domingo, 27 de março de 2011

UMA VIAGEM AO INFERNO, NAS ASAS DOS GAVIÕES (Folha de S.Paulo, 12/12/1983)

 

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PEPE ESCOBAR

Esta é uma viagem à replica tropical da sucursal do inferno.

Gaviões da Fiel, canto inferior esquerdo, acima das cabines de rádio, três da tarde. Prenúncio de tempestade, mas nada no céu tão negro quanto a massa humana. Mísseis de ogivas multidirecionais – de papel higiênico, serpentina, detritos variados ou pedaços de rojões – cruzam o espaço intermitentemente, em velocidade vertiginosa. Como aliviar o tédio ? Gaviões transformaram-se em abutres; e qualquer sujeito – e objeto – em movimento é um alvo preferencial. Do “outro” lado, na “nihilista” (segundo expressão de um torcedor) torcida do São Paulo, reina uma paz de pó de arroz e confetes delicados.

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A polícia não entra nesta terra desolada. Quando surge uma escola de samba na pista – A Rosas de Ouro – os Gaviões transformam-se em águias lúbricas. A cada rebolado de uma mulata licenciosa, voam mais projéteis. Às quatro e meia , os dez primeiros degraus da arquibancada estão infrequentáveis. Uma figura esperneia. Leva cacos na cabeça. Sai sangue. Ele sai rindo.

De repente, o céu está – agora sim – mais negro que asa de qualquer graúna ou urubu diplomado. É o Curintia em campo, para delírio de donos de consórcios que almoçaram correndo em casa, depois de transarem correndo com a mulher – com medo de perder a hora com a turma, ou do semelhante, aquele que tomou quatro ônibus, veio enrolado na bandeira, tomou 348 projéteis na cabeça e bebeu tanto que quase perde o jogo.

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A nuvem negra sufoca a todos – são objetos semelhantes a rojões, de onde sai um satânico negrume, misturando-se com bolos de serpentina branca e uivos ensandecidos. Esta é a receita do delírio tropical que os comunistas da PUC adoram.

Se no segundo tempo os dois times foram vencidos pela chuva, no primeiro reinou incólume a monotonia . Os gaviões viraram periquitos – afiando garras apenas para dirigir imprecações a Zenon ou a todo o ataque. Quando alguns já começavam a penar antecipadamente a viagem de volta, veio o gol de Sócrates. Mais projéteis. Petistas enlouquecidos, nessa hora, até apoiavam as indiretas – contanto que Sócrates estivesse na lista. Legiões de corpos emporcalhados até a medula perpetravam um Woodstock no cimento, até se esqueceram da entrada de Sandra Bréa no início da partida, saudando a torcida.

“Ela não está no mehor de sua condição física”, comentou um gavião ilustrado.

No segundo tempo, rigorosamente nada aconteceu até a primeira chance de gol do São Paulo aos 23’’. Solito salvou, sabe-se lá como, e São Pedro, para comemorar, abriu as torneiras dois minutos depois. Outra chance, aos 26’’, foi desperdiçada com a bola batendo no corpo molhado de um fosco indistinguível (pelo menos para a torcida) na defesa corintiana. Continuar nos Gaviões seria o máximo do masoquismo. No São Paulo, o nihilismo chegava às últimas conseqüências. Restaram apenas os pingos da chuva, como no melhor pop dos anos 60.

Sandra Brea

Nas numeradas, o final do preconceito de elite: a maioria absoluta era corintiana. Olhando para o alto, a partir das numeradas superiores, observava-se o que restou dos Gaviões: um bando disperso de chacais uivantes, literalmente pingados – e pingando. Concluída sua temporada no inferno – para eles, a versão mais acessível do paraíso -, rumaram felizes para o último grau do etilismo.

Mas fica-se imaginando o que sentiria um legítimo gavião caso penetrasse na sala de imprensa, após o jogo, e no meio de outra multidão de corpos emporcalhados – estes um pouco mais ilustrados – encontrasse a anfetamínica Sandra Bréa reclamando das trombadas que levou da segurança do Corinthians. Com a libido desenfreada em estágio final, só lhe restaria se atirar sobre a dita, urrando salve o curintia.

E comemorar o campeonato quase ganho em estilo. Ou sem.

 

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