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sábado, 8 de março de 2014

A LOJA DE MARIDOS (Canal do Búfalo, 12/12/2013)


marido
(pego pela internet)
Uma loja de maridos acaba de abrir na cidade, onde uma mulher pode chegar e escolher um homem entre vários disponíveis para ser seu marido. A loja é composta de 6 andares, e os homens melhoram em seus atributos a cada vez que se sobe um andar. Mas há um pequeno problema. Assim que você entra em um andar você pode escolher qualquer um dos homens disponíveis naquele andar, mas se você subir ao próximo andar você não pode voltar ao anterior, a não ser que queira sair da loja. Então uma mulher resolveu ir nessa loja para comprar um marido.
No primeiro andar havia uma placa na porta que dizia: “Primeiro Andar – Estes homens são trabalhadores”. A mulher lê a placa e pensa consigo, “Bem, pelo menos os homens deste andar são melhores que o meu último namorado, aquele vagabundo. Mas o que será que tem mais para cima?” E então ela sobe as escadas.
No segundo andar, uma placa informava: “Segundo Andar – Estes homens são trabalhadores e amam crianças”. A mulher vê aquilo e pensa, “Isto é ótimo, mas fico imaginando o que será que tem mais para cima?” E ela sobe as escadas mais uma vez.
No terceiro andar, mais uma placa: “Terceiro andar - Estes homens são trabalhadores, amam crianças e são lindos”. “Hmmm, muito melhor” ela diz. “Mas o que será que tem no andar de cima?”
No quarto andar: “Quarto Andar - Estes homens são trabalhadores, amam crianças, são lindos e ajudam com as tarefas de casa”. “Nossa! ” a mulher se impressiona, “Isto é tentador! MAS! Vamos ver o que tem mais para cima!” E ela sobe mais um lance de escadas.
No quinto andar, a mesma placa: “Quinto Andar - Estes homens são trabalhadores, amam crianças, são lindos, ajudam com as tarefas de casa e são muito românticos”. “Isto só pode ser um sonho! Mas vejamos… o que será que me aguarda no último andar?” E ela sobe o lance de escadas final.
E no último andar, a placa diz: “Sexto Andar – Você é a visitante nº 3,456,789,012 deste andar. Não há homens neste andar. Este pavimento só existe apenas para provar que as mulheres não se contentam com nada. Obrigado por visitar a Loja de Maridos e tenha um bom dia!”







segunda-feira, 5 de novembro de 2012

UMA VELA A APAGAR-SE


António Torrado  escreveu e
Cristina Malaquias  ilustrou
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Era uma vela, uma única vela que alumiava
debilmente um quarto. A longa língua rubra da vela estremecia, enquanto ela falava:
– Vou morrer, não tarda. Em vão, porque a minha chama não deu luz a nada que merecesse a pena. Nem testemunhei
o nascimento de uma criança nem realcei um beijo de amor nem inspirei o poema de um poeta. Podia ter sido o minúsculo farol que ajudasse alguém a ir ter com alguém,
mas nenhum vulto quis pegar no meu castiçal solitário. Sou uma inútil.
E a vela, a extinguir-se, desfazia-se em lágrimas de cera.
Mas um leve ruído, vindo do corredor, alvoraçou-lhe os últimos lampejos.
Era um ladrão, que, guiado pela luz da vela, se preparava para levantar a tampa de uma arca que guardaria, decerto, algum tesouro.A vela viu tudo, num relance.
Nada já podia, porque o pavio, que sustenta a chama, se afundava no pequeno lago de cera da vela a desfazer-se, a apagar-se, de vez.
E eis que, de repente, escureceu. O ladrão sobressaltou--se e, sem luz para guiá-lo, tropeçou numa esteira, que deslocou uma cadeira, que tombou sobre uma prateleira, cheia de livros. Alguns caíram, fazendo imenso barulho.
– Quem está aí? – gritou uma voz forte de alguém, que o barulho acordara.
O visitante furtivo preferiu não responder e fugiu, deitando ao chão mais cadeiras e estantes, num grande atarantamento. Desceu uma escada, correu por um jardim, saltou um muro e ainda ouviu gritos e o estampido de uma caçadeira, à conta dele.
Não fosse ter-se apagado a vela, que se julgava inútil, e
a história teria sido diferente.
                                       FIM

