Bugia (1958)
TBO Extraordinario del Oeste
PEPE ESCOBAR
Electric Ballroom (Londres) 07/07/88
Ok, o homem é uma lenda. Ragin´ Joe, o homem que acabou com o Clash intencionalmente, e não pela habitual voragem de drogas e/ou ambição e/ou ganância. Quando o Clash - depois de sete anos de trabalhos forçados - completou a transição de heróis de culto/crítica para estrelas de sucesso comercial, Joe Strummer gritou seu fuck you! ao sistema, caiu fora e foi para uma espécie de underground permissível nos 80. Virou pai, ator (sob a influência de Alex Cox), compositor (trilhas de filmes de Cox, como Sid & Nancy, Straight to Hell e Walker) e adulto maduro.
Durante muito tempo não tinha banda e não tinha manager - e não tinha nem mesmo planos para gravar qualquer coisa sob o nome "Joe Strummer". Deu uma mão para o amigo Mick Jones em canções do B.A.D. Nos primeiros meses de 88, andou dando uma mão no show dos Pogues, sem guitarrista. Em determinado momento, munido só de guitarra acústica, Joe ia lá para o microfone ponta-de-lança e soltava, solitário, "London Calling" e "I Fought the Law", do Clash. As platéias choravam cataratas. Agora, em seus quartos ou escritórios de trabalho, choram mais cataratas (silenciosas). Walker - a saga de Alex Cox na Nicarágua sobre um Reagan/Somoza do século dezenove - fracassou no festival de cinema de Berlim, mas a trilha de Strummer (jazz, folk, instrumentais latinos-americanos, baladas) segurou seus méritos. Até que Joe Strummer montou a Latino Rockabilly War e resolveu cair em uma (parcial) estrada por si só.
Em 82 este que vos fala escreveu uma longa peça sobre o Clash em um jornal de São Paulo sob o tema geral "anarquia". Seis anos depois, uma sombra do Clash, através do personagem Strummer, é recuperada para desígnios supostamente anárquicos na Londres quarto-mundista thatcheriana. Melancólica - e perigosa - esta gig de Strummer e da Latino Rockabilly War em um clube fétido na convulsionada Camden Town londrina, tradicional reduto antiafluente da zona norte. A gig faz parte de "Rock Against the Rich" -uma campanha organizada pelo magazine anarquista Class War para colocar a luta de classes de volta à agenda política, usando a música como "arma". A terminologia é perfeita: na cabeça da garotada, equaliza sua atividade privilegiada - escutar música - com uma sedutora capacidade subversiva (o fato de que apenas dois ou três por cento do que atualmente se produz na indústria da música seja subversivo só aumenta o carisma).
Anarquia. Luta de classes. Pau nos ricos. Parece que estamos de volta a 77. E estamos. A Londres pobre da zona norte - a molecadinha que só tem algumas librinhas pilhadas a custo para se entupir de cerveja barata, um concerto e um disco por mês - deixa o Electric Ballroom como uma pocilga. Ou um pub pós-devastação. Strummer e seus Latino rockabillies tocam rock´n´roll de pub: alto, direto, um, dois, três, quatro, e distorção no P.A. Congas eventuais soçobram no mix, assim como a própria voz de Strummer. A platéia veste-se como em 77. A linha de frente fez pogo como em 77. Longos trechos da seleção musical honram o espírito de 77, como "Police and Thieves" (mas a versão reggae de Junior Marvin ainda é a melhor de todas). Mas lá fora é 88. Guerra aos yuppies? 0K, nada mais saudável. Mas essa é uma época de cinismo extremo. E necessário senso de humor. Para se fazer rock contra os ricos também é preciso um certo senso de estilo. Joe Strummer - guerrilheiro da geração 77 - já deveria saber, de experiência própria.
Exageram na importância deste cara…
Há 40 anos...