
Quem não lembra de Lolita, a devastadora ninfeta de Vladimir Nabokov ? Em “O Encantador”, uma novela que ele escreveu há mais de 50 anos, e só agora publicada em Paris, aparece outra torturante ninfeta, capaz de enlouquecer de desejo um quarentão. O resultado, segundo os europeus, é um sucesso e uma classe comparáveis apenas a Joyce, Kafka ou Samuel Beckett. “O Encantador” é a “Alice no País das Maravilhas” de Nabokov.
PEPE ESCOBAR
Vladimir Nabokov escreveu “O Encantador” (Paris, Editora Rivages) há quase meio século. Em russo e com pseudônimo . Pensou ter destruído – ou perdido – o manuscrito. O título original é “Volchebnik”, ou seja, prestidigitador, mago. Por alguma arte de magia, “O Encantador” foi encontrado por Nabokov no fim dos anos 50. Pensou em traduzi-lo para o inglês. Mas andava ocupadíssimo escrevendo “Ada”, o roteiro de Lolita e traduzindo o “Eugenio Oneguin”, Pushkin, para o inglês. “O Encantador” continuou obscuro.
Dmitri , o filho de Nabokov, tinha cinco anos quando seu pai escreveu este livro. Viviam em um mini apartamento em Paris. Nabokov trancava-se no banheiro para escrever em paz.
Hoje, Dmitri tem 52 anos. Dedica-se em tempo integral ao trabalho com o arquivo paterno, e às traduções do russo para o inglês. Dmitri já fez de tudo. Desde cantar ópera até pilotar carro de corrida. É sua a primeira tradução de “O Encantador”, do russo para o inglês. Gilles Bardette o traduziu para o francês. Ele é o diretor literário da Rivages. Um pequeno editor com o espírito empreendedor típico dos verdadeiros amantes da literatura. Por sua causa, “O Encantador” saiu em Paris, em francês, em setembro e em premiére mundial.
O livrinho de 138 páginas é um diamante. É uma antecâmera de “Lolita”. Está vendendo em Paris mais do que jornal com foto de presumíveis terroristas. Depois do auge de Joyce – com o “Ulysses” corrigido -, Musil – “redescoberto” junto com Viena – e Kafka, os hits literários da Europa, no momento, são Beckett, Borges e Nabokov. Todo mundo agora descobriu que Borges era nosso Buda ocidental. Beckett, aos 80, eleva o silêncio a uma forma de arte absoluta. E os franceses descobrem o que os ingleses ilustrados já sabiam: Nabokov é bárbaro.
Em “O Encantador”, a ação está fora de tempo e lugar definidos. Como “Lolita”, examina a paixão de um homem maduro por uma ninfeta. Nosso personagem é um quarentão, de “profissão refinada e lucrativa”. Anda sempre com uma bengala (não é símbolo fálico: Nabokov detestava Freud). Adora ninfetas. Acha que seria um pai ideal. As coisas começam a esquentar quando entra em ação o destino. Ele acha uma moedinha e lhe aparece o ideal em carne e osso: uma ninfetinha de 12 anos, fogosa, braços nus bronzeados, boca carnuda entreaberta, deslizando como uma gueixa. Ele enlouquece com tanto fetiche: tem de viver com ela de qualquer jeito. A ninfeta é órfã de pai e a mãe é doente. O persoangem, em uma seqüência de ações típicas de desejo enfurecedor, casa com a mãe. A mãe morre e ele finalmente pode partir com sua divina boneca para o mar, a purificação, a liberdade.
Em “Lolita” uma mesma viagem do gênero transcorria em clave mítica, através das planíces intermináveis da América. Em “O Encantador” trata-se de uma deprê total: a ninfeta vai na frente com o motorista, e nosso herói no banco de trás, ardendo de desejo. Nabokov acelera o rocambolesco e entra de cabeça no surreal. Arma-se um carnaval kafkiano em um hotel, até que o apaixonado solitário encontra a ninfeta adormecida no leito, numa pose das esferas, com a veste entreaberta, e uma decupagem vertiginosa de seios, umbigo e púbis. Depois deste espetáculo, nosso personagem sente sua vida “emancipada pela alegria, e reduzida à simplicidade do paraíso”.

Passa sua “baqueta mágica” pela coxa sensual da bela adormecida... E aí é o inferno: ela acorda, começa a urrar como uma desesperada, ele foge, querendo se enfiar debaixo do primeiro trem. Não precisa: é atropelado por um gigantesco caminhão.
Nos romances de Nabokov, o homem é sempre uma aberração, seja física ou psicológica. Pode ser um pedófilo criminoso ou simplesmente um louco. A mulher é uma ninfeta, uma galeria de ninfetas – Lolita, Ada, Magda, Sonia, Marietta, Zina , a inominada de “O Encantador”. Ela é sempre inocente ou perversa, ou melhor ainda, as duas coisas.

“O Encantador”, na verdade, é a ninfeta. Ela é uma inocente, nada tem de perversa. Quanto a ele, coitado, não tem nada de criminoso: é um romântico sonhador. “O Encantador” é o “Alice no País das Maravilhas” de Nabokov. Ele sempre achou Carroll o máximo, tanto que traduziu o Alice para o russo quando ainda era adolescente.
E assim nasceu a irmã mais velha de Lolita, em 1939, em Paris. Lolita foi recusada por quatro editores americanos: era muito ferro na boneca para a América puritana dos anos 50. Saiu pela Olympia Press, em Paris, em 1955, depois de vários qüiproquós com a censura. Virou um mito literário, e depois um filme de gênio, dirigido por Stanley Kubrick. Com James Mason e Sue Lyon: o filme mais cool do ano mais cool da ra moderna (1962).
Para muita gente, Nabokov permanece um enigma. Era normalíssimo. Não tinha complexos, alegre o tempo todo. Ficou casado 52 anos com a mulher Vera – sem “outras”. Não se pertubou nem com o exílio, nem com a morte do pai – um russo aristocrata amigo de Kerensky, assassinado por tzaristas fanáticos. Mas quando se soltava com as suas ninfetas, só chamando os bombeiros...
Espera-se que algum editor digno do nome lance este diamante no Brasil. Dmitri Nabokov o descreve no posfácio como “um estudo da loucura através do cérebro de um louco”. A tradução francesa é excelente . Imagina-se o que será em inglês, na versão de Dmitri (sai em breve em Nova York). Nabokov conhecia inglês desde criança, é claro, mas levou 20 anos de trabalho duríssimo para pegar todo o seu gênio – um mix de grotesquerie russa, prosa poética de herança francesa e senso de humor anglo-saxão – e transportá-lo do russo para uma língua literária inglesa. Conseguiu. É o maior escritor russo do século XX. E um dos maiores “ingleses” ou “americanos”. Louvadas sejam estas ninfetas, ou o desejo sublimado no prazer do texto.
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