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

APRENDENDO A ESCREVER (O Globo, 03/02/2011)



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OLAVO DE CARVALHO
É lendo que se aprende a escrever - eis o tipo mesmo da fórmula sintética que traz dentro muitas verdades, mas que de tão repetida acaba valendo por si mesma, como um fetiche, esvaziada daqueles conteúdos valiosos que, para ser apreendidos, requereriam que a fórmula fosse antes negada e relativizada dialeticamente do que aceita sem mais nem menos.
Ler, sim, mas ler o quê? E basta ler ou é preciso fazer algo mais com o que se lê? Quando a fórmula passa a substituir estas duas perguntas em vez de suscitá-las, ela já não vale mais nada.
A seleção das leituras supõe muitas leituras, e não haveria saída deste círculo vicioso sem a distinção de dois tipos: as leituras de mera inspeção conduzem à escolha de um certo número de títulos para leitura atenta e aprofundada. É esta que ensina a escrever, mas não se chega a esta sem aquela. Aquela, por sua vez, supõe a busca e a consulta. Não há, pois, leitura séria sem o domínio das cronologias, bibliografias, enciclopédias, resenhas históricas gerais. O sujeito que nunca tenha lido um livro até o fim, mas que de tanto vasculhar índices e arquivos tenha adquirido uma visão sistêmica do que deve ler nos anos seguintes, já é um homem mais culto do que aquele que, de cara, tenha mergulhado na "Divina Comédia" ou na "Crítica da Razão Pura" sem saber de onde saíram nem por que as está lendo.
Mas há também aquilo que, se não me engano, foi Borges quem disse: "Para compreender um único livro, é preciso ter lido muitos livros." A arte de ler é uma operação simultânea em dois planos, como num retrato onde o pintor tivesse de trabalhar ao mesmo tempo os detalhes da frente e as linhas do fundo. A diferença entre o leitor culto e o inculto é que este toma como plano de fundo a língua corrente da mídia e das conversas vulgares, um quadro de referência unidimensional no qual se perde tudo o que haja de mais sutil e profundo, de mais pessoal e significativo num escritor. O outro tem mais pontos de comparação, porque, conhecendo a tradição da arte da escrita, fala a língua dos escritores, que não é nunca "a língua de todo mundo", por mais que até mesmo alguns bons escritores, equivocados quanto a si próprios, pensem que é.
Não há propriamente uma "língua de todo mundo". Há as línguas das regiões, dos grupos, das famílias, e há as codificações gerais que as formalizam sinteticamente. Uma dessas codificações é a linguagem da mídia. Ela procede mediante redução estatística e estabelecimento de giros padronizados que, pela repetição, adquirem funcionalidade automática.
Outra, oposta, é a da arte literária. Esta vai pelo aproveitamento das expressões mais ricas e significativas, capazes de exprimir o que dificilmente se poderia exprimir sem elas.
A linguagem da mídia ou da praça pública repete, da maneira mais rápida e funcional, o que todo mundo já sabe. A língua dos escritores torna dizível algo que, sem eles, mal poderia ser percebido. Aquela delimita um horizonte coletivo de percepção dentro do qual todos, por perceberem simultaneamente as mesmas coisas do mesmo modo e sem o menor esforço de atenção, acreditam que percebem tudo. Esta abre, para os indivíduos atentos, o conhecimento de coisas que foram percebidas, antes deles, só por quem prestou muita atenção. Ela estabelece também uma comunidade de percepção, mas que não é a da praça pública: é a dos homens atentos de todas as épocas e lugares - a comunidade daqueles que Schiller denominava "filhos de Júpiter". Esta comunidade não se reúne fisicamente como as massas num estádio, nem estatisticamente como a comunidade dos consumidores e dos eleitores. Seus membros não se comunicam senão pelos reflexos enviados, de longe em longe, pelos olhos de almas solitárias que brilham na vastidão escura, como as luzes das fazendas e vilarejos, de noite, vistas da janela de um avião.
