terça-feira, 3 de agosto de 2010

MONÓLOGO INTERIOR (Folha de S.Paulo , 30/08/1990)

 

Paulo Francis

PAULO FRANCIS

Toda época é ruim, quando vivemos algum tempo nela. É assim que o mundo acaba, não com uma explosão, mas com um gemido.

Não sinto mais minha infância, mas lembro minha solidão inelutável. Não saberia como explicar aos adultos que, de qualquer forma, pareciam estar noutra, e me arriscaria ao ridículo e vergonha.

Contamos em código aos amigos que fizemos, crianças como nós, em solidão inexprimível também, e estabelecemos uma relação de “novela”, com nossos contemporâneos. Eles respondiam em código semelhante.

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Em suma, como novelas, dizemos besteira, mas o subtexto é sobre o cerne de nossas feridas, que nunca vem à tona. Mas há dividendos. As amizades mais profundas vêm desse sofrimento a dois, ou a três. Nunca dissemos nada de importante, mas criamos uma ponte emocional, subterrânea, com os amigos da infância, que, em geral, sobrevivem às intempéries e à corrosão do tempo.

Lembro os anos 50, a era da ansiedade do poeta Auden e do romancista Arthur Koestler, que enfrentaram a besta-fera. A maioria , não. É da época o minimalismo, a vida do bostinha da esquina, circunscrita à bosta circunambiente. As incríveis complicações e desditas que caem sobre ele são, claro, o grande tema, subcutâneo, que aflige o autor.

Foi o tempo do Absurdo, com maiúscula. Encontraram na ininteligibilidade de Samuel Beckett a metáfora da época. Ionesco e Pinter supriam a comédia, sinistra , claro.

Quando Steiner, personagem de Fellini, em “La Dolce Vita”, mata a família e se suicida, um tanto prematuramente, em retrospecto, para fugir do holocausto nuclear, foi a conversa dos botequins.

Era uma forma “pop” de suplementar as ruminações de Camus sobre a proeminência do suicídio como preocupação moderna, sobre o niilismo de André Gide (hoje esquecido) cujo “Jornais” eram publicados . Bebíamos à morte.

Já nos anos 60, quando se viu que Kennedy e Kruschev , EUA e URSS não iam explodir um ao outro, o desbunde foi geral. Todas as repressões a que não demos vazão, como seria natural, no fim da guerra de 1945, vieram à tona.

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Professores, universitários, caretérrimos, ficavam nus na faculdade, para estarem na “sua”, se sentirem à vontade no meio ambiente, que antes viam apenas como o doente antes da catástrofe nuclear.

Um som que não deixava ninguém falar, que nos rompia os tímpanos, de que ninguém entendia o “cantado”, a incoerência levado à “n” potência, tomou conta: o “rock”. Era a entropia sonora...

O dos Beatles, engraçadinho com laivos de nostalgia da era edwardiana, em seus cabelos e cortes de roupa: bolação do gerente deles. Epstein.

Elevaram o princípio de que quem não chora, não mama, ao “sine qua non” da existência social. Andavam sempre em grupos. A individualidade lhes era intolerável, insuportável no seu peso , contra o Leviatã.

A cocaína, que só era tomada por playboys e iniciados, desceu à turma do “milk-shake”, para ficar. A cocaína, me contou Chico Pedro Leão Veloso Salles Pinto, um playboy famoso, que ele trazia escondida no “chassis” do seu Masserati, em 1920. A polícia lhe ia no encalço, mas não tinha esses malditos cachorros com faro de cocainômanos.

Hippie

Com grande auxílio da pílula, inventada por um homem, a mulher se libertou da gravidez. Mas a mulher passou de ouro a estanho. Coibida pela sua inacessibilidade, é tão fácil que quase ninguém quer. Ninguém pensa em se sacrificar por água ou ar, que são de graça, embora ninguém viva sem água e ar. Os jovens, muito mais apavorados e solitários do que nós, porque enfrentam um mundo pós-nuclear, de possibilidades cada vez mais horríficas. É uma Babel de gritaria e incoerência, de violência cada vez mais nua e crua, de ceticismo e niilismo barato. Não foram conquistados no confronto com a vida, são atitudes da moda, cuja falsidade nos imberbes dispensa comentários. É a maquiagem do seu medo.

“Os melhores não tem convicção alguma, enquanto os piores estão cheios de intensidade passional”.

É fácil reconhecer nosso mundo nessas linhas de Yeats.

 

ARTE DA CAPA – ANA PAULA AROSIO

 

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DRÁCULA

Há 40 anos...