segunda-feira, 7 de outubro de 2013
domingo, 6 de outubro de 2013
O QUADRÚPEDE DE 28 PATAS (Manchete Esportiva, 17/05/1958)
NELSON RODRIGUES
Hoje, o meu personagem da semana é uma das potências do
futebol brasileiro. Refiro-me ao torcedor. Parece um pobre-diabo,
indefeso e desarmado. Ilusão. Na verdade, a torcida pode salvar ou
liquidar um time. É o craque que lida com a bola e a chuta. Mas
acreditem: — o torcedor está por trás, dispondo.
Escrevi acima que o torcedor não é um desarmado e provo. De
fato, ele possui uma arma irresistível: — o palpite errado.
Empunhando o palpite, dá cutiladas medonhas. Vejam o primeiro
jogo com os paraguaios. Vencemos de cinco* e podia ter sido de dez.
Fizemos do adversário gato e sapato. Ora, para uma primeira
apresentação foi magnífico ou, mesmo, sublime. Mas quando saí do
Maracanã, após o jogo, vejo, por toda parte, brasileiros amargos e
deprimidos. Mais adiante, esbarro num amigo lúgubre. Faço
espanto: — “Mas que cara de enterro é essa?”. O amigo rosna: —
“Estou decepcionado com o escrete!”. Caio das nuvens, o que,
segundo Machado de Assis, é melhor do que cair de um terceiro
andar. Instantaneamente, vi tudo: — o meu amigo era ali, sem o
saber, um símbolo pessoal e humano da torcida brasileira. Símbolo
exato e definitivo.
Em qualquer outro país, uma vitória assim límpida e líquida do
escrete nacional teria provocado uma justa euforia. Aqui, não. Aqui,
a primeira providência do torcedor foi humilhar, desmoralizar o
triunfo, retirar-lhe todo o dramatismo e toda a importância. Atribuía-se a vitória não a um mérito nosso, mas a um fracasso paraguaio. Os
guaranis passavam a ser pernas-de-pau natos e hereditários. Dir-se ia
que, por uma prodigiosa inversão de valores, sofremos com a
vitória e nos exaltamos com a derrota.
E, no entanto, vejam vocês: — o escrete visitante, que nos
parecia de vira-latas, acabara de vencer e desclassificar a “Celeste” e
bater a enfática Argentina. Mas, para cuspir na vitória brasileira, o
nosso torcedor fingiu ignorar a real capacidade, a indiscutível classe
do adversário. Veio o segundo jogo, no campo careca e esburacadíssimo do Pacaembu. Houve um empate, que teve para o
Brasil o gosto de uma semiderrota. Desta vez, porém, nada de choro,
nada de vela. Por toda parte, só se viam caras incendiadas de
satisfação. Com o olho rútilo e o lábio trêmulo, o torcedor patrício
lavava a alma: — “Eu não disse?”. Os pernas-de-pau não eram mais
os paraguaios, eram os brasileiros. E está-se vendo esta vergonha: —
um escrete, que começou vencendo, já é vítima de uma negação
frenética. Há gente torcendo para que ele apanhe de banho na
Suécia.
Eis a verdade, amigos: — tratam do craque, tratam da equipe e
esquecem o torcedor, que está justificando cuidados especiais. Que
estímulo poderá ter um escrete que é negado mesmo na vitória? A
seleção não tem saída. Se vence de cinco, se dá uma lavagem, o
torcedor acha que o adversário não presta. Se empata, quem não
presta somos nós. Durma-se com um barulho desses!
Há uma relação nítida e taxativa entre a torcida e a seleção.
Um péssimo torcedor corresponde a um péssimo jogador. De resto,
convém notar o seguinte: — o escrete brasileiro implica todos nós e
cada um de nós. Afinal, ele traduz uma projeção de nossos defeitos e
de nossas qualidades. Em 50, houve mais que o revés de onze
sujeitos, houve o fracasso do homem brasileiro.
A propósito, eu me lembro de um amigo que vivia, pelas
esquinas e pelos cafés, batendo no peito: — “Eu sou uma besta! Eu sou um cavalo!”. Outras vezes, ia mais longe na sua autoconsagração;
e bramava:
— “Eu sou um quadrúpede de 28 patas!”.
Não lhe bastavam as quatro regulamentares; precisava acrescentar lhe
mais 24. Ora, o torcedor que nega o escrete está, como o meu
amigo, xingando-se a si mesmo. E por isso, porque é um Narciso às
avessas, que cospe na própria imagem, eu o promovo a meu
personagem da semana.
* Brasil 5 x 1 Paraguai, 4/5/1958, no Maracanã; Brasil 0x0 Paraguai, 7/5/1958, no
Pacaembu. Jogos preparatórios para a Copa de 1958.
sábado, 5 de outubro de 2013
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
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