Uma enfim, é a língua das falsas obviedades, outra a das "percepções pessoais autênticas" de que falava Saul Bellow. Muitos cientistas loucos, entre os quais os nossos professores de literatura, asseguram que não há diferença. Mas o único método científico em que se apóiam para fazer essa afirmação é o argumentum ad ignorantiam, o mais tolo dos artifícios sofísticos, que consiste em deduzir, de seu próprio desconhecimento de alguma coisa, a inexistência objetiva da coisa. A língua literária existe, sim, pelo simples fato de que os grandes escritores se lêem uns aos outros, aprendem uns com os outros e têm, como qualquer outra comunidade de ofício, suas tradições de aprendizado, suas palavras-de-passe e seus códigos de iniciação. Tentar negar esse fato histórico pela impossibilidade de deduzi-lo das regras de Saussure é negar a existência das partículas atômicas pela impossibilidade de conhecer ao mesmo tempo sua velocidade e sua posição.
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A seleção das leituras deve nortear-se, antes de tudo, pelo anseio de apreender, na variedade do que se lê, as regras não escritas desse código universal que une Shakespeare a Homero, Dante a Faulkner, Camilo a Sófocles e Eurípides, Elliot a Confúcio e Jalal-Ed-Din Rûmi.
Compreendida assim, a leitura tem algo de uma aventura iniciática: é a conquista da palavra perdida que dá acesso às chaves de um reino oculto. Fora disso, é rotina profissional, pedantismo ou divertimento pueril.
Mas a aquisição do código supõe, além da leitura, a absorção ativa. É preciso que você, além de ouvir, pratique a língua do escritor que está lendo. Praticar, em português antigo, significa também conversar. Se você está lendo Dante, busque escrever como Dante. Traduza trechos dele, imite o tom, as alusões simbólicas, a maneira, a visão do mundo. A imitação é a única maneira de assimilar profundamente. Se é impossível você aprender inglês ou espanhol só de ouvir, sem nunca tentar falar, por que seria diferente com o estilo dos escritores?
O fetichismo atual da "originalidade" e da "criatividade" inibe a prática da imitação. Quer que os aprendizes criem a partir do nada, ou da pura linguagem da mídia. O máximo que eles conseguem é produzir criativamente banalidades padronizadas.
Ninguém chega à originalidade sem ter dominado a técnica da imitação. Imitar não vai tornar você um idiota servil, primeiro porque nenhum idiota servil se eleva à altura de poder imitar os grandes, segundo porque, imitando um, depois outro e outro e outro mais, você não ficará parecido com nenhum deles, mas, compondo com o que aprendeu deles o seu arsenal pessoal de modos de dizer, acabará no fim das contas sendo você mesmo, apenas potencializado e enobrecido pelas armas que adquiriu.
É nesse e só nesse sentido que, lendo, se aprende a escrever. É um ler que supõe a busca seletiva da unidade por trás da variedade, o aprendizado pela imitação ativa e a constituição do repertório pessoal em permanente acréscimo e desenvolvimento. Muitos que hoje posam de escritores não apenas jamais passaram por esse aprendizado como nem sequer imaginam que ele exista.
Mas, fora dele, tudo é barbárie e incultura industrializada.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

