Cabeça dos cabeças-falantes em uma entrevista transoceânica com PEPE ESCOBAR
Aqui, Londres. Do outro lado, Nova York. No meio, um oceano, um satélite e um fio de voz anasalado, quase esquizo, entre o sotaque nova-iorquino e um delay caipira. Difícil encontrar essa voz: quase um mês de articulações. Mas é ele mesmo, David Byrne, 33 anos, escocês on the rocks, criado na aprazível Maryland, EUA, terra da promissão. É um louco? É um gênio? Mais para uma terceira via - budista e ao mesmo tempo, simploriamente, made in USA. Um homem simples, tão dividido quanto a taxa de praxe concedida à raça humana.
David Byrne. A face visível - e absolutamente elusiva - dos desconcertantes Talking Heads. O homem que apareceu em 77 com uma canção, Psycho Killer, construída em esquema Alice Cooper, e interpretada de uma maneira tão far out que virou hino de (pós-trans-hiper-mega-anti) vanguardas de todas as latitudes. O homem que melhor conseguiu transpor a demência uterina da América em pop songs assobiáveis e dançáveis. O homem que com Remain in Light redescobriu a África para o mundo branco o estruturou o álbum pop afro-amenicano mais influente entre jazzistas sérios de também todas as latitudes. O homem que vendeu sua esquizofrenia como uma obra de arte da maneira mais inteligente, no universo pop, desde as primeiras manipulações de Bowie. O homem cujos vídeos são patrimônio do Museu do Arte Moderna de Nova York. O homem responsável, junto com o diretor Jonathan Demme, pela melhor performance pop já levada à tela (Stop Making Sense). O homem que revirou os sons do mundo com Brian Eno, revirou o teatro com Bob Wilson, revirou a composição para balé com Twyla Tharp...
BIZZ - Esse papo tem um objetivo primordial - entre tantos outros. Demonstrar para uma moçada lá no Brasil que você não é um mito. Seu tema atual são "histórias reais", do jeito que você já as tratava nas suas canções. Como é que isso foi parar no cinema?
Byrne - Há alguns anos eu venho colecionando histórias estranhas, bizarras, entre todos os jornais e revistas que leio. Elas formam a base de True Stories, o filme. Demorei dois anos para colocar esse projeto em pé. Depois, com a equipe, demoramos dois meses em filmagem. Em resumo, trata-se de uma série de histórias estranhas que acontecem em torno, e relativas, às pessoas residentes em uma cidade imaginária, Virgil, Texas.
BIZZ - Fale um pouco dos personagens.
Byrne - Tem um monte de gente, parece uma história em quadrinhos... Entre os principais, há a Mulher Mais Preguiçosa do Mundo, que há décadas não abandona a sua cama. O Sr. Tucker, seu criado, que fica o tempo todo evitando um robô, que vive dentro da casa, e à noite faz cerimônias de vudu em um santuário no fundo do quintal. A Mulher Mentirosa, que nasceu com um rabo mágico, sabe a verdadeira razão do assassinato do presidente Kennedy, e compôs quase todas as músicas que Elvis Presley cantou na sua carreira. Há um personagem que lê os traços da personalidade das pessoas, torcendo os seus narizes. Há o Solitário com Fome de Amor: ele tem um neon em sua casa, onde está escrito "Procura-se Esposa", e também um comercial na TV - no final aparece: "Ligue Freefone 544 WIFE".
BIZZ - Então nada disso saiu de - sua cabeça? Existiu na vida real?
Byrne - Todas as situações são baseadas em acontecimentos reais.
BIZZ - Como você montou o filme na sua cabeça, quando a idéia começou a deslanchar?
Byrne - Eu tinha uma parede cheia de recortes de jornais, que representavam certas cenas, mas nada organizado ainda como um roteiro, com cenas etc... A partir disso introduzi a figura de um narrador, e se armou uma estrutura, onde o personagem principal, que eu interpreto, entra na cidade, encontra os outros personagens e eles montam um show ao ar livre.
BIZZ - Supondo que deva ter havido farta pesquisa em cima dessas "histórias", e uma adaptação para a tela, até que ponto essas histórias são importantes? Você as colocou na tela porque, no fundo, vê nelas significados adicionais?
Byrne - Eu não vivo em função dessas histórias, eu apenas gosto de saber que elas existem. A maioria é absolutamente ridícula, daí o seu humor. No fundo, acho que todas elas dizem alguma coisa que não está assim tão óbvia.
BIZZ - Como você lida com a questão da moralidade? A América basicamente ainda é um imenso império puritano. É por causa disso que seu filme não tem julgamentos morais sobre nenhum personagem, é neutro?
Byrne - Eu decidi desde o início não tocar em sexo, política e violência, porque todo mundo que vai ao cinema já tem suas opiniões preconcebidas sobre esses temas. Meu principal problema era construir personagens que fossem "reais", que envolvessem emocionalmente a platéia. Sempre achei que é melhor para a platéia, e muito mais divertido, quando ela descobre as coisas por si mesma e faz seu próprio juízo sobre os personagens.
BIZZ - A América, lá dentro, parece mesmo uma alucinação. Parece que a única coisa que existe no mundo são shopping centers, estacionamentos, siglas de multicorporações e o zumbido da mídia, especialmente da tela da TV. Para não falar do comportamento standard da classe média. Você acha que seu filme é apenas um xerox da realidade, ou existe algo mais além?
Byrne - Eu acho que a minha é uma visão utópica. Claro que essas enormes corporações estão presentes na vida de todas as pessoas. Mas eu acho que a minha visão é otimista em relação a isso. Eu gosto desse pessoal...
BIZZ - O que você acha desse neonacionalismo reaganiano, linha Rambo-é-que-está-com-a-razão?
