ICA (Londres)
31/01/88
PEPE ESCOBAR
Alfred Jarry inventou o teatro moderno, no fim do século XIX, com seus Ubu Rei e Ubu Acorrentado. O Père Ubu (Pai Ubu) e seu método “patafísico” de conhecimento do Universo prefiguram, entre outras coisas, o dadaísmo, o surrealismo e a explosão da demência high-tech do hipercapitalismo.
Depois de um século no mínimo patafísico, Père Ubu foi ressurgir – logo onde... -, na América, a Terra dos Bravos”. Mais exatamente em Akron, Ohio (mesmo celeiro de Chrissie Hynde), cuja única reivindicação para um “hall of fame” planetário consiste na sua condição de capital mundial da borracha.
Ubu só poderia ressurgir como um fenômeno punk. Isso , em 77/78, não era exatamente “vanguarda”. Era “underground” – uma garantia de transgressão que ainda existia naqueles tempos, absolutamente oposta à indústria do entretenimento.
Ouvi e vi Pere Ubu em sua versão middle demential America nessa época – em uma Londres fascinada pela energia pós-punk de uma nova invasão americana, onde os mais visíveis e incensados eram Talking Heads, Television e Blondie. David Thomas – também conhecido como Crocus Behemoth -, o vocalista e mestre de cerimônias patafísicas do Ubu, logo incorporou-se em todos os círculos de vãs (ou em) guardas como uma figura de peso. Saiu o álbum The Art of Walking – logo cult, com suas cripto-implicações na teoria da evolução.
“30 Seconds Over Tokyo” virou um hino tão pós-punk quanto “Marquee Moon” do Television – em um registro, claro, mais carregado de paranóia e exterminação.
O tempo passou, Pere Ubu dissolveu-se nas brumas de Akron, e seu fantasma virou – mesmo em hibernação – uma preferência seleta das ditas vãs (ou em) guardas, ao lado de desconstrutores típicos como Cabaret Voltaire, Nick Cave, Neubauten, Lydia Lunch, Psychic TV, Mark Smith do Fall – agora popíssimo; seu último single é um remake de “Victoria”, dos Kinks -, Sonic Youth – e vamos em frente -, 23 Skidoo, Throbbing Gristle, Residents (com sua recuperação bate-estacas de Gershwin e James Brown), Coil, os incestuosos Foetus/Wiseblood...
Dez anos depois de um tempo mais ou menos heróico, o retorno de Pere Ubu poderia ser arquivado na habitual gaveta “se não fosse o dada e o Velvet nada disso existiria”, mas...
...Mas, o que tivemos em dois shows no “vanguardístico” ICA foi, pelo menos, boa e simples diversão. Crocus Behemoth – ou um holograma de si mesmo dez anos depois, olhar demencial, gordo como Moby Dick e movimentando seus pedaços de ferro percussivos – reuniu um bando de leviatãs em fúria, incluindo Allen Revenstine e Chris Cutler, o baterista do Henry Cow, para o mais terminal ataque de feedback-synth-punkadaria já registrado no “underground” (opa!) de Londres na era Thatcher. Duas noites de frenesi, pau na portaria, semióticos em transe, ativistas lésbicas e social workers militantes pedindo mais bombas em cima do pesadelo neo-monetarista. Pere Ubu/88 não negou nada , dos standards de “Dub Housing” e do quase-clássico “The Modern Dance” às favoritas de terroristas contra-culturais de todas as facções, como “Non-Alignment Pact”, “Final Solution” e a magnífica “30 Seconds Over Tokyo”.
Tem um novo álbum na praça: “Tenement Years (Phonogram. Exijam similar nacional). Pere Ubu, os patafísicos de Akron, ainda são capazes de fazer sentido no caos. “Merdre”, com “r”, como diria o Ubu primordial de Jarry.
Só uma pergunta:
- Será que o Cacá Rosset gosta desta banda ?