PEPE ESCOBAR
LEGENDARY HEARTS – Lou Reed (vocal, guitarra), Robert Quine (guitarra), Fernando Saunders (baixo), Fred Maher (bateria). Produzido por Lou Reed. RCA.
Houve um tempo em que uma geração acreditava avançar em direção à luz. Depois, fatigada por uma marcha sem fim, se deixou deslizar. A terra, progressivamente menos firme, se abria. Antes enamorada das alturas, depois decepcionada, acabou por venerar a Queda, apressando-se a cumpri-la, instrumento de uma execução estranha, fascinada pela ilusão de tocar as fronteiras de seu destino noturno. O medo do vazio se transformou em voluptuosidade: que sorte evoluir no lado oposto do sol ! Sedenta de uma auréola negra, o Vazio foi o sonho invertido que se plasmou.
A viagem ao fundo da noite teve uma trilha sonora. E aquele cisne negro, filho da classe média, ex-estudante de literatura , o Super Freak, o Zumbi da Babilônia, a Máquina Biônica de Metal, o Vampiro de Coney island, foi um dos autores principais: Lou Reed, o Dr.Faustus da era do transe coletivo. O homem que vendeu a dignidade, a poesia e o rock’n’roll para a seringa, a speed, o homossexualismo, o sadomasoquismo, o crime, a misoginia, a passividade e depois orquestrou o caldeirão diabólico como uma monumental paródia, às vezes complacente demais.
Patético polimorfo perverso, punk avant la lettre ? Muito mais. Em 67, quando se cantava a inocente “With a Little Help From My Friends”, ele surgia dos esgotos de Nova York com uma ode ao Mal simplesmente intitulada “Heroína”. O Velvet Underground aveludava as mentes das vanguardas subterrâneas com seu instrumental staccato, violento, hipnótico, efeito droga/transe.
“Venus in Furs”, “European Son” , “Rock and Roll”, “Sweet Jane”, “Sister Ray” sugeriam um conhecimento transcendental absorvido por um preço terrível. Mas ao mesmo tempo tudo era muito irônico, envolto em um vocal fatigado , no cool inviolável de uma voz narrativa. Quando Andy Warhol, o descarnado sanguessuga da Arte como Mercadoria, começou a influenciar a mente do Príncipe das Trevas, as coisas mudaram.
Lou aprendeu como se tornar uma personalidade pública de sucesso vendendo suas idiossincrasias privadas para uma platéia cada vez mais ávida por viagens de todos os tipos. Encarnou em sua própria trip, adotou a figura do clown, alimentando-se do niilismo da geração dos anos 70 que não tinha coragem suficiente para se suicidar. Magnífico lance de dados: todo o conceito de decadência era uma piada. Qualquer idiota, no começo dos anos 70, podia ser um degenerado. Mas poucos, como Lou e Jim Morrison, perceberam o absurdo implícito na postura de bête noire do rock and roll. O único caminho possível era a parodia e a desglamurização.
Caminho de torturas tântalas. Clássicos instantâneos, como “Vicious”, “Walk on The Wild Side” e o álbum “Berlin”, o primeiro na história do rock proibido para menores, o “Sgt. Peppers” em reverso da década de 70.
Bobagens, como “Sally Can’t Dance”, dois LPs ao vivo antológicos: Lou é sem dúvida o animal feroz do rock and roll, mas seu instinto às vezes o engana. Até que o meio da década cospe ao mundo uma obra-prima: “Coney Island Baby”, um hino sobre a coragem, a derrota e o alto preço pago por um outsider pela sua maneira de viver. Lou estava exprimindo – agora sem paródia – o sonho mais profundo dos malditos, e a perda era ainda mais intensa porque ele e nós sabíamos que esses desejos eram impossíveis desde o início. Ele nos lembrava de tudo. E isso doía fundo, mais uma vez, doía no fundo da alma.
Depois sobrou apenas autocomplacência e cinismo barato. Lou perdeu o controle sobre sua voz e sua música. Repetição. Reclusão. Introspecção. Até surgir um auto-retrato do artista na maturidade possível.
Lou resolve se casar, e começa a promover as virtudes da paz doméstica – antes costumava andar com uma “coisa” de sexo sempre indefinido. Assume o controle de sua produção montando uma afiadíssima banda de rock: um guitarrista de estilo muito pessoal, exímio conhecedor de sua fase Velvet Underground; um baterista preciso, com um feeling admirável para o rock and roll sem adornos; e um baixista com passagens pelo jazz rock, melódico, sem nunca tocar duas notas quando só uma basta. O punch de uma banda punk mas com um nível musical extraordinariamente alto.
“Legendary Hearts” expande tudo que já se encontrava em “The Blue Mask”, o álbum de 1982. A banda faz o strip-tease de um soul (“Can’t Seem to Make Up My Mind”), um sofisticado travesti de funk (“Martial Law”, onde Lou parece um Bo Diddley pós-moderno), o baixo segura toda a linha melódica em “Don’t Talk To Me About Work” enquanto as guitarras ficam se arranhando no background. Lou Reed , o marido apaixonado, confronta-se com Lou Reed, o monstro autodestrutivo. Ele nos lembra, depois de preparar um clima zen no início do disco, que “nenhum amor lendário/ vai surgir das alturas/ está aqui, agora, nesta sala”.
Depois de tudo, de todas as loucuras, só resta a certeza, para os sobreviventes, de lutar para manter o amor que finalmente encontraram . Os que ficaram no meio do caminho são lembrados em “Home of The Brave” – concluída com uma antológica citação do clássico pop “Everyday I Have To Cry” (“todo dia tenho que chorar um pouco/ todo dia tenho que morrer um pouco”). O resultado é dilacerante.
Nada mais conseqüente. Afinal, a vida é o que se decompõe a todo momento: uma perda monótona de luz, uma dissolução insípida na noite, sem cetros ou auréolas. E a verdadeira loucura não se deve a azares ou desastres do cérebro, mas à concepção falsa do espaço que forja o coração. Lou , como alguns outros, viu que uma alma só se engrandece pela quantidade insuportável que assume. Por isso, é muito difícil compartilhar a pele, a imaginação e o som destes corações lendários sem deixar sangrar algumas lágrimas de amor, furor e esperança.
O Lou sempre assumiu este lado personagem de pulp fiction. Os críticos enxergam no trabalho dele um apuro literário que o meu inglês claudicante ainda não conseguiu apurar.