sábado, 24 de maio de 2014
sexta-feira, 23 de maio de 2014
A CONTRIBUIÇÃO DESTE ÁLBUM NA HISTÓRIA DA CIDADE
ADEMIR MEDICI
O futebol sintetiza bem a formação étnica contemporânea de São Caetano e Grande ABC. Trazido ao Brasil no século 19, este esporte tão popular consegue acompanhar a semeadura de vilas e bairros, por exemplo, e é a prova acabada de que o coletivo está presente na formação urbana que transformou o Município e região.
Há detalhes que diferenciam um caso do outro, mas no geral o futebol se insere num arcabouço que os antigos conhecem tão bem:
1) A construção da casa operária em mutirão, depois da abertura do poço raso no quintal e da fossa acética no jardinzinho do lote popular e até a cobertura simbolizada pela colocação de um galho de árvore no telhado e o oferecimento de sanduíches, refrigerantes e chope pelo proprietário como sinal de agradecimento aos que ajudaram na tarefa;
2) A unidade na constituição de uma sociedade amigos ou comissão de moradores para tratar, sempre coletivamente, dos interesses da nova vila, que vai precisar de benefícios mínimos, como a iluminação pública e as redes de água e esgoto para substituir os poços rasos e fossas;
3) A unidade para o levantamento da igreja do bairro, a princípio com predominância ao catolicismo, mas que, com o passar dos anos, atinge tantas outras religiosas e doutrinas;
4) E como há lotes vazios, a unidade dos jovens rapazes para a construção de um campo de futebol, raspadão e com traves improvisadas, onde o clube do bairro mandará seus jogos, recebendo os adversários. A sede pode ser a casa do presidente ou o bar da esquina, que reservará paredes para a estante que agasalhará taças e troféus.
TUDO GIRA EM TORNO DE UM EIXO.
Estamos na bacia do Tamanduateí e dos Meninos.
No caso de São Caetano, a cidade desenvolve-se com uma população de imigrantes italianos e seus descendentes que um dia trocou o trabalho em indústrias artesanais como a das olarias pela industrialização pesada que avança sobre antigos lotes coloniais. O eixo dos Rios Tamanduateí e dos Meninos enche-se de fábricas. Estas atraem novos moradores, migrantes e imigrantes.
Os migrantes trocam o campo pelo subúrbio paulistano. Num primeiro momento, mão-de-obra do interior, seguida por famílias que vêm de Minas Gerais, do Paraná e, por fim, do Nordeste e outras regiões; os novos imigrantes – para diferenciar dos imigrantes pioneiros do Núcleo Colonial de São Caetano (1877 e 1878) – que descobrem o Brasil (e São Caetano) no intervalo entre as duas grandes guerras do século 20 e, mais recentemente, depois da Segunda Guerra, que deixa uma Europa semidestruída.
O Memorial do Imigrante, na Mooca, guarda registros de famílias de imigrantes que chegaram a São Caetano até meados da década de 1960, quando a cidade, em franco processo de formação urbano-industrial, guardava ainda muitas áreas livres entre os loteamentos semeados e os núcleos industriais [1].
Sempre havia espaço para mais um campo de futebol, além do majestoso – ao menos para os padrões de São Caetano – Estádio Lauro Gomes, hoje Anacleto Campanella, no que a crônica esportiva chamava de “Morro dos Ventos Uivantes” (‘Wuthering Heights’), de 1847, nome tirado do romance de Emily Brontë.
NOSSOS ÍDOLOS.
Operários de segunda a sábado, craques nos domingos.
Em 1955 ou 1956 – não há um ano exato - a surpresa: o mundo futebolístico amador do ABC ganha um álbum de figurinhas lançado por uma editora de São Caetano chamada ‘Morcilo & Bisquolo [2]. São 30 equipes retratadas, 15 das quais diretamente ligadas à Liga Amadora de São Caetano [3].
