Reagan e Gorbachev dão um passo histórico. Mas o mundo continua imerso em podridão
PEPE ESCOBAR
É possível que Ronnie Reagan e Gorbachev, em Washington, tenham iniciado um novo capítulo na história da humanidade. É possível – e é o que a humanidade espera.
Mas, sob os flashes espetaculares da assinatura de um tratado, uma outra cúpula artística passou despercebida à voracidade da mídia planetária. Trata-se de uma troca entre a National Gallery de Washington e o Hermitage de Leningrado. A esplêndida galeria americana cedeu um São Sebastião, de Tiziano, aos soviéticos. Estes retribuíram com um Laocconte, de El Greco.
Muito significativo. O São Sebastião flechado é um dos símbolos capitais de martírio da iconografia – e no inconsciente da civilização ocidental. Representa a dignidade (a que ainda resta) do ser humano e sua capacidade de suportar o sofrimento. O Laocconte elabora o mesmo tema em outro contexto. Laocconte e seus dois filhos são mortos por duas grandes serpentes enviadas por Apolo. É a vingança do deus olímpico, porque eles alertaram os troianos sobre o cavalo de madeira construído pelos gregos.
Essa Cúpula de Museus é tão importante quanto o encontro de Washington – especialmente em um momento histórico quando o pessimismo, a incerteza e os temores fin-de-siécle avançam como cavaleiros mascarados em todas as latitudes. Há poucos dias a manchete de capa do La Repubblica romano sintetizava o estado de espírito de um continente: “A Europa Afunda”. Isso não se refere apenas à Europa dos 12, os problemas do mercado comum: vale em relação ao avanço da extrema direita, a pobreza espiritual, o submaterialismo (mesmo pós crash de 87), os cortes absurdos nos orçamentos para a educação, os excessos na produção de alimentos, que poderiam, mas não são, destinados às nações do quarto mundo. No caso da Inglaterra, de onde escrevo, vale em relação ao intervento da dama de chumbo castrando a capacidade crítica da BBC, ou à degradação absoluta dos serviços públicos nesta ex-sede de Império.
E o Brasil ? Também há poucos dias, logo abaixo da cúpula de Washington, aparecia na primeira página do International Herald Tribune, a bíblia jornalística deste planeta, matéria do correspondente do New York Times, no Rio de Janeiro, Alan Riding, sobre os brasileiros em debandada de seu país. Riding enumera todas as causas do que termina se manifestando, em cada um de nós, como uma profunda tristeza interior: inflação, oba-oba político, tensão social, corrupção, o fato de que certas elites de poder – tropicais e oportunistas – tenham achado que podiam financiar um desenvolvimento gastando impunemente bilhões de dólares emprestados. A matéria afirma que o sonho de dois terços da classe média urbana brasileira é deixar o País. um entrevistado realça que os brasileiros são “passivos e apolíticos”. Outro sintetiza: “Está é uma terra sem regras, sem responsabilidades e sem vergonha”.
O mundo inteiro – que conta – leu e, agora, já sabe. Acabei de sair de uma entrevista com Chryssie Hynde, a pretender girl, e tudo que ela queria saber do Brasil era sobre a devastação da Amazonia. O Brasil afunda – pelas mãos dessas elites fecais. A Europa afunda. A América afunda – é o tema central dos melhores textos deste final de 87, escritos por Gore Vidal, Alexander Cockburn ou Saul Bellow. Oculto sob tanto som e fúria, perplexidade e desespero, o São Sebastião e o Laocconte, em suas novas casas, dialogam em silêncio. Refletem nossa capacidade de suportar o sofrimento. As flechas nos trespassam. As serpentes nos envenenam. E continuamos sonhando com um futuro imune ao terror suave e à implacável queda.
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