Rolling Stone (Milão) 07/04/87
PEPE ESCOBAR
Um menininho malvado, indisciplinado, mesquinho, um poço de vício e, ainda por cima, perseguido pela tragédia. E o juízo de uma certa sr. Lewis -quarentona hoje estabelecida em Atlanta, Geórgia - a respeito do sr. Lewis. Ela deve saber do que está falando. Ela é a "mulher do escândalo", a terceira das seis esposas do sr. Lewis. E ele, ah, ele é nada mais, nada menos do que o killer, o próprio, o verdadeiro, único e insubstituível rebelde sem causa: Mr. Jerry Lee Lewis. A vida do killer daria uma imbatível superprodução na linha "Uma Tragédia Americana". Poderia abrir na mitológica Memphis, Tennessee, com Jerryzinho batendo na porta da não menos mitológica Sun Records. 56: o furacão Elvis já foi para a RCA e Jerryzinho se torna na prática o seu sucessor na Sun. Cuidado com ele: ele é o killer, o agressor de pianos, o coiote furioso do boogie-woogie e do rock´n´roll. E quando em 57 estoura aquele cult dos cults "Come on over baby. whole lotta shakin´ goin´on..."...
O resto é história e tragédia. No auge da glória, aos 22, o killer casa com a priminha, uma Lolita de 13 aninhos. Fatal transgressão. O sistema faz de tudo para destruir o herético. Mas o killer sobrevive - e sobreviveu,todos esses anos, mas a que preço...
Um filho morreu em um acidente de carro, outro afogado. Uma mulher morreu na piscina, outra de overdose. O killer levou a lenda ao pé da letra e matou um baixista de sua banda - por engano... Viveu anos bêbado e drogado. Direto. Em 81, quase morreu de úlcera perfurada. Mas um killer de elite jamais se entrega.
Emoção do cacete, ver aquele cinqüentão com cara de brabo entrar no palco de uma espelhada disco milanesa, para reverência de casais rockabilly, senhores calvos de terno recém-saídos da Bolsa, senhoras profissionais de sucesso - um público de verdadeiros filhos do rock´n´roll (leitores, onde vocês estavam em 57?)... Bota preta, jeans, casaco de couro, camisa branca depois arregaçada: o killer ainda é o Monarca Rockabilly. Atrás, uma banda que parecia diretamente saída de Nashville.
Sabe lá a profana família o que vai pela cabeça do killer. Turbilhões profundos, negros, the dark side ai a thousand moons... É um concerto, no mínimo, extremamente irregular. Ele chuta o monitor, entra em um boogie, muda de idéia e vai para um country, a banda tenta segui-lo sem sucesso, ele sola e pára,levanta, muda de idéia, volta e maltrata o piano, reclama do som - está mesmo abafado - . Quando entra em " High School Confidential", é um tumulto: a moçada endoidece e parece que tudo vai explodir. Mas Jerry engata com uma versão de "Over the Rainbow" com violino lacrimoso e clima de arrasta-pé domingueiro no Alabama... O country chega a ser impecável - como uma versão de "This Heart of Mine" - mas todo mundo urra as tripas por rock´n´roll. Não adianta: a raiz do killer é country, foi o country que o salvou das trevas, é country que ele tem tocado nos últimos anos. Rock´n´roll é uma concessão outorgada pelo mito.
Não teve "Breathless". Mas teve "Great Balls of Fire". E, no final, guardada como um tesouro, o killer malvado pronunciou as palavras mágicas e abriu sua caixa de Pandora - diamantes e sêmen: "Come on over, baby..." Hecatombe. Aquele raio que Zeus manda lá das suas reinações olímpicas e comanda: Que o êxtase esteja convosco, humanos!" (voz irônico-tonitroante). O killer, possesso levanta-se, toca de pé, toca com a bunda, bate na madeira maso do Steínway de cauda, fecha o punho e empurra o braço para a frente e para trás, queima energia, suas duas backing vocais entram em um "shake baby, shake" de tremer tumba... e o lendário killer sai de cena, com o casaco de couro nas costas, como o último Cassius Clay do rockn´roll...
Grandes bolas de fogo !