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sábado, 21 de dezembro de 2013

SINFONIA CAIPIRA (Veja nº663, 20/05/1981)


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                       O menestrel da caatinga canta a grande seca
                                       ROBERTO FERNANDES
Há poucos registros, na história oficial do Brasil, sobre a "noventinha" devastadora seca que assolou sete Estados nordestinos em 1890, dizimando boa parte de sua população.
Fiel à tradição de menestrel, o baiano Elomar Figueira Mello tem aproveitado sua peregrinação pela caatinga sul da Bahia, iniciada há oito anos, para contar o que sua avó Maricota lhe havia descrito sobre a estiagem e, ao mesmo tempo, ouvir novos relatos de sobreviventes da noventinha e seus descendentes. No início do ano passado, depois de noites de insônia com "os fantasmas rompendo o século e me pedindo para contar aquele combate entre a vida e a morte", Elomar resolveu utilizar o tema na gravação de seu quarto LP, FANTASIA LEIGA PARA UM RIO SECO, álbum duplo que conta ainda com a orquestra sinfônica da Bahia.
Aparentemente inusitada, a história do nascimento do disco é, na verdade, típica da carreira incomum de seu autor. Dividindo-se entre a canção popular e a criação de bodes nas margens do rio Gavião, no interior da Bahia, Elomar, 43 anos, vem conquistando importância na música brasileira por suas pesquisas das raízes musicais nordestinas. Mistura temas regionais com musica medieval, surpreende pela ousadia de suas propostas e pela determinação com que as divulga.

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AGILIDADE - Para recuperar episódios esquecidos da noventinha, Elomar inspirou-se principalmente nos depoimentos de Herculano Freitas, de 125 anos (!!), e Milquíades Lima, de 75, seus vizinhos do rio Gavião. Assim traçou em cinco cantos o perfil do "derradeiro retirante", que interpreta ao longo da obra com seu violão solitário. À orquestra coube transmitir o clima da caatinga atingida pela estiagem, retratando a desolação e o longo caminhar do personagem principal. O tema, em si, não traz novidades. Mas é a agilidade de Elomar como compositor que o torna renovado. Ele superpõe ritmos e arranca dos instrumentos sons onomatopaicos como gemidos e gritos de bodes.DSC00775
Nas letras, revela-se místico ao compor seu relato. Mistura imagens épicas a sua formação luterana, temperada com o profundo sentimento religioso do sertanejo. Nascido em Vitória da Conquista, ainda adolescente Elomar foi morar nas margens do rio Gavião, de onde saiu apenas para estudar Arquitetura em Salvador.
Formado, jamais exerceu a profissão e é radical em sua antipatia pelos centros urbanos. Prefere lançar-se a aventuras como a que planeja para julho próximo: junto com seus dois filhos, irá transportar, a pé, os 200 bodes da Fazenda Rio Gavião até a Fazenda Gameleira, outra de sua propriedade, distante 20 quilometros da primeira. "Vai levar dois dias e duas noites", conta ele entusiasmado. "E pretendo filmar toda a viagem..."

Para baixar:
http://www.acervoorigens.com/2011/07/elomar-fantasia-leiga-para-um-rio-seco.html

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

CARTA DO SATANÁS A ROBERTO CARLOS, Enéias Tavares Santos (Editora Luzeiro)

 

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Roberto Carlos cantando
Êsse seu disco moderno
Aonde diz que alguém venha
Aquecê-lo “neste inverno”,
E depois dele aquecido,
“Tudo o mais vá para o inferno”.

Há poucos dias,  por isso,
Uma carta recebeu
Que Satanás lhe mandou
Com medo do disco seu,
Vamos saber na missiva
O que foi que ele escreveu:

- “Inferno, corte das trevas,
Meu grande amigo Roberto,
Eu vi o seu novo disco
É muito bonito, é certo,
Mas cumprindo a sua ordem,
O mundo fica deserto.

Porque você está mandando
Todo mundo para aqui,
Se esse povo vier todo,
O que é que fica ali ?
Será o maior deserto
Que eu fico vendo daqui.

Mesmo porque no inferno
Não cabe mais esse povo,
Vai ficar tudo apinhado,
Apertado como um ovo
E eu sou forçado a mandar
Fazer um inferno novo.

Pois minha situação
Não está de brincadeira.
Não há safra nem dinheiro,
Só existe é quebradeira
Pare com esta cantiga
Que já me deu tremedeira.

Tem feito muito sucesso
Essa sua gravação
Mas eu já sofri até
Ataque do coração,
Porque aqui no inferno,
É de fazer compaixão.

Se para aqui vier tudo,
Eu fico mais apertado,
Pois o inferno já está
Por demais superlotado,
Você ganhando o dinheiro
E eu ficando aqui lascado.

Tenha de mim piedade
Pare com essa canção,
Deixe esse povo lá mesmo
Porque aqui no inferno
Tem gente até no portão.

Peço que o prezado amigo
Use de mais consciência
Pois aqui os meus recursos
Passam por deficiência,
Não me mande mais ninguém
Se não perco a paciência.

Só faz uma coisa dessa
Quem tem um mau pensamento,
Pois aqui não tenho mais
Comida nem aposento,
Tem trinta e duas mil almas
Só em um apartamento !

