Royal Albert Hall (Londres)
25/04/86
PEPE ESCOBAR
Esta possivelmente, será uma das grandes bandas do final dos anos 80. Tem o feeling certo, a intensidade certa e até front man carismático indispensável. Mike Scott, cantor compositor, guitarrista, pianista e arranjador dos Waterboys, tem pretensões épicas e parece um poeta solitário – longos cabelos, olhar perdido e provavelmente uma obra-prima em pocket book no bolso do sobretudo cinza. Scott é basicamente um modernista, na linha de Bono Vox, Morrissey, Ian McCulloch e os inescrutáveis irmãos Reid do Jesus and Mary Chain. Um escultor de sons no espaço, um artesão sonhador vagando em minimalismo e construções monumentais. Ou seja: um esteta.
Refinado como uma aquarela de Blake, Scott não pode ser, naturalmente, um bombom para milhões. Este é o primeiro ano que os Waterboys lideram sua própria turnê. Estão no terceiro LP, dos quais o último, This Is The Sea, é quase uma obra-prima pop. São a cult band dos universitários ingleses – o próprio Scott foi aplicado aluno de Inglês e Filosofia na Escócia.
Pose ? Nada disso. Apesar da bacanália sonora, do wall of sound construído em cima de piano, violão acústico e sax, um show dos Waterboys chega a ter puro rock’n’roll ou climas próximos de Neil Young, de quem Scott seria um remoto contraponto tardio. Ele é um arranjador extremamente virtuoso, orquestrando suas fartas cachoeiras poéticas com massas de guitarras acústicas, percussões pomposas, aquele baixo de fazer vibrar qualquer espinha – uma estética do excesso que no entanto parece tão natural quanto a estética da ausência privilegiada pelos Bunnymen.
Ao vivo, os Waterboys emocionam, chegam a se arrastar, mas também conseguem produzir uma inevitavelmente saudável demência dançante. Scott – de calça de couro, seu uniforme – lembra Young, Dylan ou até mesmo The Boss, mas com um ar baudelaireano que escapa aos superídolos made in USA. Os americanos continuam apaixonados pelos épicos instantâneos de U2 e Simple Minds. Se Scott arriscar um pouco mais, e ao mesmo tempo conseguir um hit de rádio, chegará a este Olimpo. Mas veja lá, Scott man: não me vá afundar com este soberbo tumulto acústico contratando um produtor de discoteca.
Nos anos 80 fui até uma loja para comprar o disco. Chegando lá travei o seguinte diálogo com o vendedor:
- Você tem o LP dos Waterboys ?
- Aí, vê pro rapaz um discos dos WALTER BOYS !
- (Não temos).
- Sinto muito, mas não temos nenhum disco do WALTER BOYS !
- Então tá bom (disse). Você tem Beastie Boys ?
- Opa. Temos sim !
Segundos depois o vendedor chega com um álbum dos BEACH BOYS…
(Por sorte havia por perto a Galeria do Rock)
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