas até o sabugo e encontrei no cinema, vendo
Charles Chaplin e rindo às gargalhadas, de chinelos de couro,
um menino claro. Usei a toalha alheia e fui ao ginecologista.
9 de setembro
Tornei a aparar os cachos. Lúcifer insiste em se dar mal comigo;
não sei mais como manter a boa aparência. Minha
amiguinha me devolveu a luva. Já recebi o montante.
28 de agosto
Dia de festa e temporal. Aniversário da Tatiana. Abrimos os
armários de par em par. Não sei por que mas sempre que se
comemora alguma coisa titio fica tão apoplético. Acho que
secretamente ele quer que eu... (Não devia estar escrevendo
isto aqui. Podem apanhar o caderno e descobrir tudo.)
5 de agosto
Ainda não consegui fazer filosofia, versos, ou colar retratos aqui.

30 de janeiro
Que nostalgia no ar, meu Deus! Hoje fui à casa da Ana
levar um presentinho. Às vezes tenho a impressão de que
esses presentinhos constantes são um embaraço. Eu se fos -
se dona da casa não permitiria certas coisas. Me dá um ennui,
eu fico enjoada de ver tanta ignorância. Como as pessoas se
ignoram! Depois de todos esses meses Sérgio resolveu dar
o ar de sua graça.
8 de julho
Nós estamos em plena decadência. Eu e você estamos em
plena decadência. A nossa relação está em plena decadência.
Quando duas pessoas chegam a se dizer isso tranqüilamente,
é sinal de terra á vista. Nem tudo é um naufrágio
na vida. Mas um dia eu ainda me afogo no álcool.
30 de novembro
Rita marcou hora comigo e não apareceu. Há muito tempo
que eu não me sinto tão deprimida. Acho que vou ligar para a
9 de agosto
Primeira fotografia que deve entrar para o álbum: um entardecer
primaveril no Parque da Cidade. Preciso comprar cola.
Soube de fofocas em relação ao beijo de ontem. Como a
Tatiana está obcecada com as suas fantasias! Eu também
começo a me sentir envolvida. Queria voltar ao atelier, lei -
loar tudo se necessário. Mas sentir as mãos livres, os passos
soltos! Minha vida chega a um impasse.
10 de agosto
Estou lendo um manual de alemão prático. Tenho ido à praia.
Vi o Joel de manhã, com a mulher dele.
8 de julho
Recomecei a ginástica. Hoje quase me matei antes do almoço.
Fez um dia quente para a estação. Amanhã começo
o estudo com os gêmeos. Apesar de tudo eu tenho restrições.
Mas o que se há de fazer?

*”The Magician”, Hieronymus Bosch

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

BELLADONA, LADY OF THE ROCKS

 

The Trevi Fountain In Rome

GERALDO EDUARDO CARNEIRO

você pode mexer com as quatro cabeças
sem que elas tragam algum malefício
sem que elas exalem o cheiro terroso
das raízes
você pode mexer com as quatro cabeças
e ocultá-las sob o lençol
debaixo das telhas
você pode espremer as quatro cabeças
e fazer com que escorra seu caldo grosso
para dar de beber aos estranhos
para dar de beber à família
você pode dançar sobre as quatro cabeças
sem que sintam sua falta no Jantar de Bodas
sem que sintam sua falta
depois você se tranca no quarto
e põe um disco na vitrola

*”The Trevi Fountain”, Giovanni Battista Piranesi

domingo, 18 de agosto de 2013

POEMA ABSURDO

 

The Song Of The Lark

JOÃO CARLOS PÁDUA


Fechou o jornal:
A brasa do cigarro
Ficou intensamente rubra
Junto à janela
O olho do cinzeiro se
Fixou em seus pensamentos
A mão desceu até um pouco mais baixo
A noite começava a se debruçar
Sobre os edifícios
Voltou ao jornal:
Algo sobre uma dançarina de cabaré
Um crime talvez
Um marinheiro bêbado:
Caminha caía ensangüentada
O telefone tocou!
– alô!
– donde falam?
com quem deseja falar?
A voz rouca cuspiu alguns palavrões:
Alexandrino de merda!

*”The Song Of The Lark”,Arthur Rackam”

sábado, 17 de agosto de 2013

RELICÁRIO 74

 

Evening, Owens Lake, California

LUIZ OLAVO FONTES

ah vida ingrata
chovem gatos sapatos lagos
há dias
impedem minha ida à praia
remate de males
o verão desaba lerdo
dezembro natal frio como teus lábios
foi-se a namorada
fugiu com um polonês de butique
pra Petrópolis
é vislumbrar a felicidade e
levar a porrada
longo caminho da testa à terra
semana passada atolei no inferno
solidão me esganou
sem mais cartilagem todo morto
telefono pra mamãe combinamos
esquiar na Europa até março
ir a muitas boates
esquecer-te pelo menos lá tenho
Dominique Sanda que me ama

*”Evening,Owens Lake”, Albert Bierstadt

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

GOSSIPZ

 

Manet,19,fra, Le Citron 1880,orsay

EUDORO AUGUSTO

Emilia engordou
Valentina rasga o ventre
com a faca de pão.
Filipa se despenteia
para mais uma noite de pauleira

*”Le Citron”,Édouard Manet

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

LIVROS DE CONTOS

 

Boy Cutting Grass with a Sickle

WALY SAILORMOON

Alma emputecida
Sombra esquisita
Se esquiva
Entre
Laços de Família

*Boy Cutting Grass with Sickle, Vincent Van Gogh

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

DETONAÇÃO

 

Joan Miró - Landscape (The Hare)

RICARDO G. RAMOS

Reformador de estruturas
Falou o crítico
Educando
Sobre a ignorância falou o crítico
Ofendido
Armado até os dentes
“É preciso cultivar a divindade
Arrancar do coração o dejeto
Perdão! “Objeto”
Uma teoria espiritual
Certo, colossal!
E o pobre cavalo de ferro
Não desgasta Zé!
Sociedade anônima dá pé
No bolso do mundo patriarcal
Paisagístico
Nas entranhas metafísicas
A luta em vida dos opostos mortais
A gozar o sexo molhado e reprimido
Lido olhado ouvido esquecido

Esporeado anda... anda...
Desanda...
E anda...
Rumina a forragem escassa
Cagada do alto
Onde as estrelas iluminam
Ofuscam o assalto
Mudança empírica
Retirar o berço da menina de trança
Esplêndido!
Deixa cair o deitado eternamente
Em sono lento
Que parta a espinha
Pra não andar
Dobrar os joelhos
Pra não rezar
Das cinzas faz-se um novo modelo
De sangue pinta-se um quadro:
Uma paisagem continental por exemplo

*”Landscape” (The Hare), Joan Miró

DRÁCULA

Há 40 anos...