domingo, 8 de junho de 2014

UM GESTO DE AMOR (O Globo, 02/12/1968)


garrincha[3]
                           NELSON RODRIGUES
     Amigos, eu considero um pobre-diabo o brasileiro que não
esteve, sábado, no Estádio Mário Filho, vendo e vivendo a festa de
Garrincha. Eu ia falar em “noite inesquecível”. Mas, bolas!, há não
sei quantas “noites inesquecíveis” que não são inesquecíveis, e
repito: — noites que o sujeito esquece meia hora depois.
     O belo, o patético, o pungente na “noite de Garrincha” é que
ninguém, de fato, a esquecerá. Somos tão cegos que não enxergamos
o óbvio ululante, isto é, que ninguém faltaria, ninguém. Eu vi,
sábado, no Mário Filho, sujeitos que julgava mortos e enterrados há
trinta anos. Até grã-finos que não sabiam se a bola é redonda ou
quadrada, até as grãs-finas compareceram.
     E foi quase apavorante. No dia do clássico, toda a cidade achou
que tinha de estar presente. Foi o maravilhoso encontro, não
combinado, com o Mané. Sábado, ninguém era mais importante na
cidade. Mas como dizia eu: — somos tão cegos que só parte da
massa pôde comprar entrada; era irrisório o número de bilheterias;
milhares e milhares de pessoas tiveram que pular o muro ou
arrombar portões. E vi uma grã-fina fazer o que não fazia desde a
primeira Chupeta: — chorar!
     Vejam vocês como são as coisas. Garrincha vivia por aí, mais
abandonado, mais desprezado do que um cachorro atropelado.
     Lembro-me de um sujeito que veio me soprar ao pé da orelha: — “Vai
acabar na sarjeta!”. Outro fez o vaticínio não menos feroz, segundo o
qual teria o fim do “Ébrio”, de Vicente Celestino. Pode-se dizer que,
de uma maneira geral, ninguém jamais admitiu a sua ressurreição.

     Cabe então a pergunta: — se todos estavam assim pressagos, por
que ninguém ensaiava um gesto de amor? Sim: — por que ninguém
lhe estendia a mão, por quê?
     Ai de nós, ai de nós. Temos uma piedade frívola e relapsa.
      Gostamos de esquecer. Eu falei em “piedade” e gostaria de notar: — o brasileiro esquece antes da compaixão. Mas havia, no caso, para todos nós, um problema intolerável de consciência. Mané merecia a nossa alegre e crudelíssima indiferença? Não e nunca. Poucos homens serviram tanto o seu povo.
     Em 58 e 62, a nossa felicidade dependeu de suas pernas
tortas. Na véspera do jogo com a Rússia, na Suécia, cruzei com um
bêbado no meio da rua. Era um crioulão plástico, lustroso,
ornamental. Bêbado de morrer, chorava, profético: — “Vamos perder
da Rússia! Vamos perder da Rússia!”. Pranteava, na véspera, o
desgosto do dia seguinte. E, pouco antes do jogo, estava eu atracado
ao rádio, na redação. Virei-me para um companheiro e perguntei-lhe:
— “Quem ganha?”. O outro respondeu, com boquinha de nojo: —
“Ganha a Rússia, porque o brasileiro não tem caráter”.
     Mas foi Mané que ganhou. Estreava na Copa. Quando recebeu
a bola, no primeiro minuto de jogo, driblou um russo, mais outro,
outro mais, como no soneto. Driblou as barbas de Rasputin, driblou
as cinzas do czar e, em seguida, enfiou uma bomba na trave. O
adversário se liquidou, ali, na sua primeira escapada. E, assim,
fomos até a final, com Garrincha liquidando o País de Gales, a
França, a Suécia.
     Em 62, os Andes se prostraram diante do seu gênio. Pelé saiu
no segundo jogo e não voltou mais. Garrincha ganhou sozinho o
bicampeonato. E, súbito, aquele rapaz da Raiz da Serra compensou nos
de todas as nossas humilhações pessoais e coletivas. Vocês
sabem que, do nosso lábio, sempre pendeu a baba elástica e bovina
da humildade. Em 58, ou 62, o mais indigente dos brasileiros pôde
tecer a sua fantasia de onipotência.

     E, por tudo isso, as multidões, sem que ninguém pedisse, e
sem que ninguém lembrasse, as massas derrubaram os portões. E
ofereceram a Mané Garrincha uma festa de amor, como não houve
igual, nunca, assim na terra como no céu.


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