sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA (José Veríssimo)
Mas com essas qualidades nativas, alguma afetação e certos
amaneirados de estilo, aumentados na fase de Sênio. As críticas
geralmente justas feitas à sua linguagem não tiveram senão o efeito de lhe
exacerbarem o orgulho ou vaidade literária. Pôs-se a estudar a língua mais com
o propósito de encontrar nesse estudo antes justificativa do que emenda dos
seus defeitos de escritor, nos quais desarrazoadamente e com dano da sua
literatura perseverou do mesmo passo acoroçoando com o seu exemplo ilustre a
funesta intrusão individual em o natural desenvolvimento da língua. Há no
estilo de Alencar, colorido, sonoridade, mesmo música, eloqüência, emoção
comunicativa, mas há também ênfase e mau gosto. Como escritor faltava-lhe, pode
dizer-se inteiramente, espírito, que parece apenas revelou nas discussões parlamentares,
onde aliás os seus ataques e réplicas são mais aceradas que espirituosas. Como
Herculano, segundo lhe reprochou Camilo Castelo Branco, Alencar era de uma
insulsez além do que se permite ao escritor público. Daí o malogro do seu
romance caricatural da Guerra dos mascates, e a fraca vida das suas
comédias. Foi-lhe acaso funesto o ter começado por uma obra-prima, muito
admirada e celebrada e lhe haver faltado o bom espírito de se não embevecer do
seu sucesso, aliás merecido.
Três anos antes do Guarani,
com que José de Alencar retaurava nas nossas letras a inspiração
pseudonacionalista do indianismo periclitante, aparecia o primeiro volume das Memórias
de um sargento de milícias, por “Um Brasileiro”. O pseudônimo está revendo
a preocupação nacionalista que era ainda por muito a da literatura do tempo e
da qual Alencar se vinha justamente fazer o arauto convencido. Também o era o
das Memórias de um sargento de milícias, mas depurado do preconceito
indianista. Assentava antes numa intuição mais justa do objeto da nossa ficção.
Em pleno Romantismo, aqui sobreexcessivamente idealista, romanesco e sentimental também em excesso, o romance do malogrado Manoel de Almeida é perfeitamente realista, ainda naturalista, muito antes do advento, mesmo na Europa, das doutrinas literárias que receberam estes nomes. Não pertence a nenhuma escola ou tendência da ficção sua contemporânea, antes destoa por completo do seu feitio geral. É uma obra inteiramente pessoal em relação no meio literário de então.
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