domingo, 12 de junho de 2011

OS LEÕES DA SALSA CONTRA O SOSSEGO DOS MEDÍOCRES (Folha de S.Paulo, 27/01/1984)

PEPE ESCOBAR
O que você está esperando ? Bote uma camisa florida, um tênis folgado e vá rebolar no Lira Paulistana com o Sossega Leão, a maior usina salsera do continente americano desde as diabruras de Mongo Santamaria. Eles tocam de hoje a domingo e prevê se o comparecimento de várias guarnições  do corpo de bombeiros para apagar seu fogaréu sonoro.
pepe sossega
Os doze Leões , de 18 a 28 anos, compõem a resposta – e a homenagem – paulistana a toda a formidável salada de ritmos e gingas produzidas pelo Caribe nas últimas décadas.
Mambo, rumba, bolero, reggae e a mítica salsa, de Perez Prado a Iraquere , de Chuck Rio a Kid Creole. Qualquer dia começam a atacar de ska e dub: tem estofo para tirar o emprego até dos magos do estúdio da Jamaica. Além de todo seu feeling e ataque , representam um verdadeiro serviço de utilidade pública, porque a música latinoamericana dançante, a partir dos anos 60, passou a ser, abolutamente ignorada pelas gravadoras estabelecidas no Brasil. Já o subtecnofunk e o heavy metal internacionais têm livre trânsito nas previsões de lançamentos. Sem dúvida, não há limites para a estupidez humana.
Os Leões se reuniram e montaram esta fábrica de som há seis meses, em alguns dias. O “professor” Escova, baixista, ex-Premê e Xoro Roxo, é Gran Salsero, maestro e vocalista. nas guitarras, Cabelo e Tuba, um fanático de inimitáveis Iraquere e também compositor (“Mambo”, “Antonio Maurício” e “Teresa”).
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Guga ataca na marimba e compôs “Elefantes da Martinica” em parceria com Tuba. Fernando segura a percussão, auxiliado por Alaor e as intervenções de André nas congas. No naipe de metais, pimentas bravíssimas, com Chico Guedes (sax, ex Arrigo band), Matias (trombone), George (sax) e Faria (trumpete). Se a bandinha que acompanhou o aguado Jimmy Cliff ouvisse  o rugir dos Leões, certamente pediria asilo no Camboja.
Para eles, esta temporada – a primeira – é fundamental. Até agora só ensandeceram as platéias em bailes – da Noite do Caribe no Sesc Pompéia ao Natal na escadaria do Municipal, passando por inúmeras festas no interior. Agora lançam suas composições próprias, ao lado das  versões de “Tequila” (Chuck Rio), “Caribe” (Marku Ribas) ou “Maria Caracoles" (Santana). O som está denso, infernal, os improvisos rolando soltos. A banda está a ponto de explodir. Gravando um compacto, e fazendo shows em teatros maiores, além de uma necessária passagem pelo Circo Voador e o Noites Cariocas, no Rio, poderiam se converter na maior sensação musical de 84. Porque eles tem tudo que 90% deste pretensioso , desinformado e idiotizado novo roki brasileiro não tem:
Balanço, exuberância musical e autenticidade. Não adianta: ninguém vai sossegar mais quando cair na dança deste luciferiano Leão.

Conferi o show deles,no Teatro Municipal de Santo André ,neste mesmo ano. Foi bacana.

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