Só de moça quase nua
Tem seiscentas e dez mil,
Onde é que eu boto esse
Povo todo do Brasil ?
Por isso eu lhe peço amigo,
Pra que seja mais gentil !

Homem que bate em mulher
Tem pra mais de um milhão,
Mais de duzentos mil tarados,
(Entre rapaz e ancião),
Setecentos mil ladrões
Tem num pequeno galpão.

E quanto mais você canta
Ainda mais gente vem,
Só de moça depravada
Ontem chegou mil e cem,
Aqui já está de uma forma
Que não cabe mais ninguém.

Você diz que não suporta
Ela longe de você,
Eu que vou suportar
Tanta gente aqui, por quê ?
Que fique tudo lá mesmo
Cantando seu ABC.

O sofrer aqui é tanto
Que já estou de boca amarga
E breve no meu inferno
Faço uma porta tão larga
Que encho o mundo de diabos
Com a primeira descarga.

Aqui não tem mais lugar
Nem mesmo para um ateu,
O meu enorme fichário
Esta semana se encheu,
Os apertos deste inferno
Quem sabe mesmo sou eu.

Já na semana passada,
Chegaram quase um milhão
De motoristas “mão-grossa”
Que andam na contramão
Matando o povo na rua,
E  ficando sem punição !

Balconista que na loja
Só mede esticando o pano,
No inferno já entraram
Uns quinze mil este ano,
E de playboy já chegaram
Doze mil, se não me engano !

De batedor de carteir,
Ninguém pode mais somar,
Ladrão de galinha é tanto
Que não se pode contar
É um por cima do outro
E eu sem jeito para dar.

Filhos desobedientes
Que não respeitam seus pais,
Vive tudo amontoado
Dando suspiros e ais,
Com todos os quartos cheios,
Não tem onde botar mais.

E soldados que na feira
Aborrecem a folheteiro
Querendo cobrar imposto,
Lá no porão derradeiro,
Tem tantos que já estão
Exalando até mau cheiro.

Moça que vai para a rua
À noite depois da janta
E volta de madrugada,
No inferno já tem tanta
Que se eu for dizer o número,
Muita gente aí se espanta !
Poeta plagiador,
Também já tem um bocado,
E  também dono de venda
Que vende charque molhado,
Aqui dentro do inferno,
Vive tudo amontoado.

Homem de duas mulheres,
Aqui já tem com fartura,
Mulher que bebe cachaça,
Depois faz descompostura,
Tem mais de seiscentas mil
Bebendo fel de amargura !

Dono de sorveteria
Que pega um maracujá,
Faz dez litros de refresco
E diz que é o melhor que há,
Já tem uma soma enorme,
Nem mande mais para cá !

E açougueiro que vende
Carne com semblante duro,
Boa, sem osso, ao rico,
Ao pobre vende osso puro,
Por não ter mais onde bote,
Estou pondo no monturo.

Vendedor de amendoim
Que agarra um papelão,
Bota no fundo do litro
Para enganar seu irmão,
Tem cem mil dependurados
No derradeiro porão.

Viúva de poucos meses
Que anda toda pintada
Atrás de arranjar marido
E com saia bem ligada,
Essa eu já estou mandando
Procurar outra morada.

Xangozeiro aqui tem tanto
Que eu estou quase caduco,
Tem chegado da Bahia,
Guanabara e Pernambuco,
Enfim, do Brasil inteiro,
Eu vou terminar maluco !

De camelô de calçada
Estou com inferno cheio,
Neste inverno mesmo foi
Tanto camelô que veio
Que não tive onde botar
Passei um grande aperreio !

Pregador ganancioso
Que só prega por dinheiro,
Eu fiz galpão enorme
Mas encheu muito ligeiro,
E nem eu recebo mais
Cartomante e curandeiro !

Carregador chapeado
Que vive só explorando,
Ourives que vende ferro,
Aos tabaréns enganando,
Quem vende roubando o peso,
Desses eu estou me livrando !

Doutor que não examina
As doenças do cliente
E manda comprar remédio
Sem dizer o que ele sente,
Quando chega aqui cai logo
Num tacho de chumbo quente.

E tantos outros que vem
Que não posso descrever,
Porque meu tempo é pouco,
Tenho muito o que fazer
E mesmo aqui no inferno
Não há quem possa escrever.

Porque a zoada é tanta
Que deixa tudo aturdido,
Breve o meu inferno estoura,
Só se ouve o estampido
E eu vou ficar em farrapo
Pelos planetas perdido.

Portanto amigo Roberto
Tome em consideração
O pedido que lhe faço,
Acabe com essa gravação,
Não me mande mais ninguém,
Tenha de mim compaixão !

Mande tudo para o mar
Que lá cabe muita gente
Ou para um outro lugar
Do inferno bem diferente
Porque vindo para aqui
Não há Satanás que aguente !

Se não gostou do pedido,
Aqui não quis lhe agravar,
Tentei apenas fazer
Ao meu amigo chegar
Nesta carta o meu horror,
À mais cruciante dor,
Se não me crer venha olhar “.

             *

DRÁCULA

Há 40 anos...