THE LAZY LITTLE ZULU

William Morrow & Company (1962)
by James Holding
Illustrated by Aliki
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Um dia a mãe de Chaka mãe disse:
- "Você é um menino preguiçoso, Chaka !
“Você não trabalha na colheita de batata-doce, você nem sequer brinca com as outras crianças !
-  “Tudo que você faz é observar os animais !".

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- “Eu gosto de observar os animais !” disse  Chaka.
- “Eu aprendo muitas coisas sobre eles, quando fico olhando o que eles fazem !”.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O HORÓSCOPO DO FONSECA

    
Eu ia postar um conto novo que escrevi, mas fui modifica-lo e... o conto virou um romance (inacabado) ! Fiquem então com esse (já publicado no Recanto das Letras).
 Angry_Driver
     Fonseca fingiu e preferiu não dar muita importância ao horóscopo que alertava:“dia perigoso e com risco de acidentes para os arianos”.
- Besteira! ralhou para as paredes.
- Que profecia mais boba !
     Fonseca estava longe de ser um sujeito supersticioso, mas aquilo mexeu de alguma forma com ele. Tratou de sair de casa. Era domingo, ruas estavam desertas, comércio e bares fechados. Tudo muito calmo, até seu cão naquele dia não veio latir desejando um boa dia.
     Fonseca  destoava dessa quietude toda. Estava incomodado, nervoso, não sabia bem o motivo.
     Decidiu dirigir um pouco. Na primeira esquina avistou o Ernesto, vizinho do qual nunca simpatizou. Irritado, acelerou e com a manobra percebeu a luz do radar piscando. Teve certeza de que fora multado e mandou o Detran, o prefeito e o mundo ir tomar lá naquele lugar...
     Não notou que estava em alta velocidade numa rua muito estreita e teve de frear bruscamente quando outro carro surgiu vindo sabe se lá de onde.
- Ô barbeiro ! Vai tomar no... Continuou pisando sem dó no acelerador cada vez mais revoltado com o mundo, com as pessoas, com o cachorro sonolento e com tudo que estivesse ao seu redor.
     Sentiu a dor de cabeça que as vezes  atacava sem muita explicação, desta vez veio diferente e ele precisava do remédio e logo. Decidiu ir até a drogaria do supermercado que ficava a poucos minutos de onde estava. Na embalada desenfreada, atropelou um cachorro, raspou o carro de leve num ônibus e não respondeu ao aceno de um conhecido na calçada. Acordava toda cidade com o barulho provocado
pelas aceleradas irracionais.
     A dor de cabeça aumentava e a raiva do Fonseca também.
Passou um farol vermelho. Necessitava chegar logo ao local.
     Entrou. Estacionou. Desligou o carro. Foi alertado  que não poderia parar naquela vaga reservada para idosos. Deixou o rapaz do estacionamento falando sozinho. Quase trombou com a moça da recepção e irrefreável, foi marchando rumo a drogaria interna do local.
Uma mão tocou-lhe o ombro.
- Senhor... era o rapaz do estacionamento.
- Estou com pressa depois falo com você ! respondeu Fonseca
de forma ininteligível quase um grunhido. Continuou andando, entrou na farmácia e pediu o analgésico.
     A dor aumentava, a visão embaçava e Fonseca cambaleava. A poucos metros o rapaz do estacionamento assistia tudo. Impávido e atento.
    Quem também observava era a farmacêutica, que não demorou a oferecer o remédio engolido com voracidade pelo Fonseca já em estado febril.
     Em poucos minutos ele se restabeleceu, ficou com a postura ereta, abotoou uma casa da camisa, acertou o penteado com as mãos, levantou a cabeça e olhou ao redor.
Todos os clientes o encaravam com curiosidade zoológica. Sentiu-se envergonhado. Viu que o rapaz do estacionamento cochichava com uma cliente e olhava com reprovação para ele.  Precisava sair dali o mais rápido possível e escolheu o caixa com menor fila.
Foi impedido desta vez pelo gerente escoltado pelo rapaz do estacionamento:
     - Senhor, este caixa é exclusivo para gestantes, idosos e portadores de deficiência !
     Fonseca esperou alguns segundos, olhou para a dupla que o repreendia, para os clientes da loja, para a multidão que o cercava, para a moça do caixa, para a estante com revistas onde pode ler, de relance, a capa de uma delas: “Os astros revelam seu futuro”...        Fonseca não se conteve, com os olhos injetados e leve baba escorrendo pelo canto da boca explodiu:
     - Mas quem disse que não sou deficiente ?
     - Eu sou louco !  looouco !looouco ! loou...
     Só parou com a chegada dos enfermeiros.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

LEITURA

Quando abriu o livro e achou o capítulo que procurava, percebeu que algo estava errado. Não conseguia ver as palavras daquela folha e as linhas pareciam balançar como se estivessem animadas por alguma força.
Ele esfregou os olhos, fechou-os e manteve-se na escuridão por alguns segundos. Tentou novamente. Uma sensação de terror tomou-lhe a alma. Constatou que as letras do livro haviam sumido e, em seu lugar, restava  apenas uma coleção de folhas brancas. Nesse instante o relógio tocou e o acordou. Era tudo um sonho.

