Editora La Selva
terça-feira, 26 de agosto de 2014
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
domingo, 24 de agosto de 2014
DESLIZANDO COMO CISNES(O Globo, 14/06/1970)
NELSON RODRIGUES
Amigos, bem sei que ninguém se ruboriza mais. O último rubor
que se conhece ocorreu num baile da ilha Fiscal. De então para cá,
nunca mais ninguém ficou ruborizado. Mas este campeonato tem
sido uma experiência fabulosa para nós brasileiros. Vocês sabem o
que dizem os jornais ingleses do nosso futebol? Dizem apenas e
textualmente o seguinte: — “Devia ser proibido jogar tão bonito”.
Eles acham absurdo que o Brasil possa mandar para o México
um time de virtuoses, de estilistas. E, portanto, podemos baixar a
vista, escarlates de modéstia. É a Inglaterra que nos põe nas nuvens.
Cabe então a pergunta: — e as vaias? Esse mesmíssimo escrete, que
assombra o mundo, recebe as vaias humilhantes da própria terra.
Era como se fôssemos um time de pernas-de-pau, uma equipe de
cabeças-de-bagre.
E os “entendidos”? Estavam diante do óbvio e não enxergavam
o óbvio. Um deles, escrevendo sobre Brasil x Inglaterra, deu duas
notas dez aos ingleses e nenhuma nota dez aos brasileiros. Sempre
escrevo que o pior cego é o míope. O citado “entendido” não
desconfiou que o Brasil não é nada do que ele dizia, e nada do que
ele ainda diz. Todo mundo já sabe que não há na Copa um time que
se compare ao Brasil. E o “entendido” ainda está atracado ao mito,
ao pobre e falecido mito do futebol inglês.
Ontem a Inglaterra disse adeus à Copa. O juiz de 66 não estava
lá para inventar o gol que a Inglaterra não marcou. E ela perdeu para
a Alemanha. É um futebolzinho, o inglês, que só vinga sob uma
cínica, deslavada cobertura da arbitragem. E o futebol brasileiro, que os “entendidos” sempre negaram ou, na pior das hipóteses, sempre
subestimaram? O “entendido” escreveu, outro dia: — “Não somos os
melhores”.
E vocês viram o jogo com a Tcheco-Eslováquia? Levou do Brasil
um banho de Paulina Bonaparte. Em seguida, a Inglaterra, a favorita
dos nossos “entendidos”. Ganhamos por 1 x 0. Um gol só, mas que
valeu por cinco. Vocês se lembram do lance. Tostão apanha a bola,
dribla um inglês, outro inglês. E ao terceiro inglês, passou-lhe a bola
por entre as pernas. Em seguida, o formidável craque, vendo que os
adversários, em hordas, vinham caçá-lo, deu uma maravilhosa
virada para Pelé. O sublime crioulo está com a bola nos pés. Três
ingleses rugem para ele. E, então, Pelé os engana lindamente. Em vez
de chutar, passa para Jairzinho.
Jairzinho recebe a bola e engana mais um inglês. E manda
uma bomba no canto. Esse gol, de uma trama genial, foi um
momento de eternidade do futebol mundial. Mas os “entendidos”,
embora presentes, estavam lá para admirar os ingleses. Contra a
Romênia, fizemos 25 minutos iniciais de um futebol nunca sonhado.
Era um jogo fácil. O Brasil merecia ganhar de uma goleada
astronômica. Depois da Romênia*, o Peru. Os gols que perdemos são
incontáveis. Dois lances geniais de Pelé explodiram na trave. Tostão,
que fez dois, perdeu uns três. Antes que eu me esqueça, uma
pergunta que gostaria de fazer aos “entendidos”: — e a famosa e
irracional velocidade, que era uma característica fundamental do
futebol europeu? O Brasil, quando quer, corre mais que os europeus,
e quando não quer, põe-se a passear em campo, a deslizar como
cisnes, sem nenhuma pressa, nenhuma. Afirmava-se também que os
europeus não deixavam jogar. Eles não fazem outra coisa senão
deixar o Brasil jogar.
Mas falo, falo, e não digo uma palavra sobre o meu personagem da semana. Vamos dar-lhe nome: — Tostão. Foi uma enorme figura.
Marcou dois gols e foi um criador de jogadas maravilhosas. Já a sua
atuação no gol contra a Inglaterra foi um lance de gênio. Mas o que
eu queria chamar a atenção de vocês é para o abnegado e formidável
esforço de Tostão. Saído de uma crise vital, aceita todos os riscos
para servir ao escrete. De quinze em quinze minutos, seu futebol
cresce. Está entre os cinco ou seis maiores jogadores do mundo em
todos os tempos. Como influiu para a nossa vitória sobre o Peru! Fez
uma série de coisas perfeitas e irretocáveis. Já na semifinal da
quarta-feira, espero que ele apareça em estado de graça plena.
Imaginem Tostão dando tudo, Pelé dando tudo, Jairzinho dando
tudo, Rivelino dando tudo, Gérson dando tudo.
* Brasil 3 x 2 Romênia, 10/6/1970, em Guadalajara. Terceiro jogo pelas oitavas-definal.
Brasil 4 x 2 Peru, 14/6/1970, em Guadalajara. Jogo pelas quartas-de-final.
sábado, 23 de agosto de 2014
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