domingo, 1 de dezembro de 2013

STONES, OU A PAIXÃO RECUPERADA (Folha de S.Paulo, 11/01/1983)


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                                       PEPE ESCOBAR
     Em algumas figuras, tudo, absolutamente tudo, tem a ver com a fisiologia: seu corpo é seu pensamento, e seu pensamento é seu corpo. É o caso de Mick Jagger, darling da mídia, trânsfuga da ambiguidade, mobiliador de cérebros sonhadores há duas décadas - em uma época onde cada ano vale uma década. Vejam como ele reduz o espaço de um imenso palco de quase 80 metros a uma minguada passarela para seus volteios e estertores; vejam como seu pensamento corporante funde tese e prazer à maneira de um banquete platônico. E, no entanto, é apenas rock'n'roll, fluxos de desejos soltos por infinitas linhas de fuga.
     Hal Ashby - o inquieto esteta de "Ensina-Me a Viver", "Shampoo" e "Muito Além do Jardim" - parecia o cineasta adequado para registrar todas as transformações termodinâmicas inerentes a um concerto dos Stones, especialmente  na sua mais bem-sucedida excursão pelos EUA, que frenetizou pelo menos três gerações. Além disso, os Stones sempre transportaram muito bem todo o seu magnetismo para a tela: vide "Gimme Shelter" - com suas reverberações satânicas de fim de época - "Ladies e Gentlemen, The Rolling Stones", "Performance" - grande criação do objeto cinematográfico Jagger -, e os inúmeros clips gravados para a promoção de seus discos.

Jornal 4    Mas, neste registro, as câmeras de Ashby - pelo menos dez - parecem ligeiramente perturbadas com a pulsante economia libidinal de Jagger e seus  acólitos. Se a trilha sonora capta interpretações banhadas pela sutil arte do controle, tão boas quanto as contidas no álbum triplo pirata "The American Tour 1981", as imagens perdem o compasso e beiram a contemplação. Na maior parte das sequências, acompanham Jagger reverencialmente; a montagem não realça o frenesi que os Stones conseguem instaurar em um estádio lotado por cem mil pessoas; e também não situa detalhes expressivos da movimentação de cada um no palco - nem mesmo a impassibilidade de Wyman no baixo e Watts na bateria. Resta a obsessiva e sensual fascinação com o corpo esguio e a mecânica facial do felino Mr.Mick, um quarentão com a saúde de dois garotões de vinte.
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     Na verdade, o importante no filme é esse vigor que os Stones transmitem , além de qualquer problema formal. Um contraponto fundamental para uma época desprovida de fibra, cujos homens se retorcem em grunhidos interiores, reduzidos ao estado de grotescos vulcões. Já os Stones insistem em colocar os "ya yas" para fora, em estilo, fiéis às suas primeiras intuições, as verdadeiras. O que pensamos de muitas coisas em nossa juventude nos parece cada vez mais justo; depois de voltas e revoltas regressamos novamente a estas intuições, afligidos por ter construído nossa existência sobre a ruína daquelas evidências. Com os Stones não foi bem assim. Não (se) traíram. Daí sua atualidade e pertinência, sempre amados com irrestrita paixão.

THE ROLLING STONES AMERICAN TOUR 1981 - Direção: Hal Asby. Direção de fotografia: Calib Deschamel e Gerald Feil. Produção: Ronald L.Schwarz. 1982. Hoje, amanhã e quinta, às 21 e 23h, e sexta e sábado às 21, 23 e 1h na sala Kinorama do Carbono 14 (r.13 de Maio,363). Pela primeira vez no Brasil.

Vi pela primeira vez no Som Pop. O álbum do show, “Still Life”, foi talvez o disco que eu mais ouvi na vida…

CEM POR CENTO DIDA (Manchete Esportiva, 30/08/1958)

 

Dida

NELSON RODRIGUES

O placar do Flamengo é de assustar*:

— 8 x 0!  Essa abundância numérica significa que o rubro-negro submeteu o Olaria a um metódico, a um meticuloso, a um hediondo massacre. E o patético é que não foi um time, uma equipe, que construiu o escandaloso placar. Foi um homem, um único e solitário homem que desandou a fabricar gols a torto e a direito. Esse homem chama-se Dida e eu o apresento aqui como o meu personagem da semana.
     Na véspera, ou seja, sábado, um outro craque enfiara quatro.
Refiro-me a Didi que, funcionando na frente, na área, acabou com a
Portuguesa. Conquistou quatro tentos de antologia. Dida, porém, fez
mais:

— meia dúzia e, ontem, nenhuma força humana ou divina conseguiria destruí-lo. Muita gente há de pensar que Dida abusou, que não devia ter feito tanto, que podia ter-se limitado aos dois, aos três, ou, como Didi, aos quatro. Mas a verdade é que o aparente exagero tem sua íntima lógica irredutível. De fato, Dida andou passando mal na Copa do Mundo. Na Suécia, o locutor Leônidas apanhou o microfone para dizer horrores a seu respeito. E vamos e venhamos:

— fora da pátria, o sujeito é mais sensível, mais vulnerável. Qualquer restrição que se lhe faça soa como uma bofetada.
     E, além disso, nada enfurece tanto como a injustiça. Qualquer
paralelepípedo sabe que Dida é um jogador de alta qualidade.
Perguntem a uma zebra do jardim zoológico:

— “Dida é um perna-de-pau?”. E a zebra responderá, com uma ênfase tremenda:

—“Absolutamente! Absolutamente!”. Pois bem:

— só Leônidas achou de arrasar Dida como se este fosse um bonde. Disse, entre outras barbaridades, que ele não podia nem jogar num time de primeira divisão. Falei em injustiça e repito:

— deslavada injustiça! Só hoje, passado o impacto da Copa do Mundo, é que se compreende a ferocidade de Leônidas. Craque do passado, ele quer ser ainda “o maior”. Sofre com os “diamantes negros” ou “brancos”, ou “morenos” da atualidade. A glória alheia, em futebol, o ofende e humilha. E, por isso, meteu o pau em Dida. Era como se dissesse:

— “Ah, meus tempos, meus tempos!”.
     E o fato é que Dida jogou apenas uma vez na Suécia e voltou
de lá amargurado. E, aqui, havia quem perguntasse:

— “Será que Dida acabou?”. Muitos julgavam sentir, nas suas últimas atuações, um certo desgaste. Suas velhas características pareciam diluídas. E eis que, ontem, contra o Olaria, o homem voltou a ser ele mesmo.
     Viu-se na Gávea um Dida em plenitude, comendo a bola como nos
seus instantes mais puros e triunfais. Dirá alguém que o Olaria não
é grande adversário. De acordo. Longe de mim considerar o Olaria
um escrete. Mas uma goleada impõe-se por si mesma, torrencial e
irrefutável. Como raciocinar, como argumentar contra a histeria
numérica dos 8 x 0? E se atentarmos em que foi Dida, unicamente
Dida, o autor de seis dos oito gols, então compreenderemos que
estamos em face não de um ex-Dida, mas do próprio. Não há dúvida,
amigos. Despontou com a sua furiosa velocidade, e mais:

— com a capacidade de invadir, de penetrar, de cortar, de envolver e de
fuzilar. Mas creiam:

— o que o inspirava não era apenas o sadismo de um gol atrás do outro. Ele enfiava um gol, e depois outro, e mais outro, como se quisesse fazer uma afirmação para si mesmo. Queria sentir-se um Dida integral e não tenhamos ilusões:

— foi cem por cento Dida. Qualquer jogador de futebol, do virtuose ao perna-de-pau, tem suas panes, suas depressões. Dida estaria numa dessas angústias.
     Mas quem, depois de meter seis gols, não há de sentir-se um
triunfador, com um certo charme cesariano, uma certa aura
napoleônica? Sim, depois de ontem, Dida baniu de si mesmo, até o
último vestígio, o drama da Suécia.
     Quando soou o apito final, o aspecto do grande jogador era algo
patético. Tinha o olho rútilo e o lábio trêmulo. Que os outros times
tratem de pôr as barbas de molho! Dida voltou a ser Dida e para
sempre Dida.

* Flamengo 8 x 0 Olaria, 22/8/1958, na Gávea. Dida tornou-se o maior goleador da
história do Flamengo antes de Zico, mas não voltou à seleção brasileira.

ADAM AND EVE

 

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AVALON BALLROOM


Love, Captain Beefhart and His Magic Band, Big Brother and The Holding Company
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DRÁCULA

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