domingo, 2 de outubro de 2011

UMA DAS MIL E UMA NOITES (O Estado de S.Paulo, 24/03/1988)

pepe empire rainha
PEPE ESCOBAR
Foi uma cerimônia lovely, oh so lovely. Nunca se ouviu tanto lovely em público na Inglaterra, desde os reais casamentos de Diana e Fergie. A ocasião, nesta última terça-feira à noite: o pomposo 1988 Royal Film Performance. Ou seja, o dia escolhido para a rainha - informalmente conhecida, do leiteiro ou do carteiro, como Betty, The Second - ir ao cinema, com gala, pompa, circunstância, hot-dog, pipoca e quem sabe até um cochilo na poltrona real no momento clímax do filme.
pepe imperio do sol Para a Film Performance real, só poderia ser escolhida uma produção idem: Empire Of The Sun (O Império do Sol), do orgulho de Cincinatti, Ohio, Steven Spielberg. Embora deserdado pela Academia de Hollywood, Steven não tem do que se queixar: Betty, The Second só faltou lhe beijar a mão. Além disso, rentabilizou milhões extras com a blitzkrieg mercadológica desencadeada pela Warner: cerimonia real, especial de TV, relançamento do romance original de J.G.Ballard, camisetas, chicletes, etc.
pepe empire poster Leicester Square lotado. Multidão em transe. Flashes a go-go. Tapete vermelho. Betty, The Second, chega no segundo cronometrado, às 23 horas, em sua limusine negra. Dá a benção - ou concede uma miniconfissão - a cada um de uma enorme fila dentro do Leicester Square Theatre: gente da Warner, produtores, o escritor Jim Ballard, o roteirista Tom Stoppard, extras deslumbrados, Twiggy (vestida de extra deslumbrada), Cher (de batom púrpura, possuída pela lua), Miranda Richardson (fantasiada de beduína chic), o garoto Christian Bale (personagem central de Empire Of The Sun), e o eterno adolescente Steven.
Finalmente Betty, The Second, pôde acomodar-se com seu saquinho de pipoca e penetrar no curioso encontro do sentimentalismo de Spielberg com a ficção especulativa britânica. Em vez de pegar um Ballard radical como Crash, Steven resolveu recriar uma novela semi-autobiográfica na Xangai de 1941, maleável para a extração de toneladas de lágrimas transnacionais. A boa vida de um garoto (Ballard, o próprio), em meio a golfe, piscina e criados, é subitamente interrompida pela histeria camicase dos guerreiros do Sol Nascente. Os japs de Spielberg parecem samurais insanos ou zumbis descerebrados. Empire Of The Sun é mais um Spielberg "maduro". Em termos técnicos e estilísticos, assim como casting, é esplêndido.
Mas, apesar da extrema habilidade na manipulação de emoções, é rígido, até mesmo glacial.
Não importa. A Film Performance foi um sucesso. Betty, The Second não poderia deixar de se congratular com o heroísmo britânico enfatizado por Ballard, Stoppard e Spielberg, e a bravura de seus fabulosos súditos-atores.

pepe tyson
Enquanto isso, a tysomania comia solta no inacreditável Tóquio Dome, onde 55 mil incrédulos homens-yen mal tiveram tempo de ver como a máquina de matar Mike Tyson teve mais trabalho para chegar ao ringue do que para soltar o míssil que arrasou com o vulgo TNT de Cincinatti, Tony Tubbs (por curiosa coincidência, conterrâneo de Steven).
Ausência sentida na oh, so lovely pompa e circunstância da Royal Performance foi, sem dúvida Margareth Thatcher. Maggie preferiu ficar em casa torcendo para Mike Tyson - e fazendo as contas do novo budget anunciado pelo seu ministro do Tesouro, Nigel Lawson. Esse budget representaa bomba final no welfare state inglês. Os ricos ficam mais ricos, com o corte de um terço na taxa mais alta de imposto de renda. Com muito mais dinheiro pelo banco, por que vão trabalhar mais ? A Inglaterra volta à injustiça social ? O povo que se arrume e economize  uma semana para pagar um ingresso e aplaudir Empire Of The Sun. Com Maggie não tem essa de sentimentalismo: é míssil na cabeça, como seu ídolo Mike Tyson.
Betty, The Second pelo menos, ainda mantém um certo estilo nesta ilha...

Quando assisti em 1988, achei surrealista.

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