Em toda a minha vida me recordo de ter ido ao circo umas quatro ou cinco vezes. Tudo o que se comenta sobre magia e tristeza perpetradas pelos personagens que integram este universo nunca me pareceu exagero. É tudo verdade. Tristeza ao som de fanfarras.
Assim, aquela história de fabricar o riso no rosto dos espectadores enquanto se vive um grande dilema pessoal surge de forma natural dando um chega pra lá em qualquer tipo de clichê. A vida é o que o circo tentou e miseravelmente não conseguiu nos apresentar em espetáculo de duas horas com atrações diversas.
Com uns 9 ou 10 anos fui pela primeira vez num circo, talvez o Vostok, lá em Vitória do Espírito Santo, quando fui visitar uma tia. Na segunda vez com uns 14 ou 15 anos, em Santo André, pude assistir aquele tradicional número da mulher serrada ao meio e transpassada por espadas num caixote. Anos depois com uma namoradinha andei na roda gigante, comi maçã do amor, atirei com espingardas de pressão com rolhas no lugar de munição e tentei laçar um brinde qualquer com aquelas argolas. Tudo isso era o “lado de fora do circo”. Imaginem...
Minha percepção deste tipo de lugar mudou quando um velho amigo de infância me confidenciou que havia encontrado o pai, sumido há uns 10 anos, no circo que se instalava, por pouco tempo na cidade. O fato é que este amigo trocou algumas palavras com o pai, que o abandonara ainda criança, e neste breve encontro ele relatou o arrependimento pela decisão impensada, a sua nova família – os colegas de circo, a luta contra o alcoolismo e a doença que o minava aos poucos.
Após este encontro e alguma relutância meu amigo retornou poucos dias depois ao local para vê-lo mais uma vez. Foi informado pela trupe de artistas que seu doente pai havia morrido e como último desejo lhe deixara uma maleta de couro com alguns pertences (um relógio de pulso, o anel de casamento, uma navalha e um chapéu). O simples relato de tudo isso me levou às lágrimas e me fez recordar na hora que eu também não tinha pai e até algumas passagens triste da minha infância.
Há uns 10 anos atrás com outro amigo tive a alegria bizarra de presenciar um decadente espetáculo em um circo muito pobre e improvisado que não possuía globo da morte, elefantes, nem trapezistas. O principal momento se devia aos contorcionismos de uma menina de uns 12 anos chamada Suellen que escapava de uns labirintos de metal enquanto fazia evoluções com uma bola de plástico e provava que era invertebrada (tamanha era sua mobilidade e agilidade capaz de fazer corar as Nádias Comanecis da vida real...). Um urso nervoso, por estar aprisionado numa gaiola minúscula, dava o tom melancólico do local.
Nem é preciso dizer que a intenção do riso naquele momento tinha sido trocada por um nó na garganta e um sorriso meio amarelo do tipo “mas o que é que eu estou fazendo aqui ?” estampava o meu rosto.
Claro que o universo circense sempre foi muito explorado, cantado em verso e prosa e edulcorado para as massas como um pedacinho do céu que desceu à terra. Nada mais falso. Dos dramas pessoais do profeta Gentileza (testemunha ocular do incêndio no Gran Circus Norte Americano, em 1961, em Niterói. 400 vítimas) ao fim destes espetáculos mambembes por pura falta de local (e porque não dizer público) para se instalarem (especulação imobiliária devorando qualquer área ociosa), o retrato de um show inventado séculos atrás via sua morte lenta ser finalmente decretada. Era o momento muito aguardado por outros tipos de profetas. Os arautos da modernidade.
Em 2009, nova tecnologia e entretenimento eletrônico são a bola da vez. Não é mais necessário pagar tributo ou confessar qualquer influência. Pelo contrário; revivalismo e saudosismo são vistos como doenças numa sociedade que prega o novo e a evolução para sempre. Qualquer demora, retomada ou capitulação é considerado um flagrante sinal de fraqueza.
Cirque Du Soleil e Blue Man Group. Estas duas agrupações me vem à memória como retratos da subversão do conceito geral de espetáculo. Se antes tínhamos medo (mulher serrada), coragem (domador de leões), alegria (palhaços), habilidade corporal (trapezistas) e domínio técnico (globo da morte) ; hoje temos explosão de som e cor para massas apalermadas que parecem nunca terem assistido os videoclipes da MTV ( a origem disso tudo). A coisa podia até ser deixada pra lá não tivessem invocado o sacrossanto nome dos Beatles (Projeto Love) numa destas armações a fim de fisgar também o público quarentão. Nem falo na parceria Cid Moreira-Mister M…
Como dizia aquela música do palhaço Carequinha “Você faz xixi na cama ?” . Se a resposta for não, por que deixamos hoje que façam outras coisas bem piores nas nossas cabeças ?
É isto o que nos venderam como “progresso” ?