Zemeckis é o homem que já nos levou De Volta Para o Futuro e agora nos leva Além da Imaginação pela mão (ou pata) de um coelho histérico e uma vamp de acetato.
PEPE ESCOBAR
Uma Cilada para Roger Rabbit não é apenas o primeiro cartoon noir da história do cinema. Não é apenas o primeiro filme onde personagens de desenho animado convivem - no mesmo plano, na mesma imagem, durante todo o filme - com atores reais. Não é apenas a maior invenção de Hollywood desde, justamente, os filmes noir e os cartoons. Uma Cilada para Roger Rabbit é o prazer supremo do cinema-espetáculo.
1 035 efeitos óticos, 300 desenhistas trabalhando em tempo integral durante dois anos, supervisionados pelo canadense- londrino Richard Williams (ex-Pantera Cor-de-Rosa). 1 440 desenhos necessários para uma cena de apenas dez segundos. 56 minutos de animação. Cinco meses de filmagens. Pós-produção interminável, incluindo efeitos especiais na Industrial Light & Magic, de George Lucas. Associação olímpica: estúdios Disney ("Nós éramos moralmente obrigados a fazer esse filme"), Steven Spielberg, George Lucas e Robert Back to the Future Zemeckis na direção. Colaboração de todos os grandes estúdios. Orçamento guerra-estelar de 45 milhões de dólares. Roger Rabbit causa furor na América desde sua aparição no auge do verão. Causou prazer destrambelhado à crítica do mundo inteiro em sua pré-estréia européia no Festival de Veneza, em setembro. Não poderia ser diferente. Roger Rabbit, o filme, tem Bob Hoskins como um êmulo de Philip Marlowe na Hollywood de 1947, sua sensual amiga Dolores, um produtor alucinado de desenhos animados (R.K. Maroon), um vilão (Doom), um coelho histérico (Roger Rabbit - o Pernalonga desta época), uma pin-up apoteose-do-pincel-erótico (Jessica) e a vida inimaginável dos toons - ou seja, os personagens de desenho animado, que vivem em um gueto, Toontown, trabalhando todos no cinema, e que estão, como nós, sujeitos a uma afinidade de caprichos e problemas com suas vidas privadas.
O enredo de Roger Rabbit é inenarrável. E este não é o ponto. O ponto é se submeter a este maelstrom de fantasia onde desenhos frente a câmeras em constante movimento assumem uma amplitude e um volume jamais vistos no cinema, onde uma pin-up com voz de máxima carga lúbrica pode dizer "eu não sou uma bad girl. É, só que me desenharam assim...", e onde um ator (Bob Hoskins) foi capaz de ficar meses falando sozinho em sets de filmagem, falando com toons imaginários que depois seriam criados em pranchas miraculosas.
BIZZ - Como você resumiria Uma Cilada para Roger Rabbit para quem ainda não viu ofilme?
Robert Zemeckis - Uma Cilada para Roger Rabbit é a história de um homem, uma mulher e um coelho envolvidos em um triângulo de problemas. Personagens reais e desenhos animados vivem e trabalham lado a lado no coração de Hollywood e se cruzam em um filme sobre o delito, a avidez, o sexo, a corrupção e os cartoons.
BIZZ - Como se organizou, passo a passo, o processo de filmagem?
Zemeckis - Primeiro filmamos todos os planos de ação ao vivo. Tínhamos que imaginar toda a animação. Para ajudar, tínhamos as vozes dos personagens de cartoon no set. Depois da fotografia principal, o filme foi editado em Los Angeles e gravamos as vozes dos cartoons na trilha. Cada fotograma passou pelo fotostato e foi ampliado. Richard Williams (o diretor de animação), a partir daí, pôde começar os desenhos e mesclá-los à ação dos atores. Toda a filmagem da animação foi depois para São Francisco, onde a Industrial Light & Magic a mixou com os efeitos especiais. Um trabalho extenuante.
BIZZ - Foi sua, desde o início, a idéia técnica de mesclar o jogo de atores com a loucura dos desenhos animados? Como vocês fizeram para contornar as dificuldades técnicas?
Zemeckis - O meu objetivo básico era juntar três coisas: a articulação dos desenhos de Disney, os personagens dos "shorts" animados da Warner Brothers e o humor de Tex Avery, porém menos brutal. Eu queria toda a dimensão desses três estilos. Tivemos sorte de contar com uma das melhores equipes técnicas já montadas no cinema. Não se pode dizer que tivemos dificuldades. Era gente no ponto exato e no máximo de suas carreiras, sempre enfrentando um desafio. Quando nos perguntávamos: "Como é que se faz isso?", não podíamos nunca nos remeter a qualquer outro filme como referência.
BIZZ - Muitos vão tentar reduzir o filme ao filão cinematográfico de nostalgia dos anos 40 e 50. O que você acha disso?
Zemeckis - Eu não acho que exista na América uma tendência a prestar homenagem aos filmes do passado. Em relação a este filme em particular, a idéia era combinar dois elementos da história do cinema americano: o filme noir e os cartoons malucos. As duas formas me interessam muito. O filme noir - como os cartoons - foi uma das grandes invenções de Hollywood.