Os cromos são coloridos. Os jogadores aparecem bem alinhados, com os cabelos curtos, cuidadosamente penteados. Uns poucos usam boinas, comum no futebol dos anos anteriores e que estavam caindo de moda. E em cada página, três figurinhas carimbadas, o nome do clube e a sua data de fundação.
É certo que aqueles jogadores, ídolos de seus bairros, alguns ídolos municipais e regionais, tiveram participação na formação de muitos dos times. Também é certo que os mais talentosos foram buscados em outros centros para reforçar as equipes – era comum a fábrica optar pelo operário bom de bola no momento da admissão; ele seria certeza de reforço ao time da fábrica.
É no futebol, nos tantos campos de várzea locais, que aqueles jovens passavam por cima de convenções, preconceitos, modismos, com o propósito claro de, apenas e tão somente, jogar futebol aos sábados à tarde e domingos, preferencialmente, depois da semana inteira de trabalho quase sempre na indústria.
A São Caetano acanhada geograficamente, ainda de crescimento horizontal, demoraria uns anos mais para crescer para o alto, com os arranha-céus apontando para os céus do antigo Tijucuçu. E o futebol era tão considerado que equipes “do outro lado do rio” preferiam manter filiação à Liga de São Caetano – no caso deste álbum, a Associação Vila Alpina e o Esporte Clube Vila Bela.
AS ORIGENS DE CADA UM.
E a criatividade dos apelidos da nossa várzea.
Imaginávamos, para este artigo, identificar melhor os jogadores, com nomes e sobrenomes. Ainda não foi possível. A identificação levaria a descobrir as origens dos jogadores – se nascidos na própria cidade e região ou vindos de fora. O tempo tornou-se exíguo para percorrer cada bairro em busca de pistas daqueles times e atletas de um álbum que se aproxima dos 60 anos de edição.
No mais das vezes, os jogadores aparecem com seus apelidos, o que é normal em termos futebolísticos, basta que citemos os dois casos mais famosos do Brasil (por que não do mundo?), Pelé e Garrincha.
Há pistas boas, de qualquer forma, quando nos deparamos com jogadores de nomes conhecidos ou apelidos populares: Beloni, Bonato, Botega, Braido, Fiorotti I, Fiorotti II, Pain, Pavin, Piccolo, Sule e Zinho (tio do prefeito Auricchio).
Há nomes que podem oferecer pistas de naturalidade: Baiano, Cananéia e Servino.
Outros que nada escondem de preconceitos: Dito, João Preto e Nego.
Mas sobressaem-se os apelidos, um mais criativo que o outro: Alemão, Bacalhau, Bicheiro, Bororó, Cavalinho, Cinco Bola, Cupim, Diamante, Fritola, Fubá, Galinha, Maneco, Miroca, Nandinho, Passa Óleo, Peixe, Picão, Ponce, Sossego, Tigelinha, Tom Mix, Três Potes, Trovão, Vidraça e Zé Amador.
Imaginemos que o álbum de figurinhas aqui citado tenha mesmo sido editado entre 1955 (data de fundação dos dois clubes mais jovens do álbum, a Sociedade Esportiva Sata e o Clube Progresso) e 1956 – infelizmente, a publicação disponível não traz a data. Neste caso, aqueles jovens jogadores que corriam atrás de uma bola na São Caetano de quase seis décadas atrás estariam hoje numa faixa entre os 70 e 85 anos de idade.
Que caminhos cada um percorreu? Quem se fixou na cidade? Quem já partiu? – de São Caetano e da vida. Resta uma fonte primária, o próprio álbum de figurinhas, que antecedeu uma segunda publicação, esta mais nova, da segunda metade da década de 1950, e que também pode servir de pistas e, quem sabe, para um próximo artigo aqui em RAÍZES.
O FUTEBOL NO CAMPO DA HISTÓRIA.