domingo, 29 de janeiro de 2012

NO DIVÃ COM ALAN MOORE # 8

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“Boa noite Londres, são 9 horas e esta é a Voz do Destino transmitindo em ondas médias de 275 e 285 metros. Hoje é 5 de novembro de 1997”
Watchmen também surgiu do sombrio cenário político dos anos 1980, quando a Guerra Fria alcançava seu ponto mais quente em 20 ou 30 anos, e quando a destruição nuclear parecia, repentinamente, uma possibilidade muito real. Watchmen usou os clichês do formato super-herói para provar e discutir as noções de poder e responsabilidade num mundo cada vez mais complexo. Nós tratamos a estas personagens super humanos verdadeiramente ridículos mais como humanos que como super.
Os usamos como símbolos de diferentes classes de seres humanos comuns, em lugar de diferentes superseres. Penso que existiam algumas coisas em Watchmen que sontonizavam bem estes tempos, ainda que para mim talvez o mais importante fosse a narrativa, onde o mundo que apresentávamos não tinha coerência, em termos lineares de causa e efeito.
Ao contrário, era visto como um evento simultâneo e massivamente complexo com conexões feitas a partir de coincidências, sincronia. E creio que foi esta visão de mundo, de qualquer maneira, que repercutiu junto ao público.

sábado, 28 de janeiro de 2012

NO DIVÃ COM ALAN MOORE # 7

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Entrei no ritmo da minha carreira de escritor no começo dos anos 80, um período muito sobrecarregado politicamente. A maior parte do mundo livre assistia horrorizada a ascensão inexorável da fodida coalizão amistosa direitista Reagan-Thatcher. Era a ascensão da Frente Nacional e mais e mais coisas que se viam eram bastante tristes. Decidi que, se queria escrever sobre este triste presente, a melhor maneira de fazê-lo era na forma de uma história ambientada no futuro, coisa que não é um recurso novo.
A maioria da ficção científica distópica não trata realmente do futuro, e sim dos tempos nas quais elas foram escritas. E o rótulo que fiz para V de Vingança não foi exceção. Ela se ambientava no que aquela época parecia ser um inalcançável período no futuro, como era 1997… e na qual a Grã-Bretanha tinha sido dominada por uma coalizão de grupos fascistas e com um aventureiro anarquista muito romântico que se opõe contra eles. Para comunicar a idéia de fascismo eu necessitava de algum símbolo que pudesse convencer os leitores que estavam diante de um Estado fascista policial.
A coisa que eu descobri e inseri foi a idéia de câmeras de segurança instaladas sobre cada esquina e vigiando todos os movimentos. Eu imaginei que isso realmente se parecia com o fascismo em ação e os leitores estavam igualmente impressionados, e aparentemente também estavam as figuras do governo, que devem ter lido aquilo na época e que decidiram que aquelas câmeras de segurança e cada esquina da metrópole eram justamente o que precisávamos para o final dos anos 90.
(continua)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

NO DIVÃ COM ALAN MOORE # 6

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Então eu comecei a estudar as possibilidades de escrever tiras de quadrinhos para outras pessoas desenharem. Isto me garantiu alguns dos meus primeiros trabalhos em lugares como 2000 AD e o Doctor Who britânico mensal e semanal que eram publicados naquela época.
Aprendi minha profissão fazendo histórias muito curtas de 3 ou 4 páginas cada, coisa que é uma excelente maneira de aprender a escrever qualquer coisa e progredi fazendo um par de séries nas quais pude me meter, por assim dizer, na natureza do material e pude ter mais chances de ser um pouco mais experimental. E isto começou a ganhar prêmios na Grã-Bretanha, o que acabou impressionando os americanos.
Os americanos tendem a pensar que todo prêmio é um Oscar e não se dão conta que os prêmios da indústria quadrinística são votados por 30 pessoas vestindo parcas e que levam formidáveis vidas sociais. Mas até onde eles sabiam, se eu era um ganhador de prêmios, portanto, era um gênio inglês. E então, eles importaram meu talento criativo para a América e me puseram a trabalhar na DC como título O Monstro do Pântano, o que causou certa agitação e ao menos fez a DC confiar em mim o suficiente para dar-me outros projetos novamente, permitindo-me escrever qualquer coisa que eu quisesse.
Isto me levou a Watchmen em meados dos anos 80, e este foi um dos livros responsáveis pela ridícula tempestade publicitária que as histórias em quadrinhos ou graphic novels tal como alguém no departamento de marketing decidiu que deveriam ser chamadas, se tornaram populares.
(continua)

DRÁCULA

Há 40 anos...