BIZZ - Daí a mulher fatal e o detetive cheio de problemas...
Zemeckis - Sim. Jessica foi baseada em um tipo de pin-up e de desenho de pin-up dos anos 40. Tem três modelos: Veronica Lake, Lauren Bacall e Rita Hayworth. O mesmo vale para o detetive Eddie Valiant. O bom desse filme é que, se você está imerso na história do cinema, vai encontrar uma série de piadas e citações. E, mesmo se não está, ele é capaz de atingir todo tipo de público.
BIZZ - Você não perdeu os cabelos com o custo dessa epopéia?
Zemeckis - Em março deste ano, estava em 32 milhões de dólares. Foi quando eu parei de perguntar para os contadores (o custo total foi 45 milhões). Essa forma de arte é labourintensive. Nunca o cinema teve artistas desenhando todo e qualquer fotograma. Nos filmes de Disney, desenhavam um sim e outro não. Nesse, tinham que desenhar todos, porque a câmera está em movimento o tempo todo. Esse filme, tecnicamente, é o mais elaborado até hoje. O cartoon inicial, de três minutos e meio, é uma celebração desse tipo de animação, mas com uma sensibilidade diferente.
BIZZ - O plano-seqüência inicial é ... de tirar a respiração. Tem movimentos de câmera de uma sofisticação fora do comum. Que câmeras e lentes vocês usaram? Como conseguiram essa magia?
Zemeckis - Eu não me lembro de quais as lentes que nós usamos, as suas especificações técnicas. Usamos duas câmeras desenvolvidas especialmente para este projeto. Filmamos em Vista Vision 1:8:5, com lentes esféricas. A imagem é bastante sharp. Em uma só tomada, sem edição, a câmera indo e vindo, temos o efeito desejado, que é o de provocar imediatamente, no espectador, a suspensão de qualquer possibilidade de ele não acreditar no que está vendo.
Bizz - Como você analisa a condição atual dos desenhos animados, com o boom japonês na TV?
Zemeckis - Eu não gosto particularmente do mecanicismo dos cartoons japoneses. No meu tempo, os cartoons eram a grande celebração de sábado de manhã na vida de um garoto. A minha crítica aos cartoons modernos é a animação limitada e ao fato de os personagens raramente se movimentarem. É um problema acima de tudo econômico. Para fazer um show de TV de meia hora a um custo efetivo, a animação deve ser cada vez mais pobre. E o que chamamos poor animation. Em Roger Rabbit os desenhistas faziam dez pés (cerca de três metros) de animação por semana. Na animação para a TV, devem fazer pelo menos noventa pés (cerca de 27 metros). Em certas cenas de Roger Rabbit chegamos até mesmo a apenas três pés por semana, como na cena em que as balas de revólver saem em perseguição.
Bizz - São muito interessantes alguns temas laterais de Roger Rabbit, relativos à especulação imobiliária ao avanço dos grandes conglomerados. As brincadeiras subversivas são suas, aos roteiristas ou já estavam no romance original de Gary Wolf?
Zemeckis - É uma mistura. Me interessam muito os subtextos: nesse caso, como o progresso mudou a face de Hollywood para o mundo. A ação do filme transcorre no momento em que se está removendo o transporte público de Los Angeles. A partir disso começamos a brincar com a idéia de um gigantesco e diabólico complô organizado por poderes interessados em cobrir a cidade de freeways e milhões de carros...
Bizz - Sua maneira de fazer cinema privilegia grandes espaços e é muito próxima dos cartoons. Você diria que com Roger Rabbit fez um cartoon adulto? Ou rejuvenesceu o cinema de ação?
Zemeckis - Eu sempre considerei que o humor do cinema animado não deveria ser uma exclusividade do público infantil. É um sentimento que tem se desenvolvido nesses últimos tempos. O cinema de ação deve ter um apelo tanto para adultos quanto para gente jovem.
BIZZ- Para encerrar, três curiosidades. Sem Spielberg esse filme jamais teria sido feito? Quem escolheu a voz de Jessica - tão sedutora quanto a pin-up desenhada? E como você escolheu o elenco?
Zemeckis - Esse filme só seria perfeito se combinasse personagens de desenhos animados de diversos estúdios. Só mesmo alguém com o poder de negociar diretamente, e com autoridade, com Warner Brothers, Disney, Universal, Paramount, como Steven, poderia nos conseguir os direitos de utilização. Jessica tem duas vozes. A voz do diálogo é de Katheleen Turner - que não cobrou nada pela sua participação. A voz da Jessica cantora é de Amy Irving (também senhora Spielberg). A pesquisa de casting levou muito em conta as vozes dos atores. Eles deveriam ser capazes de uma complete performance: projetar-se ao espectador usando apenas a voz. É preciso muito talento para isso. Vozes são muito difíceis de escalar. Quanto a Bob Hoskins, eu o escolhi por causa de sua performance em Mona Lisa. E o nosso homem mau, Doom, só poderia ser Christopher Lloyd (o cientista louco de De Volta para o Futuro). Ele sempre está mudando de rosto. Ninguém sabe como é a cara - e a atitude - do verdadeiro Christopher Lloyd...
O primo mais novo do Pernalonga.