Ou: O futebol do ABC de todos os tempos
Quando da realização do 10º Congresso de História do Grande ABC, em novembro último, em São Caetano, uma das mesas abordou o futebol entre nós, sob a coordenação do jornalista Geraldo Nunes, da Rádio Eldorado. Chegamos a mostrar algumas dessas páginas do álbum de figurinhas durante o painel. Por problemas técnicos, não pudemos apresentar todas as páginas. Então passamos uma lista: quem quisesse o álbum completo, que deixasse o nome e e-mail. A maioria quis conhecer o álbum, o que prova a paixão pelo tema futebol.
Pelas semanas seguintes tratamos de reproduzir o álbum em CDs – seria difícil passar todas as páginas pela internet. E agora, em RAÍZES, temos a oportunidade de voltar uma vez mais ao tema, sempre fascinante.
OS TIMES QUE ESTE ÁLBUM CONTEMPLOU.
Trinta equipes de todo o ABC
------------------------------------------------------
NOME FUNDAÇÃO
------------------------------------------------------
Fluminense FC (Santo André) 1-1-1937
AA América (Santo André) 2-1-1951
Ana Néri FC (Santo André) 12-1-1952
EC Vila Bela (São Paulo) 15-1-1945
GR Universal (Santo André) 25-1-1954
São José FC (São Caetano) 2-2-1953
Vila Prosperidade FC (São Caetano) 1-3-1929
SE Sata (Santo André) 1-3-1955
AC Swift (Santo André) 9-3-1949
CA Tognato (São Bernardo) 4-4-1951
Industrial Cerâmica FC (São Caetano) 19-4-1951
CA Ipiranguinha (São Caetano) 23-4-1949
Cruzada Esporte (São Caetano) 1-5-1939
SE Santa Terezinha (Santo André) 6-5-1943
JA Tamoyo (São Caetano) 15-5-1944
Associação Corinthians (São Caetano) 1-6-1933
Associação Vila Alpina (São Paulo) 6-6-1936
Vila Baeta FC (São Bernardo) 21-6-1938
CAR Progresso (São Caetano) 22-6-1955
União Jabaquara FC (Santo André) 20-7-1944
Meninos FC (São Bernardo) 24-8-1935
SE Guarani Unido (Santo André) 26-8-1947
América do Sul FC (São Caetano) 1-9-1947
Nacional FC (São Caetano) 15-9-1947
EC Parque das Nações (Santo André) 7-10-1930
SE Huracan (Santo André) 3-10-1948
SE Gisela (São Caetano) 10-10-1953
Clube Elite Utinga (Santo André) 8-11-1936
São Cristóvão (São Caetano) 8-11-1945
Bonsucesso FC (Santo André) 15-11-1953
========================================================
NOTAS
1 - As duas equipes de São Paulo - Associação Vila Alpina e EC Vila Bela - eram filiadas à Liga de São Caetano.
2 - Vila Prosperidade, com duas equipes - União Jabaquara FC e Vila Prosperidade FC - ainda fazia parte do Município de Santo André.
3 - Naquele tempo o "ABC" estava nascendo. Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra eram ainda distritos.
4 – O álbum aqui apresentado foi colecionado por Ary de Paula Batista, de Rudge Ramos. Nos foi apresentado por Angelim B
[1] Medici, Ademir. Migração e Urbanização. A presença de São Caetano na região do ABC. São Paulo-São Caetano do Sul, Editora Hucitec, PMSCS (série História), 1993.
[2] O álbum foi apresentado originalmente pela página Memória do Diário do Grande ABC, edição de 17-3-2009: “O nosso primeiro álbum de figurinhas”.
[3] Morcilo & Bisquolo. Figurinhas Varzeanas, com distribuição de brindes como bolas de futebol, rádios, bonecas e bicicletas. Sede: Rua Santa Catarina, 95, 2º andar, São Caetano do Sul. Carta patente 253. Sem identificação da data.
* A publicação das imagens foi um presente (um CD) que recebi do jornalista Ademir Medici, em 2009, ano em que trabalhei no Diário do Grande ABC,