terça-feira, 27 de setembro de 2011

MULHERES E MONSTROS

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MULHERES E MONSTROS – João de Minas
Editora Unitas (1933)
Eu ia já me afeiçoando àquela dura mulher. Como que ali mesmo já tinha saudade de sua palavra atrapalhada, de seu olho azul, robusta como a velha e imortal Alemanha de meus avós!
Agora, a tarde ia caindo, como uma tela santa dourada de iluminura. A paz imemorial da terra virgem era a esponja do infinito. E ia se embebendo da luz crepuscular, sorvendo o vinho roxo do ocaso.
Deus se pulverizava nos espaços perdidos.
E assim a solidão vivia, fugindo ao coração negro da noite. Olhando aquilo tudo, com meu cigarro esquecido na boca, uma sutil recordação religiosa da meninice foi se erguendo em meus nervos.
Havia um grande cristo de pau, pálido e paternal, no fundo lúgubre dum corredor de colégio de padre. Eu tinha 12 anos e estava interno nesse colégio. Os padres se deliciavam, volta e meia, me puxando as já longas orelhas. E eu vinha no corredor, fulo de raiva, com as orelhas ardendo. E parava diante do cristo, e pedia desgraça pra meus algozes. O cristo, na sombra, parecia me sorrir, se azulava, se diafanizava, numa claridade inefável.
Um dia um padre, coitado!, quebrou uma perna. O fui visitar em sua cela, incorporado a todos os alunos. E em seguida, escondido, fui pôr uma flor agradecida aos pés do cristo, num copo dágua.
Durante muito tempo, depois, nos buracos da vida, essa imagem de Jesus não me saiu do coração e da saudade.
Agora ali, naquele anoitecer na vastidão do Araguaia, a imagem divina da meninice me voltava ao coração.
O rio ia descendo, serenamente formidável. E o cristo de outrora, o símbolo das ilusões e dos sonhos mortos, como vinha me encontrar, andando sobre a água.
De repente um olho vidrado, branco, subiu da planície fulva do oriente. Era a estrela Vésper.
Estávamos diante da barraca da doutora, depois do jantar. Dois honrados burros, que ela trazia pra seu serviço, pastavam perto, teimosos em escutar nossa conversa. É que miados de onça, no entardecer, vieram da floresta próxima. Os talentosos burros se apadrinhavam conosco, e se encostavam muito um ao outro, de orelhas empinadas, ou escorridas na direção do fio do lombo, pegando o rumo do vento.
Kremlen ia nos deslumbrando.
Em 1926 ela fora ao Egito, pesquisar os túmulos faraônicos, procurando o segredo dos miraculosos embalsamamentos.
Em verdade, discorria a sábia, sentada no chão, fumando cachimbo, a cultura científica moderna é ridícula. Os egípcios sabiam também embalsamar a vida ou a amarrar, a roubando durante milênios aos imperativos fatais do tempo destruidor. Os egípcios embalsamavam, por exemplo, a vida dum grão de trigo. O grão ficava puro e impassível. Podiam passar quatro mil anos. A semente era a mesma, e sempre germinaria.
— Assombroso! — Confessei.
Kremlen ficou muito séria, um sério confidencial e comovido. O fanatismo da sabedoria, a ânsia a indagações supremas fulgia nos beiços, sutilmente trêmulos. Nos contaria imensas intimidades científicas. Sim, doutora Ana Kremlen não perdera tempo se atolando nos terríveis mistérios faraônicos: Ela, luz de saia da velha Alemanha, a potente e a gloriosa, descobrira o segredo egípcio dos embalsamamentos! Descobrira mais, suprema glória!, o meio de se fixar na cara dos cadáveres embalsamados todas as emoções da vítima no momento da morte. Se podia embalsamar o pavor da morte, a máscara do horror, da agonia.
A noite descera completamente.
Nosso fogo rolava clarões lívidos no vigor muscular da treva, onde se emboscavam gigantes e feras imaginárias. Os burros estavam colados ao fogo, onde as onças não chegam.
Foi quando a doutora teve um ímpeto de vaidade. Nos provaria o que afirmava.
Entrou depressa na barraca, e voltou com uma caixa de zinco e uma lanterna. Xaraim se ergueu, e ficou segurando a lanterna. Eu estava a seu lado, num mal-estar indefinível.
A doutora tirou da caixa, devagar, com amor, com cuidado, uma coisa negra, que levou à luz morta da lanterna. Aquilo era horrível!
Uma cabeça humana, cortada cerce na base do pescoço, cravava em nós os olhos rubros de onça acuada.
A cabeça, dum negro, estava prodigiosamente viva, e conservava todo o impulso explosivo do instinto de conservação na hora da morte. Mas eu ia, mais calmo, observando melhor aquele horror.
O queixo era amplo, os dentes agudos e alvos, selvaticamente arreganhados, a testa sumida, o cabelo como cerda. Aquela cabeça seria dum homem ou monstro? Estaria eu diante dum assassínio?
Uma idéia me varou o cérebro. Xaraim! Xaraim se parecia com aquela cara apavorante.
A doutora, muda, forte e feia, pelo cabelo segurava a cabeça decepada à luz da lanterna.
Começou a explicar, com gravidade acadêmica, que aquele despojo fúnebre revolucionaria o mundo científico.
É que na ilha do Bananal, como um ramo da tribo dos índios urubus, ainda se encontra o homem-macaco. Kremlen conseguira atrair um homem-macaco.
E um dia, de surpresa, dominou o monstro confiado, o amarrou e começou a o supliciar cientificamente, a fim de lhe provocar na cara todo o convulso pavor da morte, todos os tons dramáticos da dor, do ódio, do horror impotente.
Feito isso, com uma navalha de necrotério foi, carinhosamente, degolando a vítima, que assim guardou até o final uma fisionomia agitadíssima. Era a máscara suprema do pavor, que Kremlen logo embalsamou, aplicando o segredo maravilhoso descoberto nos túmulos faraônicos.
E era assim que tínhamos ali, diante de nós, a cabeça viva do morto inocente.
De repente, Xaraim começou a chorar. Guinchava sua desgraça:
― Essa cabeça é a de meu pai. Eu sou da ilha do Bananal. Eu digo qui sou baiano do Pará é só pra fazê respeito, prus otro pensá qui eu sou da estranja.

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