domingo, 21 de novembro de 2010

UM PINTASSILGO NA SELVA ELETRÔNICA (Folha de S.Paulo, 26/08/1983)

 

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PEPE ESCOBAR

Fuzilem o luluzinho de estimação, envenenem com arsênico a menina e a erva – coitadinhas, tão inofensivas -, ponham todos para fugir da blitz, prendam e arrebentem gangs de noventa séculos de idiotia, atropelem os pegajosos motoristas de rádio-taxi, esmaguem abelhas, lobos e chacais assassinos da poesia. Está instaurada a diferença. Surge um tigre voador de mecha loura sobre longos fios negros para provar que a atual produção musical brasileira não se limita aa fossa de Java da estupidez abissal. Atenção: ele não é o Bowie de “Space Oddity”. Não é um andrógino retrô. Nem acabou de ler “A Nova Ordem Amorosa”. Ele é Pepeu Gomes, guitarrista virtuoso, ex-um-dos-mais-rápidos-do-mundo, definitivamente livre da síndrome Alvin Lee. Gato-do-mato, epicurano , jogador, sonhador, “posso ser um louco”, 31 anos, filhos, furação, fã de B.B.King – “quando estiver com 60 anos quero estar na mesma forma que o velhinho”. Sabe tocar. Tem swing. Bárbara diferença.

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“Masculino Feminino”, 28º disco da fera em 18 anos de carreira, deve ser levado em conta como uma grande brincadeira, sem eira nem beira, para quem critica levar rasteira.

Pepeu foi convidado pela CBS para gravar nos EUA um álbum para o mercado brasileiro, com todos os recursos imagináveis, produzido por Ronnie Foster, “um músico absolutamente total”. Foi um choque, como se Jerry Lee Lewis entrasse no meio de uma sonata de Scarlatti. Pepeu, o “pintassilgo”, misto de McLaughlin e violeiro de beira de lagoa na Bahia, de repente enlouquece no meio da feérie computadorizada dos Yamaha Studios de Los Angeles: 45 dias de subversão em 48 canais rigorosamente high-tech. Claro, num belo dia o computador pifou.

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Pepeu costuma vender em média 40 mil LPs de cada lançamento. Espera-se que “Masculino Feminino” venda pelo menos 200 mil. Em termos musicais , é o resultado prático das overdoses energéticas de Pepeu após um ligeiro filtro por parte de Foster e disciplinados músicos de estúdio de L.A ., incluindo Larry Williams, íntimo de Michael Jackson.

Não é avant-garde funk, synth pop ou etnopop: é um produto Novos Baianos embebido em batidas mais rock e pontuações eletrônicas inventadas por Pepeu, que, por exemplo, ao entrar em contato íntimo com as baterias eletrônicas, programou ritmos capazes de provocar densas nuvens de perplexidade no estúdio.

Alguma coisa perturbadora ? Não exatamente. Um preciso tema instrumental, “Fazendo Você Sonhar”, com guitarras apoiadas em bateria eletrônica, percussão e cordas sintetizadas; um rock mixado na medida, à exceção do solo de guitarra longo demais; e algumas flexões integrando swing africano-baiano com a eletrônica “with a human feeling”. O mais interessante é o “conceito” no qual vêem embaladas as brincadeiras do menino-pintassilgo.

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“Masculino Feminino” recupera o defunto sonho da integração comunitária andrógina de matizes espiritualistas. Mas a repetida elegia da luz divina – branda, bissexual, apagando todas as ambigüidades – orquestrada em palavras por Baby Consuelo e transmitida pela vozinha fina de Pepeu, só pode organizar a fruição deste produto como uma engraçadíssima paródia. Procura-se o sentimento nacional popular na música pop brasileira atual ? Já foi encontrado. Este pintassilgo é um saudável brincalhão.

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Ele inclusive controla melhor suas overdoses. Depois desta “lição de profissionalismo”, não pretende mais gravar no Brasil: “Aqui não existe mentalidade para se compreender certos avanços. As cabeças não estão open. Isto inclui tanto o público quanto as pessoas envolvidas com música”. Buscando à sua maneira o som de uma super-banda, enlouquecendo computadores ali ao lado de Silicon Valley, Pepeu só pode achar que o rock não dá certo no Brasil: “Só vai funcionar quando começar a utilizar profundamente nossas raízes. Para mim seria muito fácil compor um roquizinho de parada de sucesso. Mas acho que para se progredir interiormente , através da música, é preciso buscar novas fusões com muito trabalho e experimentação”.

Tudo, portanto, se resume a uma brincadeira inofensiva de um guitarrista que poderia ser capaz de organizar uma síntese musical digna de desterrar Paco de Lucia para o mar dos olvidados. Um antídoto contra o rock-idiotia bem vendido pelo marketing e celebrado pela mídia. Vivemos de antídotos. Uma questão de karma.

Salve-se quem puder.

 

Melhor que o Yngwie Malmsteen…

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