Byrne - É um truque. É assustador que a maioria das pessoas queira tanto acreditar que isso é verdade. Acho que o governo dos EUA está vendendo o país. As pessoas é que são a verdadeira riqueza do país. Todo império em retração entra em uma jogada muito estranha. Egito, Roma, Espanha, e os EUA agora. Eles sentem nostalgia pelo que foram, porque estão vendo que isso está acabando. A América sempre teve o dinheiro que quis, durante muito tempo. No Texas, o dinheiro saía do chão, jorrava do chão. Quando acabou o trabalho escravo, barato, a América importou mais, do exterior. A expansão acabou. A realidade é outra, e bem mais dura.
BIZZ - Na sua opinião, o que é mais triste, patético e terrível, tanto na vida real da imensa massa suburbana quanto nesse filme?
Byrne - O que acontece na cidadezinha de Virgil é típico da América. Gente simples de interior, anônima, perdida no meio de um vasto continente que não consegue controlar, busca sua afirmação inventando uma característica muito "especial". Ninguém, nem mesmo as corporações gigantescas, pode impedir um sujeito de chegar e gritar: "Alô, todo mundo aí, eu sou o homem que tem uma casa coberta de latas de cerveja amassadas".
BIZZ - O patético, então, é o tema-chave dessas histórias?
Byrne - Pode ser, depende da maneira com que são encaradas. Mas acho que é um tremendo ato de coragem dessas pessoas. Elas constroem sua vida a partir do nada. E a transformam em uma obra de arte. E uma arte mais pura do que a criada por muita gente sofisticada.
BIZZ - Uma curiosidade: você se amarra nos filmes feitos ou produzidos por Roger Corman?
Byrne - Sim, claro. Vi a maioria.
BIZZ - Então você deve gostar de monstrinhos absurdos. O filme chega a ter um monstrinho - um pastor fundamentalista, paranóico, que fica falando absurdos em cima de uma batida funk. É apenas um monstro, ou tem um papel especial?
Byrne - Minha intenção não foi apresentá-lo apenas como monstro, mas como um sintoma do sentimento de impotência dos habitantes da cidadezinha. Essas pessoas sentem que o mundo, a mídia, tudo que existe em sua volta está fora de seu controle. Elas acham que tudo é uma enorme conspiração para lhes tirar o sossego. Não conseguem achar o mínimo de sentido em um mundo tão complexo e incontrolável.
BIZZ - Você, particularmente já chegou a ter uma fé em algo que esclarecesse o mundo - seja religião ou uma doutrina política?
Byrne - Eu fui obrigado a ir à igreja por um bom tempo, mas não agüentei. O que me interessa nas religiões são os rituais milenares. As pessoas hoje não ligam mais para isso.
BIZZ - Em essência, você acredita no quê?
Byrne - Coisas práticas, tangíveis, demonstráveis.
BIZZ - No filme você é diretor, roteirista, ator e também fez a trilha sonora. Prince também quis fazer de tudo e deu aquele lixo, Under the Cherry Moon. Sting de vez em quando aceita uns roteiros horríveis. Bowie entra em frias tipo Labirinto. Você acha que a sua experiência tem semelhança com a deles? Ou é mais cínica?
Byrne - Nesse filme, ninguém está sendo enganado. Por exemplo, os Talking Heads são embalados em papel de presente. É um jogo com a idéia de que também somos vistos pelo público como um produto. Nós somos um produto, é claro: produzimos pedaços de plásticos e depois tentamos convencer as pessoas a comprá-los.
BIZZ - As canções de True Stories foram escritas para os personagens do filme, e não especificamente para os Talking Heads, não é?
Byrne - Elas foram escritas para os personagens. O LP de estúdio é como se fosse uma segunda versão, a minha interpretação em cima delas. No filme, apenas uma das músicas é tocada pela banda. As outras ou são cantadas pelos atores em playback, ou são tocadas por atores músicos, ou são cantadas por atores em cima de uma trilha instrumental do Talking Heads.
BIZZ - Por isso resolveu lançar dois LPs, o do filme e o do estúdio?
Byrne - Sim, porque são completamente diferentes.
BIZZ - Você cultua bubble gum music, ritmos africanos, música oriental, country, concreta... E música brasileira? Você ouve, conhece?
Byrne - O que mais escuto atualmente é música da América Latina - cubana e brasileira, em especial. Não só nomes conhecidos, mas os ritmos. No rádio, escuto praticamente só country music. Quanto à música pop, não é preciso procurá-la mais. Está em qualquer lugar, a qualquer hora.
BIZZ - Tina e Chris Franz foram ao Brasil com os B-52 e se amarraram. Você pretende um dia fazer a viagem?
Byrne - Sim, claro, é só talvez passar a campanha de lançamento do filme e dos discos.
BIZZ - Depois de Stop Making Sense a banda praticamente não tocou mais ao vivo. O filme significou o fim definitivo de uma fase? Talking Heads, depois dessa aventura cinematográfica, voltam à estrada?
Byrne - Agora, o ritmo da banda e sua maneira de encarar uma apresentação ao vivo são completamente diferentes. Estamos pensando em soluções novas - e sem repetir as performances das músicas mais antigas. Vamos voltar a tocar ao vivo, é claro.
BIZZ - Você tinha fama - ou lhe atribuíram a fama - de ser um esquizo, ainda por cima inacessível, inabordável. Parece que isso mudou. E o velho tema do amadurecimento depois dos 30?
Byrne - Pode ser. Comecei a gostar de uma série de coisas que não suportava. Fiquei mais calmo. Não tem mistério, a vida é assim mesmo.
Um dos filmes mais importantes da época. Para entender a música e o povo americano. Poesia em forma de videoclipe.